“Notas”- 20/08/2015

Sem medo de responder “Não Sei”

“Fernando, você viu as manifestações, os cartazes?”

Esta pergunta ouvi de interlocutores vários semana passada, e hoje governistas mostraram suas cores. Não vi nada que pudesse, em uma e outra, formar juízo da situação, de sinais de fumaça não se analisa política, penso.

Poucos admitem não ter bola de cristal diante do teclado, os anunciadores do “Fim da Era PT” não se admitem afoitos, e cada qual tem a data precisa da renúncia, do impeachment, da “tomada das ruas”. Eu não. Admito gostar do que vejo, mas sempre reitero minhas dúvidas, meus titubeios lógicos: “Se esta senhora cair, não estancará por sua vez o rio de fúria das massas?” Não acredito em saída desta situação servida assim como café  instantâneo.

E não poderia servir-se o Brasil deste espetáculo por mais tempo?

Negros pobres com cartazes em que reivindicam seu status de “Elite Branca”, a criatividade dos manifestantes que se recusam a levar esta gente em tom de seriedade, estes populares discutindo votos de Ministros do STF como até há pouco discutiam somente técnicos de clubes de futebol? Por que não extrairmos tudo que este espetáculo de apodrecimento deste ciclo político propicia?

O número que estes governistas estrelam também têm seu charme: um rockeiro, tatuado, deitado na cama, desabafando em vídeo sua insônia quanto aos humores da população, como fez recentemente Tico Santa Cruz, não tínhamos antes. O discurso de um velho reacionário pregando prudência, advertindo sobre o “sangue nas mãos” é como um áudio negando o vídeo, como uma montagem engendrada por um satirista eletrônico de vanguarda.

Ou os comentaristas de sites e blogs, exteriorizando o pavor do “que poderá vir desta brincadeira”, conscientemente assumindo o risco do papel de bajulador de poderosos, ainda que assinando-se “João”, ou “Manoel”, também será às próximas gerações algo de muito interesse. Ou ex-jornalistas com os mesmos temores em sites financiados por estatais, ou sites em que buscam sobreviver ao ostracismo.

Temo que muito disto tudo se esvaia com a realidade que surgirá após possível queda deste governo, sobretudo se dada de presente aos eleitores que colhem o resultado de seus sonhos de ventura sem esforço. Quanto não será engolido pelo vácuo que surgirá de uma explosão abortada, como um recuo dos poderosos diante do descontentamento geral?

Não sei mais o que responder aos que me indagam sobre esta manifestação, ou aquela fala presidencial. O que achei do silêncio presidencial diante de ameaça aos descontentes com o Governo ao qual serve, de um líder de frente sindical associada ao PT, renderia um texto (o qual não fiz, não postei semana passada), sobre o silêncio, ainda mais aviltante, dos Poderes (sobretudo a Imprensa) que não interpelaram a presidente Dilma Rousseff sobre sua não intervenção. Como não a interpelaram nas ocasiões em que se criticou o STF quando do Mensalão, em sua  presença. A leniência ali abriu caminho a esta mais recente, e tudo vai se suportando, percebendo-se como uma ocorrência rotineira, nada escandalosa.

E o que não é, senão a desmoralização do escândalo, este período petista?

Imagino Nelson Rodrigues se vivo e atuante. Tipos como os governistas no Congresso, nas Universidades, os “petistas envergonhados” (“Não gosto do PT, mas..”), os ex-funcionários de grandes empresas jornalísticas se apresentando como combatentes (o mais espantoso nestes é terem público crédulo) do socialismo contra a “Imprensa Golpista”.  Ah, tudo isto corre sem a verve de Nelson como narradora. Mesmo Tarso de Castro seria um cronista que podemos  apenas imaginar (não consigo imaginá-lo, ainda que criticando a Imprensa, sobretudo “Veja”, defendendo o Governo e recomendando prudência, como uma velha segurando o vigário pelo braço) o que diria destes personagens e deste momento.

Não posso assegurar o que estes jornalistas escreveriam, mas acredito que tampouco se recusariam a admitir perplexidade, e não negariam a delícia de assistir a desmoralização de tanta fantasia, de tanta reputação construída em país com nível de exigência baixo, baixo a ponto de inspirar piedade pela carência, mãe deste nivelamento pelo raso.

Eu admito não saber a duração deste despertar cívico, e se dele surgirá alguma elevação do nível de exigência – haveria nos gestos de brasileiro para brasileiro algo que autorize apostar neste renascimento espiritual?

Não haveria, em muito da fúria da massa, rancor por descobrir fictícia a cachoeira de leite achocolatado? Não há, na escolha de líderes de devoção, os mesmíssimos sintomas de ignorância, de rebaixamento de padrão intelectual- quanto aos nomes que substituiriam os nomes do Governo em futuro hipotético? Falo com alguns interlocutores sobre José Serra, por exemplo, e ouço considerações sobre sua “falta de carisma”. O que ele aponta como erros de seu partido – erros responsáveis por muito do que sofremos hoje- não é tomado em conta muito por sua falta de recursos cênicos, e isto me faz duvidar de muito do que celebram no “Despertar do Gigante”.

Há uma ebulição que deve ser mais valorizada em si do que dela poderá resultar, em suma.

E esta ebulição faz com que eu tenha saudade dela já. A realidade de um país em processo lento de maturação me é tediosa, e antevejo os movimentos que lideranças preparadas ensaiam no que já escrevi aqui como o “Pós-PT”. Do lado oposicionista ouço gritos de vitória:

“Olhem nossas multidões de espontâneos e os gatos pingados do peleguismo”.

Esquecidos ou ignorantes do fato destes “gatos pingados” integrarem o que Karl Deutsch qualificava como “estratos politicamente relevantes” – o operário especializado, o sindicalista capaz de paralisar uma metrópole, o professor universitário com poder de promover ou sabotar carreiras intelectuais. Esta gente não precisa juntar centenas de milhares para demonstrar força. Os cidadãos insatisfeitos que não conseguem formar ligas eleitorais (nem em seus bairros) podem exibir centenas de milhares em uma só avenida que nem assim significam, ao observador experimentado, uma força cristalizada de Poder.

Isto deveria servir como um elemento a mais de dissuasão aos que berram (acreditando em mágicas alheias ao aparelhamento da máquina) por impeachment, seguros de que tudo voltará ao pré-PT.

Ninguém ousa admitir que o Futuro é um susto esperando oportunidades para se revelar.

“O amanhã será belo sem estas ratazanas”.

Eu não tenho medo de me declarar temeroso dos que planejam enquanto otimistas encomendam fogos e perplexo diante do que, embora belo, não apresenta resposta inequívoca, que tudo pode significar e nada entregar de concreto.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s