“Notas” – 22/08/2015

“Escrever bem? Ah…precisa?”

Relendo “O Óbvio Ululante-Primeiras Confissões”, do Nelson Rodrigues, me maltrato- como o sujeito escrevia! Todo artista vive desta ilusão: fazer parecer fácil o que é fruto de anos de esforço. O fruto de anos de leitura e prática (Nelson começou garoto) ganha a feição de um mero prazer exercido dia depois de dia ao leitor que imagina (se não apresentado às dificuldades do ofício) estar diante de um vadio que ganha a vida batendo papo em palavra impressa. David Nasser provoca o mesmo efeito, e Paulo Francis, e outros mestres.

 

Escrever em português com esta maestria era também fruto de uma formação escolar que o Brasil não oferece mais nem mesmo nos colégios de elite, e as faculdades de Jornalismo não conseguem (mesmo se o quisessem, o que não me parece ser o caso) corrigir anos de falta de leitura e exercícios de redação. Vejo, nos portais de notícias da internet, erros evidentes de concordância, mesmo em manchetes. E ninguém perde o emprego por isto.

 

Jornalistas e aspirantes a escritores dos dias de Nelson Rodrigues liam Eça de Queiroz (no livro que releio, há a imagem, reiterada em textos, do “pão com alguma manteiga a barrar por cima”, citação de Eça) como obrigação básica do aprendizado do ofício, e pelo que noto, nada mais fora de moda que ler (e reler) Eça. Lembro na faculdade das aulas de Literatura Portuguesa onde o Eça oferecido aos alunos era o da sua fase inicial que, embora não sendo má, não se pode comparar às obras de sua maturidade. Mas como não relativizar o peso de Machado de Assis com o estudo de “Os Maias”, compreendem? E assim os brasileiros vão, se não se especializam academicamente no Eça, sendo privados do mestre absoluto do idioma. E a escrita saturada de clichês é mera consequência.

 

David Nasser,  respondendo a um ataque de um oficial da Marinha (por conta de seus escritos contra a aquisição de um porta-aviões), recomendava: ”Leia os clássicos, adquira estilo.” Este conselho poderia ser oferecido a quase todos os articulistas em atividade no Brasil. Os artigos, mesmo os escritos com algum cuidado com o idioma, parecem concorrer em uma gincana de clichês: “Voz rouca das ruas”, “o peso da crise”, “os brasileiros de bem”, ”silêncio ensurdecedor”, entre outras figuras que, colhidos de escritos marcantes em sua origem, diluíram-se e são recurso  certo de redatores preguiçosos, ingredientes de textos instantâneos como o café instantâneo; prático e desagradável de consumir. Como textos que cantam vitória das oposições com o desgaste (que pode ou não ser definitivo) do PT, são previsíveis e de pouco poder de permanência; as simplificações contidas nos textos ganham apresentação estética correspondente, em suma.

 

E como não espanta, há os opinadores de internet que se animam a assinar artigos, incentivados pelo exemplo, e aí é que o estilo é arremessado ao lixo, sem cerimônia. ”Mais” significando “Mas”, “A” no lugar de “Há” são encontradiços, mesmo em lamentadores habituais do “analfabetismo” de Lula e Dilma Rousseff.

Vejam blogs e sites ditos conservadores. Leio alguns e penso em aconselhar  a compra de uma gramática, ou mesmo revisão de textos, mas me calo. Erros também cometo (mas na releitura corrijo-os) e não sou consultor de aspirantes a estrelas da internet. Caso sugerisse a algum destes blogueiros e à sua respectiva corte de comentaristas (cada blogueiro destes cria sua patota de coadjuvantes) rever os textos, ou mesmo comprar uma gramática, decerto teria como resposta algo como: “Estou aqui combatendo estes bandidos e você vem com mimimi”-“mimimi” é o equivalente, no meio direitista brasileiro, ao termo “coxinha” da margem esquerda;  o dado conclusivo de que o autor é um limitado incurável, um tolo, um sujeito que merece apenas desprezo. Se algum interlocutor emite “coxinha”, ou “mimimi”, me desculpo e sigo caminho.

 

Os governistas parecem ter maior cuidado, suas falhas repousam antes no oficialismo, na falsificação e nos apelos sentimentaloides e piegas aos piores sentimentos da população. Na estética,  variam da escola “Parágrafo de uma frase” à cafonice de textos grandiloquentes, ao estilo de Mino Carta, evocando lutas de classe para semianalfabetos. Mas noto menos derrapadas gramaticais que em seus antagonistas conservadores, sobretudo jovens blogueiros de Direita, sobretudo autoproclamados “Guerreiros “ disto ou daquilo.

Tudo isto decorre da recusa de se admitir necessitado de ler, ou reler os clássicos: Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, David Nasser, Franklin de Oliveira, Carlos Castello Branco, Millôr Fernandes e mais alguns outros hábeis no idioma.

Ora, precisa? Nossa boa vontade, nossa autoridade moral não basta?

Estes simplistas parecem ignorar que a construção da hegemonia da Esquerda contou com os recursos de gente de talento  (hoje este capital cultural escorre em decadência) e que tudo começa com a conquista do imaginário das massas. Textos desleixados, contentes com suas boas intenções, fazem sorrir e suspirar de alívio os beneficiários do atual sistema de Poder, sobretudo a casta acadêmica. O esforço parece ser demasiado aos “combatentes”.

Leio Nelson Rodrigues vergado pelo complexo de inferioridade- todo elogio ao seu talento é pouco, e não raro, redutor.  Elogia-se Nelson com palavras que o negam, muitas vezes. Há que se reler Nelson (tanto a obra teatral como a não-teatral) dia depois de dia. Qualquer aspirante a polemista deveria cumprir esta obrigação antes do exercício diário da escrita.

Lembro do Keith Richards elogiando determinado artista, dizendo ser ele o modelo no qual muitos se medem – e acabam desistindo, indo procurar emprego em qualquer outra atividade. Certos autores me são este modelo humilhante, ou inspirador. Ou me prostram, ou me fazem tomar a caneta com energia que me parece inesgotável. Os que citei neste texto, os que citei em outros textos, procurem, os interessados,  no blog.

Foram e  são minha escola; escola que noto não ter sido a de muitos que ganham dinheiro e prestígio na imprensa e na internet.  Julgam não precisar, decerto. E também decerto não precisam mesmo. O nivelamento por baixo é nossa constante, e ninguém perde, no Brasil, prestígio, caso elogiado, ou mesmo lançado, por medalhões. Um elogio de um grande homem é licença para se livrar de senso crítico, de exame severo de desempenho.

Duro constatar a minha obscuridade com tanto medíocre ocupando palcos,  estabelecendo valores, ditando termos de conduta, com a autoridade advinda totalmente da audácia, da ausência de senso do grotesco. Articulistas indignos do momento que retratam, com responsabilidades superiores à capacidade.

Nada posso contra isto, e criticar estas nulidades soa como exercício de inveja.

Reler Nelson  Rodrigues e me exercitar são única resposta.

 

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4 respostas para “Notas” – 22/08/2015

  1. Valentina de Botas disse:

    Fernando, que texto bacana. Gostei de “patota de coadjuvantes”, e acho mesmo que integro uma delas. Não leio os tais escrevinhadores pró-governo, porque tenho mais o que fazer inclusive nada, para poder comparará-los, como você faz, aos que combatem o odioso lulopetismo. Também não comparo meu texto ao do grande Nelson Rodrigues porque o texto do dramaturgo empalidece tudo e a comparação me envergonharia ao ponto de travar minha expressão, razão primeira e último pela qual escrevo. Quando fui à Paulista em 16 de agosto contra o governo Dilma, estava rouca: eu era uma voz rouca na rua, mas não vi mais ninguém rouco por lá. Esses clichês… Abraços

    • fernandopawlow disse:

      Valentina,agradeço o elogio,mas não quis (mesmo!) me referir a você quando mencionei a “patota de coadjuvantes”.Nem ao Oliver,já que parece que mencionei a coluna do Augusto Nunes (quando não foi a coluna dele que tive em mente).Oliver e você escrevem muito bem e são mais que coadjuvantes do Mestre.
      Mas há redatores e comentaristas que abusam dos clichês que esvaziam qualquer discurso, que o despotencializam, tamanhos clichês e erros grosseiros de Português.
      Tive em mente mais os blogs bem-intencionados e pequenos de Direita,e os comentaristas de Facebook.
      Os governistas leio por uma espécie de obrigação à qual me imponho de verificar o ato dos nosso antagonistas,mas compreendo- e respeito- quem,por higiene, mantém distância da latrina governista.
      Não te comparei ao Nelson Rodrigues,nem me comparo a a ele,pois a comparação me dissuadiria de escrever, em definitivo.
      Quanto aos clichês,cansam,cansam.Alguns deles nasceram invenções de mestres,como Nelson Rodrigues e Augusto Nunes,mas os imitadores e diluidores,e nem todos apenas comentaristas…
      Excelentes os últimos textos, sobretudo o publicado ontem.
      Você honra este espaço, e não é,nem poderia ser,ainda que o quisesse,somente uma coadjuvante na coluna do AN. Saiba.
      Abraços do Pawwlow

  2. Valentina de Botas disse:

    Caro Fernando,
    Acredite, em nada me ofenderia ser incluída na patota coadjuvante, afinal, felizmente ou não, escrever não meu ganha-pão, só escrevo, repito, para expressar minha indignação. Além do mais, este blog é tua casa, entra nele quem você permitir e, dentro da tua casa, com a linguagem adequada, você tem o mais pleno direito de falar de quem quiser e como quiser. Você está certíssimo quanto ao Nelson Rodrigues, aos clichês e tudo o mais. E o que você acha quanto ao governo de Dilma, quando ele cairá de podre, na sua opinião? Já deu para perceber que não adianta à nação que presta ficar esperando Janot, não é mesmo? Uma pouca vergonha. O procurador geral não confia em Eduardo Cunha, confia um pouico em Renan e totalmente na presidente que, se não viu nada – da roubalheira na Petrobras à grana lavada na/para a própria campanha – deveria sofrer interdição por excesso de inépcia. Um abraço e boa semana

    • fernandopawlow disse:

      Valentina,ofendendo ou não – e acho que você,embora não tenha a escrita como ganha-pão, é perfeitamente do ramo-o fato é que mirei em blogueiros e comentaristas de Direita que pensam que estar contra a ditadura esquerdista basta.E estas estrelas da internet criam suas colônias de adoradores.Para cada Olavo de Carvalho,há um zilhão de sujeitos que pensam poder se igualar ao mestre,compreende? Este foi o motor do texto,não a coluna de Augusto Nunes, e não você que, repito, escreve bem e não é,já há algum tempo, mais que coadjuvante da coluna do AN.
      Este governo cairá um dia,talvez em 2018,e penso que “cair” no caso se aplica como desmoralização completa da Presidente, do seu inventor,da sigla,e sobretudo, da casta acadêmica que é o sustentáculo intelectual de todo este esquema de Poder.Não alimento ilusões quanto ao impeachment,pois o esquema permanecerá intacto,incólume.
      O que precisa ser derrubado é a o Poder desta gente,e este permanece se seus apoiadores na mídia continuarem a gozar da imerecida credibilidade.
      “Esperando Janot”,nem Beckett o faria,não é mesmo?
      Escrevi sobre isto na Quinta-Feira,a dita Oposição portou-se de maneira criminosa na também dita sabatina.Ontem,ele recusou um pedido de investigação do Gilmar Mendes,e pensei:”Bem feito!Muito bem feito! E é pouco!Que ele decepe o PMDB de vez para que eles aprendam a não abandonar seus combatentes”.
      Estas ilusões vão sendo inutilizadas,e isto é sempre bom.
      Obrigado por prestigiar este blog,ótima semana e abraços do Pawwlow

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