“Notas”- 27/08/2015

Rodrigo Janot no Senado – Uma Confirmação

Lamento não ter registrado no blog minhas expectativas sobre o que seria a sabatina de recondução ao cargo de Procurador-Geral da República à qual respondeu Rodrigo Janot, no Senado, pois ganharia o prêmio “Bola de Cristal – Categoria ‘Blogueiros Fora da Mídia’”. Mas como não vale profetizar o ocorrido na véspera, resta somente alguma análise diante da bola de cristal desligada por motivos econômicos.

Pois eu escreveria o que aconteceu: governistas e oposicionistas concorrendo entre si pela recepção mais amistosa ao Procurador-Geral – os primeiros por saber que, decepado o PMDB, o PT  (livre enfim de alguns de seus nomes mais estigmatizados) será novamente o partido mais forte do Congresso; e os segundos por acreditar que o PT, na companhia de um PMDB enfraquecido, ficará sem muito da sustentação que ainda retém no Congresso.

Preciso escrever quem é o mais realista nesta projeção? Quem agiu na sabatina contando com as baixas que a Operação Lava-Jato causou, e que com base nestas baixas planeja os passos seguintes e quem, mais uma vez, aposta na eliminação mágica dos adversários, contando não ser atingido em um mínimo (ou colhendo efeitos colaterais) pela Lava-Jato?

O PT conta com analistas que levam seu ofício a sério, e os tucanos com redatores de manuais de autoajuda política, em expediente nas redações.

A derrota na batalha eleitoral de 2014 não teve sequer um mea-culpa, ainda que discreto, de muitos dos formadores de opinião que prestaram serviços como gurus de Aécio Neves. Os petistas admitiram desde o início que governariam um país dividido, enquanto o PSDB recebeu a derrota com discursos enaltecendo suas virtudes morais. E o que vem acontecendo desde então segue estes padrões de análise.

O confronto do Procurador-Geral com o senador Fernando Collor foi recebido no mesmo dia como uma vitória pela imprensa oposicionista, quando deveria haver análise neutra da validade dos questionamentos de Collor de das respostas- se no mínimo esclarecedoras ou não- de Janot. Eu não tenho lado nesta briga,  mas penso que alguém que está sendo arguido no Senado para um cargo desta ordem não pode escolher quais respostas responderá, seguindo critérios sentimentais, alegando foro íntimo. A não-discussão por parte dos demais senadores – que preferiram desperdiçar tempo em considerações estéreis, muitas vezes – dos questionamentos do ex- Presidente, investigado pela Lava-Jato (dada à proibição da reinscrição de oradores) foi ao meu ver, demonstração de descaso, de omissão.

Mas discutir as denúncias de um denunciado? Ora, se esta for a lógica, muito do elucidado na Operação Lava-jato deveria ser jogado no  lixo. O desejável seria uma acareação entre Rodrigo Janot e Fernando Collor, mas não sei se isto é possível, e se há desejo das partes, e mesmo da classe política neste momento.

José Carlos Werneck em artigo publicado na véspera da sabatina, na “Tribuna da Internet” anunciava a vitória de Janot, com base em informações que davam como certa a recondução do Procurador-Geral, graças a um “acordo”entre Dilma Rousseff e a cúpula do PMDB. Mas penso que a recondução deveu-se muito mais (se não pelo número, pelo símbolo, o que em Política conta mais que número) à Oposição que pensa em se beneficiar de maus momentos atravessados pelo PMDB.

Há quem solte foguetes com esta recondução e há quem a lamente, e repito, não tenho posição nesta polêmica, mesmo por não saber de outros nomes que poderiam significar alternativa. O que lamento foi o comportamento da Oposição e de setores do PMDB que desperdiçaram oportunidade para discutir desdobramentos desta Lava-Jato e outras questões que acabam não encontrando ocasião.

Os elogios, os discursos sobre os abusos do Governo, os pronunciamentos pomposos e vazios, mesmo apartes ocos foram apenas previsíveis e fazem perguntar pela eficácia de regulamento que permite tantos oradores, e que leva ao engessamento destas sabatinas. Não adianta responsabilizar “acordos” entre cúpulas, se discussões que possam esclarecer são desestimuladas por regras muito rígidas quanto ao tempo dos oradores e demasiado amenas em se tratando do número de parlamentares habilitados a participar- dez horas e o quê de importante foi esclarecido, ou que justificasse dúvidas quanto à recondução?

Talvez a imprensa não faça a sua parte nesta renovação de costumes políticos, talvez percebida como minúcia – que a Imprensa pode com regulamentos? A energia da imprensa no Brasil é canalizada para cobertura de escândalos e crises (supostas ou reais) entre Governo e bancadas, ou rusgas entre poderes, e o que poderia tornar o processo político menos inoperante é desconsiderado para pautas.

E que a Imprensa tem de obrigação nesta revisão de ritos e estratégias? Bom, ela não se tem (e é tida) como “Quarto Poder”? Ora, qualquer “Poder” tem suas prerrogativas e suas obrigações. Delegar deveres enquanto se apresenta como fiscal da sociedade parece ser hábito de nossa Imprensa, e se ela não toma para si a tarefa de educar  a massa em civismo e mesmo uma classe política que não se distingue pela cultura e lucidez, quem o fará?

Os apartes e pronunciamentos nesta sabatina causam a qualquer leitor médio piedade dos senhores engravatados com tanto a decidir e tão pouco aptos a costurar períodos em um intervalo médio. Quando houve a citação do juízo de Roberto Campos quanto às estatísticas (“São como o biquíni, mostram tudo, menos o essencial”), uma oradora, que salvo engano foi a senadora pelo Amazonas, Vanessa Grazziotin (PC do B ) protestou, pois deveria ser citado também o calção de banho. Lembrada que se tratava de uma citação, não contra-argumentou.  Aécio Neves em seguida mencionou o “relevante aparte” da sua oradora imediatamente anterior, em uma ironia que passou despercebida por parlamentares ocupados com celulares e laptops.

Para uma sabatina que ia decidir o já decidido, tudo dentro do script: dúvidas que não se poderiam solucionar ali, críticas verbosas ao Governo (ainda que Governo interessado na recondução) e elogios à figura do Procurador-Geral. Governo e Oposição movendo suas peças de acordo com interesses que poderão se confirmar ou se converter em piada, quando este maquiavelismo de arraial for visto em perspectiva histórica.

O que é desolador é o painel de observadores pagos, e bem pagos, tentando emprestar significado maior ao que o citado José Carlos Werneck qualificou como “espetáculo circense”,  comparando-o aos “telecatchs” (e isto escrito na véspera).

Chamam a isto Democracia e alertam sobre seu fim.

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