“Notas”- 03/09/2015

“Não se pode adivinhar tudo…”

Alguns jornalistas veteranos, como o Janio de Freitas (e como é desagradável concordar com o  jornalista veterano e já mito por estes dias) expressaram desagrado com o comportamento de docilidade extremada com que fora premiado o Procurador-Geral, Rodrigo Janot, na sabatina para sua recondução ao cargo. Eu, consultem o blog, estive entre os que não tomaram sua performance como conclusiva. Fernando Collor fora, entre todos os senadores, o que cumpriu a função de inquisidor.

“Ah, você está defendendo Collor?”

Esta pergunta passa por argumento neste Brasil de miséria mental- lembro de quando tentava alertar comentaristas de blogs e sites sobre a irresponsabilidade de certas acusações feitas ao político alagoano, o que tive que ler de conjecturas sobre motivações de “um defensor de Collor neste espaço”. O fato de muitos destes comentaristas serem, ou partidários do Governo ao qual o ex-Presidente é aliado, ou eleitores que em 1989 o escolheram, parece excitar ainda mais os juízos sobre fatos por investigar e as suposições sobre quem adverte contra excessos.

Como não votei nele em 1989 (na verdade não votei em ninguém aquele ano) e não sou mais um eleitor do PT, escrevo sobre o personagem sem paixão alguma, sua culpa ou inocência me causando a mesma indiferença.

É já personagem da História, e observo-o como tal. Não consigo afetar paixão por um verbete de enciclopédia, e assim não engrossei o coral “Apaixonados por Janot”em suas performances do dia seguinte à sabatina.

A imprensa dita de Oposição, do “GloboNews” aos articulistas de “Veja” era uma cantora apaixonada do “equilíbrio de Janot frente às provocações de Collor”. Trechos eram repetidos e fixados nas versões on-line dos órgãos de imprensa como momento histórico que nos foi dada a oportunidade de contemplar.

Os poucos que ousavam, nas caixas de comentários, observar as evasivas do Procurador-Geral sobre questões graves colocadas a um candidato à recondução ao cargo recebiam o silêncio como resposta, o desprezo de colegas de opinião pública.

“Ora, se o articulista X ou o editorialista Y garantem que foi uma sucessão de respostas conclusivas a um senador desequilibrado, que age por puro ressentimento e espírito de vingança por ser um dos investigados, por que se tenta estragar a festa?”

E este idílio durou pouco: no dia seguinte o Procurador-Geral, recebido na sabatina da véspera como um corajoso, um herói (no Brasil de hoje o estrito cumprimento de deveres, ainda que pela metade, faz de homens inexpressivos alvos de especulação sobre futuro presidencial), arquivou pedido de investigação do Min.Gilmar Mendes sobre empresa – uma gráfica- que teria prestado serviços à campanha de Dilma Rousseff.

Houve no dia seguinte algum reconhecimento por parte de respeitados formadores de opinião sobre um exagero de exaltação? Alguma consideração mais severa sobre o personagem?

Não, um silêncio sonso foi o que vimos. Claro que com alguma cobrança leve, muito pedindo desculpas de ser cobrança, e alguma tentativa sem graça de pilhéria.

O sonho de boa parte da imprensa é inviabilizar de vez a hipótese PMDB – e isto inclui simpatizantes do “Pós- PT” (alguns destes funcionando no “GloboNews”) que julgam a crise salutar, pois higieniza o projeto esquerdista enquanto livra o Governo do PMDB e tucanos e demistas apaixonados (estes dando expediente em “Veja”) que acreditam que cortadas as cabeças mais manjadas do PT e do PMDB, o PSDB teria enfim sua chance de ter algum renascimento político. E para tanto, vendeu-se aos leitores e telespectadores uma sabatina medíocre, onde senadores questionaram de forma vaga um Procurador -Geral que respondeu de forma também vaga com um inconveniente, uma nota de grotesco: o “Momento Collor” do evento. A imprensa “mainstream“ atingiu a quase uniformidade total nesta cobertura.

Isto me parece a antítese exata do jornalismo, falo de cobertura fatual e de análise dos fatos noticiados. O exame, ainda que desagradável, do que personagens levantam como questionamentos é considerado assunto somente se for coincidente aos interesses e simpatias dos jornalistas, e isto vem erodindo, muito mais que a internet (tese central dos governistas de internet) o público leitor, ou público interessado no que têm a dizer jornalistas tidos por  capacitados a emitir juízos. O referido público começa a não perceber diferenças entre analistas experimentados e palpitadores de caixas de comentários, e acaba por optar pelo parque de diversões da internet, onde todos publicam suas opiniões, ainda que sem embasamento em leituras e sem conhecimento elementar do idioma. Ao menos, ri-se e xinga-se à vontade- se mediação houver, logo qualificam como censura, e o mediador recua…

A responsabilidade de formar cidadãos por parte de quem se sente integrante de um Poder parece inexistir e o comportamento de líder de torcida é mais fácil – e lamento constatar, mais compensador. “Ninguém se desmoraliza o Brasil”, dizia Carlos Lacerda, e o dizia sem ter assistido três eleições onde analistas respeitados não acertaram uma.

Os reloginhos contando o tempo para o fim da “Era PT”, os foguetes encomendados de véspera, as apostas nos procedimentos mais temerários – como bater em candidata em ascensão, Marina Silva, acreditando que, ela caindo, Aécio Neves subiria, ela caiu, ele não subiu e Dilma venceu- e a absoluta ausência de qualquer reconhecimento de erro de análise foram os elementos dominantes destas coberturas.

Não sei como a população se comportará caso haja qualquer melhora na economia, pois não está sendo preparada como deveria para repudiar os valores do petismo – e sobretudo hábitos mentais que prepararam o país para este ciclo de destruição.

Para quê? Afinal, “eles estão caindo, estão desmoralizados pelas denúncias da “Operação Lava-Jato”. Insistir em análises parece coisa de pessimista, de sujeito que aposta na projeção mais sombria para posar de oráculo, dizem alguns destes porta-vozes do “Oba-Oba”.

No Brasil, repetem-se muitos erros por pura preguiça de estudar História, pois os enredos mais batidos não soam aos desavisados a velharia que são, e quem deveria ensinar não ensina, e por consequência o mais apto acaba por triunfar, uma vez mais e mais outra, mais outra…

Pode-se desculpar certos comentaristas que se justificam, que alegam não escrever diante de bola de cristal, mas certos equívocos não são fruto da condição humana que impede adivinhações e sim do hábito de torcer e escrever na véspera sobre o resultado da partida.

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