“Notas”- 12/09/2015

“Armados com o volante”

Pedestres no Brasil deveriam formar partido político, organizar associações de defesa e reivindicar o status de “Maioria Minoria”; cidadãos de segunda classe no país de ignorantes armados com o volante.

Lara Velho combate na comunidade de internet “Calçada Livre Já” fotografando veículos estacionados sobre calçadas, e discutindo com estes invasores. Eu me limito a insultar motoristas que atiram o carro sobre mim quando atravesso sobre a faixa de pedestre, ou quando avançam sinais, quando deixam suas garagens surgindo sobre a calçada como estivessem em pista de corrida, e escrevendo aqui no blog.

Roberto Pompeu de Toledo escreveu certa vez sobre o pecado da soberba, excitado pela condição de motorista, e quem, vítima de um idiota que tem em seu volante prova de status e instrumento de intimidação, não concorda com o jornalista? O sujeito se eleva sobre os pedestres, estes vadios que não têm como adquirir automóveis e ainda por cima não atravessam as faixas de pedestre, este capricho, com a pressa que nada mais seria que obrigação diante de quem trabalha, é útil e, portanto, pode dirigir. Punições leves ou inexistentes ajudam a enraizar este pensamento social e mesmo religioso (estes motoristas sentem-se tocados pela benção da prosperidade) nestas mentes.

Em BH não duvido que muitos sejam eleitores do PSDB ou desiludidos recentes com o PT – as duas modalidades de credo político-partidário admitidas na cidade. A ferocidade com a qual insultam pedestres (ontem ao meu lado senhora idosa ouviu “Folgada” de uma motorista ao atravessar faixa de pedestres na Av.Fleming, na Pampulha) é suprapartidária, vejo carros em processo de desintegração tomando faixa de pedestre como ornamento e importados ignorando sinais vermelhos com idêntico desprezo pelos pedaços de carne que tentam escapar. “Coxinhas” e “Nova Classe Média” em temporada de caça.

Como ainda não mataram ninguém no centro da cidade (ontem vi, na Rua da Bahia, ao lado do “Othon Palace”, dois carros avançando sinal vermelho – que dura no referido ponto meio segundo- na velocidade máxima, um após o outro, sem qualquer guarda à vista) os pedestres e autoridades limitam-se a balançar a cabeça e constatar: “esses caras são foda”.

Hoje na calçada de um posto de gasolina quase sou atropelado por um carro – nacional, modesto e reclamando banho – que acabara de abastecer. Ao ouvir minha queixa, o motorista coloca a cara para fora da janela e eu sustento o olhar; ele corajosamente “deixa para lá” – o filho aparentando dois anos de idade ao lado no banco do carona sem cinto de segurança. Mais adiante, carro importado conduzido por uma madame quase me atropela em uma faixa de pedestre do bairro Ouro Preto e ao ouvir meu protesto, “madame” segue “cantando pneus”. Como os Srs. podem ver, há democracia social entre infratores.

Escrevi emails a jornais, escrevo sobre isto aqui e protesto aos motoristas sempre que a oportunidade se apresenta (e aqui a oportunidade é assídua) sem qualquer resultado, exceto meu esgotamento nervoso, esgotamento comum ao todas as vítimas desta caça ao pedestre, desta violência que não falta ao encontro.

Quem do lado do pedestre? Quem protesta com a constância que esta estupidez constante exige? Onde os editoriais exigindo leis duras para irresponsáveis, para que se coloque algum freio nestes idiotas que não consideram pedestres senão como cones a se derrubar pelo caminho? Onde a possibilidade de revide das vítimas que o são apenas por caminhar?

Muitos destes motoristas cobram governo decente, esquecidos que a classe política é representativa do conjunto social – e nosso conjunto social notabiliza-se pelo atropelo (neste caso, literal e reincidente) das leis e do direito do outro. Fura-se fila mesmo em fila pequena, acelera-se por capricho. E estes brasileiros desprovidos de inteligência e senso de honradez berram e batem panela por classe política “limpa”. Como se merecessem coisa melhor do que isto que temos que suportar no Poder.

Em tudo o Brasil é assim, se pensarmos com frieza;  espera-se colher mesmo sem ter sonhado em lançar semente e regar, vigiar o solo. O direito a palpitar dispensa o dever de se informar, e o diploma dispensa leituras.

Por qual razão a consciência política em gente assim, que despreza a ideia do mérito, seria diferente?

Nos shoppings, muitos se queixam de favelados, mas tenho visto maior educação por parte dos ditos “rolezeiros” que da parte de obesos de classe média que empurram seus carrinhos de bebê contra nossas canelas ou andam nos corredores bem próximos aos bancos, onde, sentados, temos que ser alvo de esbarrões e sacoladas, ainda que com espaço bastante para que se evite estas colisões que não ferem, mas irritam, roubam o prazer do passeio. Não preciso ser muito imaginativo para deduzir (e falo do que observo como se portam na fila do chopp) como estes búfalos de shopping se portam no volante.

Por isto não me animo com o celebrado despertar do gigante, como tantos se animam. Como gente tosca e imediatista pode, apenas por acordar de um conto do vigário (que compraram por cumplicidade de ideais – o sucesso sem sacrifício) de forma demasiado brusca. Repito aqui o que venho escrevendo: se o improvável – melhora na economia – acontecer,  quero ver quantos destes indignados do momento resistirão a aderir, senão agora, em 2018, ainda que o PT se apresente como uma nova concepção de política, o “Pós-PT”.

Pois quem se porta no volante como pedaço de carne armados de volante caçando outro pedaço de carne que anda não desperta em qualquer pessoa lúcida esperanças quanto ao futuro deste país. Somos, por amostra do comportamento no trânsito, massa com muito chão pela frente até atingir estágios mínimos de civilização; gente incivilizada, bestas (mal) falantes não desenham futuro que não o povoado por paus e pedras.

E hoje, buscando escapar de atropelamentos (três em menos de uma hora), me compenetrei do abismo de feras que é o espaço público, e descri de possibilidades dignas no Brasil. Somos mesmo um coletivo de agressores covardes (muitos ao cometer suas vilezas no volante desviam o olhar do confronto visual) e vítimas acovardadas, prontas a morrer atropeladas (ou assistir ao atropelamento dos seus próximos mais queridos) sem ensaiar um “ai!” Quem se deixa embrutecer ou castrar desta forma nega, sem qualquer dúvida nega, qualquer futuro para o Brasil.

Feras ao volante são nosso símbolo de nacionalidade, deveriam constar na bandeira.

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