“Notas” – 17/09/2015

Uma Amostra, Uma Confirmação

Um Ministro do Supremo Tribunal Federal desautorizado diante de um não-membro da Corte é um episódio que não parece ter despertado nos analistas de política o escândalo que em outros tempos, menos anestesiados, causaria. Tem sido tratado como mais um caso em que o Ministro Ricardo Lewandowski age sintonizado com o PT. Nem o fato dele presidir o Tribunal parece um agravante, algo mais que um pormenor.

Talvez pelo fato de Gilmar Mendes, o Ministro tratado com desrespeito, não ter jogado a toga (lembram-se do Adauto Lúcio Cardoso?) e simplesmente ter deixado a sessão.
O fato é que toda a mídia governista tem atacado o Ministro Gilmar Mendes diariamente, antes e (ainda mais) depois do episódio. Como é dos poucos ministros anteriores aos governos do PT e o que mais tem se posicionado como antagonista deste partido, tem sido o alvo preferencial dos que pregam “uma nova Justiça”.
Antes de demonizarem Joaquim Barbosa (muito antes de retratá-lo como “negro vendido aos brancos” e como macaco, sob silêncio camarada do “Movimento Negro”) a mídia governista construiu sobre discussão entre Barbosa e Gilmar uma alegoria sobre racismo e prepotência que serviu de munição em discussões sobre o STF. Era muito simples e não exigia qualquer estudo: o sujeito para se provar um não-racista, deveria sustentar que Gilmar Mendes era um típico integrante da “Casa Grande” humilhando um indiscutível fruto da senzala, Joaquim Barbosa. Ai de quem não adotasse esse discurso! Era devidamente catalogado como “racista”, “preconceituoso” e, claro, “tucano” (o termo “coxinha” ainda não estava em circulação). Isto durou até o julgamento do “Mensalão”- o Min. Joaquim Barbosa perdeu o posto de “Negro no Poder”. Gilmar Mendes continuou com os carimbos, apenas.

Uns poucos protestos (sobretudo aos estímulos financeiros estatais aos blogs que atacavam instituições e críticos do Partido) e nada mais fez Gilmar Mendes contra insultadores profissionais. Seu boneco de Judas malhado com estrita observação religiosa, e chegou-se enfim a isto: a desautorização completa.

Um fato que confirma o modo de agir do petismo e a reação morna a este modo de agir por parte dos oponentes deste sistema de Poder.

Ora, este episódio que tem sido tratado sem a gravidade que ele encerra deu-se dias após o Governo sinalizar que aumentaria a arrecadação através de mecanismos que dispensassem a aprovação pelo Congresso, e isto parece ser visto como mera coincidência.

Por ironia, tudo isto corre nos dias em que se fala de impeachment com naturalidade que penso ser estranha aos observadores internacionais de nossas mazelas. Celebram suposta queda de Dilma Rousseff no instante mesmo em que o Governo se demonstra mais forte do que nunca: o STF e o Congresso funcionando como meros órgãos consultivos, sem demonstrar qualquer ameaça convincente; instituições e adversários atacados com todo o zelo por órgãos de comunicação governista, que alertam sobre “golpismo da Direita”.

O clima é este: ainda que haja impeachment, eles se portarão como estivessem no Governo, através de tentáculos plantados no fundo da administração. Só ingênuos acreditam que órgãos financiados pelo Governo encerrarão atividade logo no início de um suposto governo sucessor do PT, e com esta máquina de propaganda, o atual sistema de Poder ainda exercitaria sua influência sobre milhares de leitores deste material.

Houve um tempo em que esta ameaça poderia ser neutralizada;  o número de acessos na internet ainda era pequeno e denúncias sobre financiamento governamental a sites de pouco acesso talvez inibissem a ação corruptora, mas nesta fase avisos eram tratados com pouco caso por formadores de opinião que preferiram tratar este perigo com desdém, talvez acreditando que assim a ameaça deixasse de existir por encanto.

Toda a formação de correntes de opinião fabricadas seria abortada caso a imprensa cumprisse seu papel de informar. Mas a política de não mencionar concorrentes e menosprezar perigos ganhou sobre os que (como este blogueiro) tentaram alertar sobre a máquina de enviar para a lixeira reputações de críticos do atual sistema de Poder.

Hoje um Ministro de um tribunal superior (ex-presidente deste tribunal) é desmoralizado por um colega em nome de “novas modalidades de participação”. Escrevi sobre a intimidação exercida naquela casa quando da votação da constitucionalidade das cotas raciais e que passou a ser a constante em votações onde certos parâmetros são testados. Pouco se reage, e o resultado é este. Tudo anunciava ser assim, e anúncios são cumpridos quando tratam da tomada de Poder por grupos organizados.

Logo avançarão sobre o Legislativo, e a tentativa de desmoralização de lideranças do Congresso ao mesmo tempo em que “coletivos” se apresentam como substitutos lógicos de “um sistema podre”, com ampla divulgação em sites e blogs governistas (e respectivos canais de redes sociais) é nada mais que um aviso claro sobre onde se pretende chegar.

Os sites e blogs que promovem estas campanhas de desmoralização de instâncias ainda não dominadas de todo pelo PT agem sem temor de qualquer interpelação.

Por tudo isto, acho graça dos que julgam bastar retirar a Presidente do cargo, ou mesmo cassar registro do PT;  eles não terão dificuldades em promover novos quadros, novos partidos e voltar ao Poder nominal, pois ocupam espaços vitais ao País e sabem que o que se proclama como Oposição se satisfaz com vitórias pequenas, insignificantes no plano geral de perdas e ganhos. E calculam desde agora o retorno após a desmoralização de alguns de seus dirigentes.

A rapidez com a qual dominaram espaços de Poder e com a qual retiraram significado de instituições prova a dimensão inédita do desafio; o Brasil conhece pela primeira vez profissionais em Política que sabem mesmo extrair dos piores momentos as lições para retorno definitivo. A imprensa dita de Oposição acredita que está diante de algo fácil de exterminar, de desmoralizar e dá ao combate porção mínima de força – e é preciso lembrar que mesmo nos seus melhores quadros a competência não permite muito mais que isto.

Gilmar Mendes ao abandonar a sessão sem abandonar a Casa – ou ao menos protestar com dramaticidade à Imprensa – legitima a ação dos que o desmoralizaram.

Quem da dita oposição o lembra disto? Quem se porta de acordo com a gravidade da situação?
Quem se dá conta do que se passou ali naquele minuto onde o que resta de Democracia recebeu golpe que se provará definitivo?

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