“Notas”- 19/09/2015

Movimento Brasil Livre e Hélio Bicudo

Como os leitores devem ter notado, mudei, uma vez mais, o tema visual do blog.

“Era tão bonito e gostoso de ler, com letras grandes, por que mudou?”

Porque não havia o arquivo na página inicial, e leitores recentes não sabiam da coerência de minhas posições, meu trabalho ficava encoberto, e eu ficava na dependência de curiosidades e dos termos – alvos de pesquisa, os tags.

Isto para quem escreve sobre temas recorrentes (sou, como Nelson Rodrigues, um obsessivo, quase “uma flor de obsessão”)  e vem acertando em algumas previsões e julgamentos é mortal. Todo o trabalho de observação é jogado no lixo; qual leitor é obrigado a gastar tempo procurando, sem auxílio do arquivo, o que escrevi, em determinado momento que é confirmado pelos fatos e reiterado em textos recentes?

O arquivo dirá ao leitor o que penso do impeachment da presidente Dilma Rousseff e sobre autoproclamados direitistas pontificando em redes sociais, por exemplo.

Minha convicção sobre a inocuidade de um impeachment que não removerá dos centros de Poder os ocupantes que não serão atingidos o mínimo é tema recorrente aqui. Estou entre os que acreditam que o desgaste que o mandato inteiro de Dilma Rousseff trará ao PT e a muitos setores da Esquerda compensa estragos econômicos que não serão anulados, diga-se de passagem, com sua mera deposição do cargo.

O esvaziamento simbólico deste sistema de Poder é mais precioso que a satisfação imediata – e passageira – de assistirmos esta senhora abandonar o Palácio pela porta dos fundos, temerosa de ataques. O ganho será menos lúdico, mas bem mais consistente. O que pesará sobre defensores deste Governo será de tal maneira opressivo que compensará os danos que nosso sistema nervoso sofre ao sermos, como somos agora, obrigados a suportá-los.

E é por isto que nunca mencionei aqui grupos como o “Movimento Brasil Livre”- este o primeiro texto no qual trato deles. Penso que são pessoas bem intencionadas sem visão histórica, sem senso de dramaticidade que compreenda intervalos maiores de tempo; entendem o drama histórico como algo que vai até o dia seguinte, no máximo.

Mas a reação do Olavo de Carvalho à recente aproximação do MBL com o ex-petista Hélio Bicudo me leva a escrever sobre estes militantes pró-impeachment. Penso que pela primeira vez, eles demonstraram senso de dramaticidade, noção de símbolos: Hélio Bicudo foi atacado por um dos filhos, qualificado como um “homem infeliz, solitário e amargo”e que em determinada ocasião tivera a intenção de “chantagear” Lula.

Quem não lembra o que sempre lemos e ouvimos sobre filhos acusando pais na URSS? Este sistema de Poder não hesita em tomar atitudes como esta, e desprezar este episódio, no que este contém de carga simbólica e alusões, apenas pelo fato de Hélio Bicudo ter parte de sua biografia passada no PT, me parece desperdício.

As lideranças do MBL viram neste drama familiar e político um elemento de combustão sentimental na luta, esta sim equivocada (pelo que contém de amadora, de indiferente às implicações de longo prazo), pelo impeachment.

Fosse uma aproximação sem este objetivo (derrubada apenas da Presidente) e sim um esforço sem pressa de desmoralização desta casta seria sim um gesto admirável; não tenho certeza se outras oportunidades surgirão no Brasil de hoje – sem figuras maiores, sem gestos dramáticos, raso e nulo. Quase não há figuras históricas ainda em atividade no Brasil, e se uma há e disposta engrossar fileiras, não há por quê recusar esta adesão.

Eles, os que desfrutam do Poder hoje, não têm destes purismos, até Paulo Maluf pode ser de utilidade. Lula não hesitou em abraçar em palanque Fernando Collor. Isto se chama realismo político. Quem usa quem depende da capacidade de cada um; um incapaz político é usado mesmo sem cruzar o caminho do antigo desafeto, através de ligações paralelas e de interesses em comum. Este jogo não é para quem nutre fantasias quanto ao gênero humano, ainda que isto soe, além de clichê lamentável, de um cinismo de carregação.

O MBL errou em muitas outras coisas: o messianismo por parte de gente ainda verde, a vulnerabilidade, decorrente deste mesmo “verdismo”, aos bajuladores profissionais e na afoiteza que faz com que procurem políticos em Brasília antes de sedimentar apoio nos meios empresariais (sobretudo de mídia), de lideranças políticas de pequeno e médio porte (pois estas exercem pressão sobre as estrelas de Brasília) e na população de cidades de pequeno e médio porte.

“Isto leva tempo”.

Sim, leva, porém o que se constrói é sólido e não impressões de momento.
O que se deve construir é algo que demanda paciência e amor ao esforço distante dos flashs e manchetes de portais de internet. Que criem blogs e grupos de estudo e esqueçam prazos – façam por amor ao trabalho de destruição, extraindo deste esforço à primeira vista infrutífero o prazer dos conspiradores que preparam explosões que talvez seus netos assistam.

Eu, pelo que vejo destas lideranças – e sobretudo de seus apoiadores na Imprensa- não têm este espírito, e o Governo e seus apoiadores o sabem. A pressa em derrotar inimigo que sabe esperar é o que faz sorrir quem muito experimentou do bocado de derrota e espera que a vida impõe aos que ingressam na luta pelo Poder.

Estas críticas Olavo de Carvalho fez ao MBL, e não uma vez, mas sem a veemência que a associação com Bicudo despertou. E penso ser estas as observações que precisavam ser berradas aos aprendizes de derrubadores de presidentes. Hélio Bicudo é um episódio na biografia destes jovens, que poderá dar qualquer resultado, mas que não causará dano maior que os traços que considero falhas graves em pessoas que estão mergulhadas na luta política.

Lembro de jovens se queixando no “Facebook” de suposta indiferença de Olavo de Carvalho às advertências sobre o voluntarismo destes líderes do MBL.

Não sei se isto procede, como não sei sobre isto mais do que leio no perfil público do escritor e professor no Facebook.

Sei que nunca esperei nada destes ativistas – desta pressa em derrubar a representante nominal do Poder – e o que tenho a dizer está acessível a um toque no “Arquivo” do meu blog, que penso ser desconhecido de Olavo de Carvalho e seu publico.

Escrevo sem pressa maior, sem qualquer divulgação; muitos destes jovens deveriam fazer o mesmo: trabalho solitário na sombra, sem esperar uma menção sequer.

Não costuma haver mesmo compensação extra neste esforço.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s