“Notas” – 24/09/2015

“‘Doutores em Causas da Violência’ e os ‘Arrastões'”

O espetáculo de banhistas correndo pela praia tentando escapar de ladrões em uma tarde de sol que castiga trouxe, uma vez mais, o cortejo de sociólogos, antropólogos, psicólogos – toda a fauna das “Humanas”; sobretudo as autoridades máximas no assunto, os “Doutores em Causas da Violência”. Chamados para opinar sobre esta modalidade de violência, que torna temível a piscina de todos, a praia, recitaram as simplificações habituais.

“É preciso ressaltar que estes jovens não são os mesmos dos arrastões de vinte e cinco anos atrás”, ensina algum comentarista de voz de segurança de berçário. “É uma outra geração de excluídos”, concorda outro, com voz de bailarina aprendiz.

“Jovens negros, em situação de risco…” “Baixa escolaridade”, “Vulnerabilidade social”, o repertório destes concertos, executado pelos mesmos intérpretes em outras ocasiões.

Não acredito que alguém tenha dúvida da fonte destes argumentos: a Universidade. O sujeito não consegue o diploma e a licença para trabalhar em Jornalismo se questionar, ainda que muito de raspão, qualquer dos dogmas da doutrina sub sociológica imposta neste meio. Uma hora alguma coisa entra, e fica, desta lavagem cerebral.

E opiniões se formam assim, conceitos sem base sociológica real (pois não são poucos os casos de delinquentes – alguns cruéis- de classe média) tornam-se enunciados acima  de questionamentos, e não preciso acrescentar que não se consegue cristalizar na opinião pública qualquer alternativa, ou busca de solução, para o problema da criminalidade.

A classe média que se irrita com estes explicadores da delinquência não consegue formular argumentos mais consistentes, que dirá ação (utilizando redes sociais) para eleger políticos preocupados em defender os cidadãos. Não tiro a culpa desta classe média histérica e desinformada, pois livros e mesmo material na internet poderiam fornecer argumentos, mas entendo que a doutrinação eletrônica é muito eficaz, pois executada por gente que a classe média respeita, por diplomada, e sem alternativas visíveis na mídia e na Academia.

Fico tonto com as tolices ditas por estes seres pálidos, de vozes nada masculinas e gesticulação de pátio de hospício: eles elegem como condição atenuante para os criminosos sua etnia, alheios ao racismo deste critério. Não atinam que condenam à desconfiança do meio social e ao fortalecimento do racismo a não-punição de criminosos negros, pois os negros trabalhadores e estudiosos acabam carregando o estigma gerado por este tabu.

O mesmo deve ser dito quanto ao pobre, sempre visto como potencial criminoso, pois os doutrinadores em tela garantem que pobres, por serem pobres, são mais propensos a militar na criminalidade.

Não adianta tentar argumentar, confrontar dados do dia -a- dia, de negros trabalhadores e pobres que conhecemos às pencas; números e gráficos estatísticos desmentem, sem contemplações, nossos olhos e mesmo a biografia de amigos, parentes e vizinhos.

Foi assim quando arrastaram um menino pelo cinto de segurança pela Zona Note do Rio de Janeiro (ONGs se mexeram para defender os monstros), ou quando puseram fogo em uma dentista que se atrevera a não ter dinheiro para o assalto. Quaisquer outras motivações, de ordem psicológica, cultural (nem ouso sugerir moral) e mesmo de esclerose das leis, foram descartadas de antemão. Negam os dogmas, desafinam do catecismo da Universidade.

Este arrastão vitimou turistas que estavam no Rio de Janeiro para o festival de rock; uma vítima inglesa anunciou sua decisão de jamais retornar à cidade, e posso apostar que  os jornais do exterior noticiaram o evento. Se isto funcionar como poderoso dissuasor do turismo (sobretudo por ocasião das Olimpíadas) em cidade que vive dele, azar da “turistada otária”, não? Comentaristas “progressistas” de internet não escondem esta opinião debiloide, ao contrário. Na imprensa governista, há gente que pensa (e escreve) assim, por que nos comentários o nível seria mais alto?

Os oráculos de rotina, sempre reverenciados no “GloboNews” também não parecem temerosos da falência do turismo na cidade, por estarem bem assentados no estamento burocrático, e por simpatizarem com a ideia de “um novo perfil para o Rio de Janeiro, independente da indústria do turismo”.

Logo, não há a menor pressa para se chegar a uma situação tolerável – não digo boa ou ótima, digo tolerável – no aspecto de segurança. Há bastante tempo para se brincar de explicador de tragédias, de tratar desespero de pessoas comuns como pormenor sociológico, repetir chavões sub ideológicos e para racionalizar o número de guerra civil da realidade brasileira.

Os estúdios de TV por assinatura têm estoque considerável de “Poltronas das Vovó”, almofadas e com bordados nos braços (similares às utilizadas nas visitas oficiais à China em certa época) prontas para receber babacas que nelas podem repetir seus lugares-comuns sem risco de questionamento, dirá de ridículo.

A mensagem enviada a um colega por um destes bandidos de areia sobre o choro de uma sua vítima, choro que não o comoveu, não causa uma mínima mudança de expressão de rosto nestes intelectuais de estufa.

Dirão: fosse com a filha deles…

Não, amigos, não! Mil vezes não!

Fosse (imaginemos as violências cometidas contra mulheres em roubos – nunca cantadas o suficiente por estes analistas) com a filha deles, na frente deles, ou com a mãe ou a esposa, nada mudaria. Talvez ensaiassem com a voz de aprendiz de fada de teatro infantil alguma recriminação ao “sexismo” dos bandidos, mas nem isto considero crível.

O sujeito quando faz carreira no meio universitário, na área de Humanas, e mais que isto, torna-se porta-voz da ideologia do campus na mídia, renuncia a sentimentos “arcaicos” como honra, lealdade, capacidade de indignação, afetos familiares e tantas outras velharias de tempos obscuros. Vale apenas o amor ao Partido, ou às verdades aprendidas com seus antecessores. Nada mais encontra lugar nestas mentes.

E por isto minha indignação com a classe média que espera ainda alguma coisa destes senhores, e que não busca, se não cancelar assinaturas destes canais de mídia, criticá-los de alguma forma. Envia os filhos à Universidade para receber a doutrinação, sem queixa, digo mesmo com orgulho.

E espera, do sofá, a”Palavra”.

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