“Notas”- 16/10/2015

“Pingando is”

“Pawwlow, você não estaria sendo covarde nos seus textos no blog, onde mantém postura não – governista ao mesmo tempo em que se nega a engrossar fileiras que exigem impeachment da Presidente Dilma Rousseff? Não é cômodo criticar o Governo sem se juntar aos que se arriscam?”

Começo respondendo pelo final: arriscam-se a quê? Quais empregos na imprensa de Oposição correm risco com esta posição pró – interrupção de mandato presidencial? Muitos dos que propagam este simplismo são pagos mesmo para isto; para manter o debate nesta superfície, que garante como perpétuas as posições ocupadas na mídia por medíocres. E quem me lê com frequência sabe o que penso, e quem não me lê com frequência é livre para imaginar o que for mais confortável.

Ora, o arquivo do blog, disponível em sua página inicial demonstra que este opera desde Dezembro de 2008, correto? Qualquer interessado pode acompanhar a trajetória (que sofre hiatos, breves ou prolongados, advindos do fato de eu não viver do blog e sim mantê-lo em meio às obrigações) que nos alcança neste 2015, se ela é coerente ou se acompanha ondas de entusiasmo, se tem compromisso com temas ou se adere aos maestros de torcida.

As preocupações com a memória cultural, sobretudo a jornalística (expressas nos textos em que sugeri a criação de um arquivo digital de jornalistas brasileiros e nos textos em que insisti por um livro – depoimento de Helio Fernandes), a indignação com as vítimas da criminalidade por parte de “Doutores em Causas da Violência”, a irritação com o nivelamento por baixo no jornalismo e minha desconfiança da democracia exercida por eleitores não-leitores são alguns dos temas recorrentes neste blog- provam- me mesmo um oligotemático, sem temor de sê-lo.

Como nos livros de Dalton Trevisan (imodéstia escandalosa na comparação, sei disto) os textos deste blog são parecidos uns com os outros, nunca iguais. Tomo o cuidado com a escrita, cuidado que soa como desconversa a quem, na absoluta escassez de recursos (expressa sobretudo em termos como “Mimimi”) estéticos, considera-se dispensado de escrever textos mais trabalhados, pois “mostrando a cara contra este Governo de petralhas, etc”já faz sua parte.

Eu mantenho minha coerência: julgo perda de tempo e energia esforço para derrubar um Governo que é apenas a porção mais superficial de um sistema de Poder muito bem fixado nas diversas camadas da sociedade.

Antes devemos combater estes beneficiários da ignorância exibindo-os como vigaristas, não nos contentando em tirar os vigaristas mais manjados de circulação. Pois se não formos capazes de os desmoralizar agora, decerto não seremos capazes de desmoralizá-los depois; enquanto incautos soltam foguetes, eles planejam novo assalto.

Sei que explicar isto a mentes primitivas desgasta, e reforça ainda mais a ideia de que somos, os adversários da interrupção deste processo via impeachment, uns covardes, uns acomodados. Difícil discutir política com líderes de torcida de “Facebook”, com gente que confunde análise política com treinamento motivacional, mas considero que meus leitores que me cobram merecem este esclarecimento.

Não, não estou confiante em nada que possa sair deste Congresso, destas manifestações  com o povo ainda sub-representado  nas ruas, com gente ainda acreditando, mesmo que despertando (aos poucos, bom lembrar) de uma fantasia que contou com a omissão de parte considerável da imprensa dita de Oposição que julgava perda de tempo denunciar a imprensa governista enquanto esta promovia ódio entre brasileiros, utilizando desconversas raciais, entre tantas outras mitificações. Este trabalho de destruição não mereceu, por anos, sequer um balançar de cabeças, pois “perda de tempo”, “Gente que ninguém lê”.

Este blog e este blogueiro estavam a postos, como continuam ainda.

Tolos desfrutando de público pouco exigente não exibem a folha de serviços deste espaço, pois escrever textos, alguns deles maiores que um parágrafo, é um pouco mais trabalhoso que reproduzir “memes”e lançar trocadilhos de pátio de colégio.

Escrever sem apoio de medalhões e sem aplauso fácil dos simplistas é desanimador muitas vezes, mas o trabalho que fica deste ofício sem reconhecimento sustenta-se de pé.

X

Miele – Assim, tão de repente

E o Brasil perde o Miele, que como notou Artur Xexéo na homenagem do “Arquivo N”, parecia que nunca iria morrer. Certas pessoas passam a impressão de que estão destinadas a não ter quem vele por elas – todos partirão antes; mesmo com voz cansada, Miele parecia passar por um resfriado apenas. Quantos sketches ainda bolaria, sua usina de ideias não acusando qualquer cansaço, que dizer esgotamento?

Via-o na TV desde criança, e não parecia um mortal, antes uma instituição do mundo dos espetáculos, acordando já de terno e gravata e copo de whisky, emendando uma imitação de Sinatra com narrativa de algum episódio do Beco das Garrafas.

Responsável, juntamente com Ronaldo Bôscoli, pela evolução dos espetáculos de Roberto Carlos em sua fase pós “Jovem Guarda”, criou momentos já clássicos de adaptação de um artista a outra linguagem, de um outro público, ou do mesmo público em fase de maturidade.

A “TV Globo” foi pouco generosa nas homenagens a este artista, esperava reprises de seus programas (sobretudo o que deve haver dele com Sandra Bréa),algum especial, ainda que montado às pressas (não estava internado em hospital, partiu sem cerimônia de despedida), ainda que exibindo fração mínima de sua produção de números musicais e de humor.

Soube do especial do “GloboNews “ já citado, os telespectadores da TV aberta terão sua porção de dois minutos, talvez em alguma nota do “Fantástico”, ou mesmo no bloco destinado aos mortos do ano, na retrospectiva. Sou um indignado nestes momentos, pois acredito que muito do nivelamento por baixo da TV brasileira é fruto deste esconder dos tesouros da própria TV, em dias menos medíocres.

“Quem não assina TV hoje em dia?”

Pode ser que muitos assinem e vejam Miele em alguma reprise do “Viva”, mas no que considero ideal a Globo reprisaria aos milhões de seu público os feitos deste multi – artista, seus duetos, suas criações paródicas, seu domínio na dança e sobretudo sua capacidade de dividir palco, sem desejar ofuscar colaboradores e ainda assim apresentando entretenimento de primeira, numa competência que parece ser apenas exercício de suas diversões: cantar, dançar, assoviar, rememorar com malícia o que foi dado a ele presenciar nestes anos todos de convívio com gigantes, como ele próprio.

Foi muito de repente, e admito não saber muito o que dizer de mais este desfalque. A expressão “mal súbito” tem agora, para mim (e acredito que para muitos) uma representação visual nítida, concreta.

Lembrei, logo soube da morte, de história que Renzo Mora me contou de sua experiência com Miele: o artista, após dias de trabalho em um evento corporativo, soltou-se com a equipe (que incluía Renzo Mora) organizadora no que pode ser chamado um show particular; contou piadas, cantou, imitou; enfim, presenteou estes felizardos com momentos que eles agora sabem ser um tesouro.

Procurando saber o que Renzo Mora escreveu, encontrei este texto, publicado no “República dos Bananas”que me tocou, e acredito que tocará a quem compreende a dimensão desta perda

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=0CBwQFjAAahUKEwiBsKDn68jIAhWCQpAKHWKIAj4&url=http%3A%2F%2Fwww.republicadosbananas.com.br%2Findex.php%2Fmiele-o-cool-em-pessoa%2F&usg=AFQjCNG_GD8vMFTy7_3qmPvfP0mKOCQPmw

Todas as noites serão de gala no hotel reservado ao Miele em sua nova fase.

Que inveja!

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s