“Notas”- 20/11/2015

Paris e Mariana – Quando os pessimistas têm razão

Amigos me cobram impressões das duas tragédias – o massacre em Paris e o jorrar de lama tóxica tocado pelo rompimento da barragem de  Mariana- eu relutei muito em escrever sobre dois fatos que vão encerrando 2015 com tons sombrios – não desejo juntar aos tantos clichês mais alguns; estas duas tragédias superam mesmo capacidade de análise e síntese.

Culpar o Islã como tantos fazem, com fartas demonstrações de pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto, como lemos dia depois de dia? Ou escolher, entre as alas governista e oposicionista da Imprensa, sobre qual partido jogar a responsabilidade pelo ocorrido em Mariana, PT ou PSDB?

Não tenho opinião muito bem formada sobre os dois episódios horrendos – muitos dos que escrevem parecem nunca ter pensado muito no tema, mas eles têm capital de notoriedade para gastar, e eu não. Temo repetir as obviedades e simplificações correntes, e os dois temas – Paris e Mariana – oferecem oportunidades para que se escorregue nas armadilhas habituais: juízos sumários e poses (de consciente ecológico, de liberal agnóstico, culpando quaisquer religiões dos massacres cometidos por malucos, etc) que causam em leitores experimentados riso e nojo.

Estou entre os que nunca suspeitaram dos riscos deste tipo de extração mineral – como a Imprensa trata pouco do assunto, custei a entender o que vitimou (e vitima ainda, tanto Minas Gerais, como o Espírito Santo) Mariana. Tudo leva a pensar que houve um desleixo muito típico:

“Isto se estourar, não vai ser agora, sô; já viu esta coisa estourar? Pois é…”

Advertências tomadas como alarmismos, na rotina de esperar mais um dia ou um mês (por que não um ano?) para tomar providências. Como a cabeleireira que procurou polícia por conta de ameaças do marido (que acabaram se cumprindo), como meu pai que demorou nada menos que 48 horas para ser examinado de sua trombose (demora que custou a perna e a vida) em cidade do interior (falo de Viçosa, um posto de saúde sem o médico – a funcionária nos admoestando por nossa pouca compreensão da necessidade do médico participar de um Congresso ou coisa do tipo). Tudo, mas tudo em Minas Gerais é tratado assim, por que uma rachadura em uma barragem seria diferente?

Quem tenha lido as memórias de Juscelino Kubitschek conhece o episódio da barragem da Pampulha que rompeu em seu mandato de Governador (JK afirma que, tendo a inaugurado quando Prefeito, não teve sucessores que se interessaram em fiscalizar a barragem), quando o estadista, em demonstração de coragem, tomou a iniciativa temerária de verificar in loco a barragem prestes a se romper. Foi, à época, desastre considerável. Sorte a do estado ter podido contar com JK – Prefeito e Governador ainda inigualados, em minha opinião.

Esta só barragem merece uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o que houve – verificar relatórios, seus autores, autoridades competentes, etc. Será impossível evitar outros episódios do tipo se não forem conhecidos os pormenores que devem ter registro, e que podem oferecer pistas sobre os responsáveis – seja por imprudência, seja por prevaricação – acredito que ainda não haja quem realmente saiba o que houve ali. Não engrosso os que acusam o Governo do PT sem saber de onde no tempo vem a ameaça que enfim destruiu um povoado inteiro e agora escorre para o mar, mas também não acredito que já em Novembro, não houvesse neste Governo qualquer relatório sobre a situação da barragem.

E já alertam sobre mais outras duas que preocupam, embora o Governador Fernando Pimentel, do PT, afirme que estas não apresentem perigo “imediato” (seja lá o que isto signifique).

O estrago de uma já demandará anos e muito, muito dinheiro, para ser minimizado, e espero que as vítimas, que perderam tudo, não assistam a um baile de empurra-empurra. As lágrimas que estas pessoas humildes derramaram em sua impotência, merecem o mínimo de respeito, e que a classe política consiga se superar.

Uma CPI criteriosa, que investigue causas e responsáveis e que puna com rigor é nada mais que este mínimo de respeito.

Paris – que dizer de Paris, palco de tantas manifestações de intelectuais pró-Islã, que sempre se mostrou no mínimo complacente com toda sorte de exigências ditas multiculturais? Ah, os intelectuais de cafés literários lançando sobre oponentes a qualificação “Eurocêntrico” como argumento conclusivo, como um insulto…mesmo após o ataque ao “Charlie Hebdo”, ai de quem sugerisse um “pente-fino” na comunidade islâmica…

Não se trata de sarcasmo, de rir da desgraça que poderia muito bem ter atingido meu país, minha gente, mas de lançar sobre alguns setores da intelectualidade algum questionamento: “Não teriam os senhores, que advogam relativismo moral, ter, por uma ironia caprichosa das probabilidades, armado fanáticos?” “Quanto os senhores instalados nas Universidades e pontificando diante de garrafas de vinho foram veementes o bastante sobre estes obscurantistas?”

Agora o estrago está feito, e qualquer muçulmano, ainda que contrário ao “Estado Islâmico” e moderado, estará sob suspeita, e estigmatizado. Não é, como eu disse acima, uma ironia, que este seja o fim de tanto “multiculturalismo”?

E há ainda quem não tenha percebido a natureza da ameaça: culpam uma religião e cultura quando deveriam tratar de uma patologia que amarrou as mãos do Ocidente contra bárbaros: o relativismo moral, que impede ação eficaz e rápida contra gente que não se preocupa em disfarçar seu fanatismo, sua rudeza, sua ignorância. Gente que ostenta sua brutalidade como um cartão de visitas e que exige, e quase sempre obtém, sujeição do meio.

A imprensa brasileira, como sempre, exibe simplismos – tanto a facção contrária ao Governo, como a facção chapa-branca buscam fazer proselitismo nesta hora dura: governistas tentam responsabilizar o Ocidente, plantando em seus leitores confusão de conceitos: ser pró –Palestina significa “entender” o “EI”, ainda que estes malucos sejam desprezados por todo o mundo islâmico que não esteja sob seu controle.

Oposicionistas lembram a sugestão de diálogo com o “EI”, por parte da Presidente Dilma Rousseff, em plena abertura do ONU. Ora, isto não se cobra: foi mais uma de suas “pronatequices”(como sempre digo aqui, quando me refiro aos pronunciamentos presidenciais sobre assuntos que a Sra.Presidente desconhece); ver como mais que isto é promover esta senhora à analista de política internacional, coisa que me parece, além de absurda por si, uma homenagem.

O que há é estupidez por toda a parte: os neocons quando afirmam que passou da hora do ocidente tratar o assunto com a gravidade que ele merece, acerta (ainda que se possa criticar estes neocons por tudo o mais): o Ocidente só deixará certas convenções “humanitárias” quando estes bárbaros invadirem o Vaticano e lá realizarem um épico que culminará na decapitação do Papa.

Os pessimistas nunca estiveram tão certos – e Paris e Mariana o confirmam: sempre se pode piorar, o grotescamente absurdo pode sim ocorrer, não há limites de ação para a estupidez.

Encerro este texto confessando tê-lo escrito sob pedidos, pois me reconheço incapaz de divagar sobre estes dois momentos de estupidez que, repito, confirmam todo pessimismo.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s