“Notas”- 21/11/2015

“O fim da ‘Playboy’ brasileira”

Começo esta nota com o feitio de redação escolar: “Minha Primeira Playboy”.

Tinha então doze anos em 1985 e junto com irmão ano e alguns meses mais velho convencemos nosso pai a comprar um exemplar em banca na qual tinha conta (banca de bairro). Não lembro da modelo, mas da entrevista: José Wilker.

Descobrimos então que não era necessário adquirir a revista (comprava-se e exibia-se a mesma na manhã seguinte nas rodas de colegas de escola) via paterna; em banca de centro da cidade bastava pagar (venda proibida aos menores de 18 anos de idade) e os números seguintes adquirimos assim: lembro da edição de aniversário de dez anos da publicação no Brasil, não tenho certeza da modelo da capa, mas lembro que a revista era perfumada (trazia um sachê de algum perfume), tinha um trecho d”A Polaquinha” do Dalton Trevisan e entrevista com Fidel Castro por, claro, Fernando Morais.

Fui através dos anos lendo exemplares antigos (comprados em sebos, emprestados por colegas, etc), me deleitando com as reportagens especiais,  as entrevistas curtas, as sessões de livros (lembro do tempo em que Ruy Castro a assinava e nela mantinha Box- “Telefonamos Para O Autor”, ou algo que o valha, e dois de seus “telefonados”: Fernando Gabeira e Paulo Leminski), de cinema,etc.

Falei aí do Ruy Castro, não? Alguns dos melhores textos que li na revista traziam sua assinatura, (salvo engano um perfil do João Gilberto por ocasião do lançamento do “Brasil”- eu disse aí em cima que lia números antigos) e algumas das melhores entrevistas também:

Renato Gaúcho relatando suas proezas sexuais e de sua irreverência sobre o mundo do futebol e me admirei de sua articulação de seu humor (acho que ele daria excelente analista esportivo) e constatei (talvez mais ali do que em todo o mais nesta vida) que inteligência pode vir desacompanhada de cultura – há os observadores e intuitivos que produzem mais ditos que muito sujeito livresco.

J.R. Duran narrando as aventuras que envolviam seus ensaios- ensaios que valeram a ele a observação (segundo Duran, uma reprimenda) dos editores da matriz americana de que suas fotos pareciam tiradas pelo namorado da modelo: o senso de intimidade, o sorriso de canto da boca, as expressões nuançadas, a iluminação do sol filtrada por persianas realmente dão esta (deliciosa) impressão.

Outras entrevistas – que suspeito não terem Ruy Castro como entrevistador – também reli a ponto de saber parágrafos de cor: Paulo Francis no início dos anos ’80 analisando o início do governo Ronald Reagan e os desdobramentos das eleições de ‘82 (sobretudo sobre a eleição de Leonel Brizola no Rio de Janeiro), entremeando estas análises com suas reminiscências de juventude (narrando seus porres de adolescência, incluindo seu pileque numa festa junina, com cachaça)  e outros comentários divertidos.

Roberto Campos em entrevista longa (as entrevistas de “Playboy” eram um presente para quem gostava de ler, nesta época)  por ocasião da queda do Ministro Dilson Funaro, o qual mereceu críticas de Campos por conta do “Plano Cruzado”, o qual definiu como “um banquete para o qual fomos convidados sem terem nos avisado de que pagaríamos a conta”, segundo me lembro. Também respondeu sobre seu tempo de seminarista, no exercício da castidade que forneceu a ele “enorme reserva de pecado”que, segundo Campos, não teve “colaboração” para aproveitar.

Antônio Carlos Magalhães em sua residência em Salvador explicando o desgaste do seu partido, PDS, e no que a candidatura Paulo Maluf o agravava, e prevendo o surgimento de um partido saído do PDS para apoiar Tancredo Neves (o que viria a ser o PFL), entre tantas definições e observações divertidas, também foi outra grande entrevista.

E poderia citar outras tantas.

A última grande fase da revista foi mesmo com Ricardo Setti – com sua competência, seu bom gosto,  sua elegância,  o grande jornalista garantiu o alto nível da publicação- que conquistara através de anos público de bom gosto, a chamada “elite”- a publicação de trechos de livros a serem lançados em breve era das coisas que cativavam este leitor.

Nos últimos tempos, meu prazer de ler “Playboy” desaparecera quase que de todo: não me lembro de matérias inspiradoras, ou de entrevistas que me provocassem desejo de releitura – a necessidade de economizar papel e a crença de que o leitor médio não suporta leituras “exaustivas” (ah! As pesquisas do “gosto do leitor médio” e seus estragos merecem um capítulo no livro que será escrito um dia tratando da morte de jornais e revistas)  compuseram a fórmula que empobreceu a revista – e que decerto causou a deserção de muitos leitores.  Imagino para qual público a revista andou trabalhando em seus últimos anos.

Culpa-se a internet pela morte de revistas e jornais- acho que se esta tese tivesse mesmo algum fundamento, esta morte teria sido por ocasião do surgimento da TV. O que houve foi a afoiteza dos donos de órgãos de comunicação – que viram no meio eletrônico economia de papel, e resolveram também economizar com material humano – gente que soubesse escrever. Dizer que fotos de mulheres nuas na internet tiraram público da “Playboy” é uma distorção primária: a internet não produz material inédito de nudez de artistas de novelas,  dançarinas de programas de auditório, assistentes de palco, entre outras celebridades.

A nudez é um pormenor nestes ensaios,  pensando bem. A visão da genitália é menos excitante que a visão de uma estrela em uma encenação de intimidade – e cada vez menos celebridades se prestavam a posar, esta é a verdade. O desgaste é duradouro, e o cachê nem tanto.

Lembro que a imprensa noticiou sondagem de Bruna Marquezine por parte da “Playboy”- teriam oferecido à atriz cachê “irrecusável” para que ela estrelasse uma edição de aniversário, e houve recusa. Marquezine declarou não ter preconceito em relação aos ensaios de nudez, “de muito bom gosto”, mas afirmou não se interessar – não ser este o seu perfil.

Ela está certa: os admiradores sinceros de seu trabalho não precisam ver seu sexo, e ficariam mesmo chateados com a previsível campanha “A Salete cresceu!”exibida em outdoors e cartazes pendurados em bancas.

Nunca me excitei com nudez- penso que a seminudez (seja em traje de banho, lingerie, ou roupas justas, ou curtas) é bem mais reveladora da personalidade da mulher e contém maior potencial erótico – propagandas de lingerie e mesmo revistas como a “VIP”, ou “GQ” sempre me foram mais inspiradoras.

Talvez eu não seja o único, nem faça parte de uma corrente minoritária; a decisão da “Playboy“ americana de não mais publicar nudez talvez esteja mirando neste público.

A “Playboy” brasileira acabou para mim faz tempo – quando começou a optar por leitores que desconhecem que a mente é mesmo (sei que repito um clichê, mas para mim, verdade indiscutível) o verdadeiro órgão sexual.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s