“Notas” – 28/11/2015

“A prisão do Senador Delcídio do Amaral e o que ela não é”

Como todos que leram o aviso na coluna da Reinaldo Azevedo (informando reunião extraordinária do STF) no site de “Veja” no começo da madrugada, eu esperava alguma prisão espetacular da “Operação Lava-Jato”, mas ainda assim fiquei surpreso como todos, ao ver, horas depois, de quem se tratava: um Senador em pleno mandato, e não um Senador qualquer- nada menos que o líder do Governo no Senado.

Os pormenores divulgados ao longo do dia foram ainda mais assustadores, pois parecia que não apenas atravessadores de negócios agiam como em um filme de Martin Scorsese;  então é mesmo assim? A inversão de valores e costumes é mesmo fato assimilado pela cultura do País? Filhos de presos encontram com advogado e senador temendo o que pode ocorrer em uma reunião em hotel? Todo cuidado com escutas e celulares, como convém a uma reunião com criminosos?

Há entre a gente que encontro na rua um misto de excitação nervosa com desejo sincero de vingança, mas não o susto que seria sinal de que ainda há senso de dramaticidade em um povo. Não, nada mais choca, tudo é percebido como mais um capítulo deste pesadelo, nada mais. A sucessão de absurdos sem punição causa este efeito na coletividade, esta anestesia patológica, na qual nada mais é percebido como ponto de fusão ou ruptura: “Deixa esquentar mais um pouco; quem sabe o circo não pega fogo de vez?”

Logo, não empresto a esta prisão significado outro que o seu imediato: uma prisão que abre um precedente de prisão de políticos em mandato, um sinal de que ainda há possibilidade de ação contra quem toma a atividade política como abrigo seguro contra a Lei.

Mas, considerá-la o “Começo do Fim”, não. A imprensa governista já tratou de repercutir o PT nas tentativas de isolar o senador preso do partido: ele seria um “tucano no PT”, mencionam supostos crimes cometidos por ele quando no PSDB e assim livram-se, ou pensam livrar-se, do contágio deste evento: Delcídio que responda por sua iniciativa, não o PT.

Mas, e se ele resolve delatar? Afinal, ele parece menos resistente aos banhos frios do cárcere, e mais dócil aos prováveis apelos familiares e talvez tenha aprendido com o exemplo de outros abnegados que resolveram assumir responsabilidade integral por seus feitos;  que não vale a pena sustentar este papel de servidor leal se o próprio partido faz questão de descartá-lo como resto.

Bom, que ele tenha provas! Que ele obtenha garantias suficientes, e que encontre nas autoridades disposição de enfrentar tabus.

Em resumo: o homem terá que se munir de muita força moral, de muita disposição para enfrentar a máquina de imprensa dos seus agora ex-companheiros. Eles já demonstraram nos primeiros momentos que não se deixarão envolver na ratoeira sem dar muito trabalho.

Não sei se ele dispõe deste capital, e penso mesmo que muitos dos que apostam no fim do ciclo petista por esta via usam de auto persuasão – tampouco confiam no que, embora explosivo, não é por si conclusivo de coisa alguma. Qualquer jornalista experiente sabe que o senador queimará no inferno dedicado a quem é confiado a missão de realizar o trabalho sujo e é pego: assumir a culpa e esperar a passagem do tempo.

Ele, Delcídio, tem se portado como o personagem Amado Ribeiro, de Nelson Rodrigues: pego por um marido traído, negou até ele próprio duvidar do ato.

Continuo pensando que é difícil provar muita coisa contra quem pode sempre alegar que agiu mal aconselhado, vitimado por pareceres equivocados.

O estrago, o aviltamento das instituições, vem de alguns anos e este- o áudio de um senador discutindo planos de fuga com o filho de um delator – é apenas o exemplo mais escandaloso. A citação de nomes de ministros do STF vir após apenas alguns dias de cartilha do PT desqualificando o ministro Gilmar Mendes e o juiz Sérgio Moro me parece apenas uma coerência; se desde o “Mensalão”, ataques ao Judiciário são feitos (algumas vezes na presença da Presidente Dilma Rousseff) sem resposta enérgica deste Poder, por que mudar o que funciona como combustível para a militância? Quantos militantes não se entusiasmaram com a associação da figura de um macaco ao nome do então ministro-relator do “Mensalão”, Joaquim Barbosa? Ou quando o mesmo ministro foi atacado verbalmente em um bar? Disto tudo resultou qual punição?

Se a imprensa governista replica a tal cartilhinha e ridiculariza dia depois de dia juízes e procuradores, como não ver neste padrão de comportamento político um código legítimo de combate político? O uso consagra, e esta obviedade parece não penetrar nas cabeças impermeáveis dos formadores de opinião; “o que vem debaixo não me atinge”, o mantra convertido em dístico nestes dias em que se confundem conceitos e invertem-se valores, e que espera-se sair de armadilhas históricas por mera ação da Vontade.

Estes senhores que nos governam de dentro das Universidades e sindicatos sabem se conduzir na adversidade e agora não se apertarão, sobretudo porque com inimigos que sabem fáceis de combater. Souberam engrossar suas fileiras com ex-funcionários de empresas jornalísticas e forjaram uma imprensa que não contou com qualquer resistência em sua ascensão.

Eu escrevi linhas acima sobre a excitação nervosa da população desprovida de senso da gravidade, sim? Quando se sofre sob um governo ineficaz e não se pode contar com oposição capaz de se apresentar como alternativa, com imprensa que não parece atenta aos seus problemas mais urgentes, a prostração é inevitável. O sujeito verifica que não tem como escapar, que tudo piora, e que há uma casta que o persegue caso ouse emitir desagrado (desestimulado, por ser “ingratidão”) e que justo esta casta tudo pode, pois gol de mão deles (dos integrantes da casta acadêmica, corporificada no PT) sempre é válido – e desiste de pensar nos assuntos que somente drenam energia mental.

Por isto, passados uns dois ou três dias, tudo volta ao estado de estagnação mental e moral que faz a prisão de um senador, após áudio em que este propõe fuga, algo que não desperta paixão maior que a dispensa de um técnico ao final de um campeonato.

A prisão do Senador Delcídio do Amaral (e de um banqueiro amigo de políticos, André Esteves) é, até o instante em que digito este texto, o acontecimento político de 2015.

Mas há muito a perfurar ainda, não é momento de abrir caixas de foguetes.

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