“Notas”- 23/01/2016

“Não falem do Lobão…”

Há atrasos que servem aos caprichos dos fatos que, por acontecer, oferecerão sua recompensa. É esperar e constatar que há lógica maior por trás do que percebemos como desordem pura. Desde que li (na semana mesmo do lançamento) seu livro “Em Busca Do Rigor E Da Misericórdia”, e principalmente após ouvir a prévia do disco “O Rigor E A Misericórdia” no programa do Jamari França, decidira que o próximo texto do blog seria  sobre Lobão neste seu momento. E como esta decisão teve palco cronológico o fim de ano e suas atribulações próprias, não o escrevi. O Destino caprichoso quis que, entre a decisão de escrever e o texto pronto, houvesse o diálogo entre Luiz Felipe Pondé e Lobão semana passada.

Foi o melhor diálogo desta série de “hangouts”, com Lobão mais solto, desenvolvendo sobre pauta proposta por Pondé: os sintomas do espírito totalitário colhidos pelo compositor e músico em seu habitat: o meio artístico. Tudo que escreveria, fruto de minhas observações na leitura de seu livro, ganhou o auxílio da condensação e reiteração destas ideias na conversa com o filósofo.

A atmosfera totalitária que expulsou seu sobrinho do Brasil (livrando-o de um futuro de castração e amargura, de um embalsamamento na burocracia, comum a todos que capitulam) é a mesma que faz com que seu nome seja interdito, esta interdição estigmatizando quem o menciona (lembro de ilustre jornalista que interrompeu correspondência eletrônica comigo assim que citei o nome de Lobão, nunca mais respondendo a qualquer mensagem minha), mesmo em meios que muitos supõem habitados por gente “aberta ao outro”- por ironia os mais intolerantes e implacáveis com quem pensa diferente e cita nomes “malditos”.

A raiz deste Poder foi localizada com precisão por Pondé: esta gente, ocupante do que é o clero intelectual no Brasil, detém, em última instância, quem recebe ou não, empregos, colocações, verbas, bolsas. A casta acadêmica, miserável de intelecto, com apenas meia dúzia de cinco de fato eruditos, trata, por este meio, de exercitar suas habilidades e reafirmar o Poder; futricando, estigmatizando os não-alinhados, barrando caminho na ascensão social, azedando a sorte dos que se recusam a admitir sua predominância.

Lembro da graça que muitos acharam da observação de Pondé, há algum tempo, do deserto sexual que é destinado ao não-agregado às hordas, no Brasil. Pois é das ferramentas de cooptação e de punição mais eficazes. Utilizam-na com zelo na Universidade, e nos ambientes relacionados: o sujeito é isolado e isola-se quem com ele se relaciona: uma hora todos acabam por julgar tal amizade “pesada” demais e elimina-se um indivíduo assim. Como vivemos em dias de absoluta covardia, tal tática é de eficácia letal.

E assim Lobão atravessa o que ambos, Lobão e Pondé, concordam ser o processo de “Simonalização”: do Lobão não se fala, e fora com quem sobre ele fala e escreve.

Há quase dois meses do lançamento de seu livro, e com o material de seu disco já divulgado, mesmo ataques são raros. Como perceberam que atacando-o, seus shows  (a despeito de invencionices)  nem por isto se esvaziaram, passam à tática da morte pelo silêncio. Assim que lançou o livro, corri aos espaços do governismo na internet para ver como se comportariam os que de hábito se prestam ao serviço de ridicularizar críticos da situação, e não li neles vírgula sobre o livro – foi como se não houvesse sido lançado. Como sempre agem no coletivo, e não se preocupam (ao contrário, e já expliquei no blog a razão da nenhuma sutileza operacional desta turma) em afetar a mínima sutileza e independência, e sobretudo como antes o atacaram  afinados, parece que o silêncio segue o mesmo feitio.

E assim fizeram com o Olavo de Carvalho quando perceberam que atacá-lo mais o promovia que o destruía (pois despertava mais atenção sobre ele) e decidiram então obedecer a ordem dada por certo professor universitário que decretara silêncio sobre o filósofo anos antes. Este silêncio foi quebrado justo por Lobão que sempre que podia citava o autor de “O Jardim das Aflições” como influência nos dias em que mesmo em “Veja” (nos textos de articulistas que leitores imaginavam próximos ao Olavo) o nome Olavo de Carvalho era muito pouco lido.

E tinha que ser mesmo Lobão, que tem coragem indiscutível, provada em episódios diversos, em cenários (como cela de um xadrez onde ratos passeavam com desenvoltura) onde muitos relativizariam o dever da coerência. Qualquer outro pensaria no preço a se pagar com a citação do nome proscrito e se acovardaria com alguma desculpa de ocasião.

De início, a citação do nome Olavo de Carvalho por Lobão recebeu a acolhida que um ruído no gravador merece, e disto tratei no meu texto “Não falem do Olavo”, mas o músico e escritor insistiu, e iniciou com o professor e jornalista parceria que enfureceu os setores do Poder cultural, e que selou seu destino: doravante não se falaria de Lobão também.

Este o problema: o boicote a quem desafia, ainda que o mínimo o Poder, e este é ocupado no Brasil pela casta acadêmica e seu braço jornalístico. A saída encontrada por Lobão: produzir ainda que contando com este boicote, tendo nesta situação ingredientes para depurações. Como leitor de Nietzsche que sempre foi, aplica a máxima que ensina que o que não mata, fortifica. O que Lobão enfrentou desde que resolveu iniciar parceira com Olavo de Carvalho poucos enfrentariam com fôlego para continuar produzindo.

O que considerei excessivo, tanto no livro como no disco, parece adequado à personalidade do artista: por exemplo, se eu no lugar do Lobão resolvesse responder ao Juremir Machado da Silva a acusação de atacar para me promover, apenas lembraria o sucesso de algumas canções antes da primeira polêmica e perguntaria quem o conhecia fora do Rio Grande do Sul e círculos acadêmicos antes da briga com o Luis Fernando Veríssimo. Lobão é excessivo, mas exigir que não o seja parece ser parte de uma exigência miserável: que ele deixasse de ser Lobão e fosse igual a todo mundo.

Um sujeito como ele, mesmo errando, mesmo adjetivando mais que explicando (por ex: penso que  qualificar o trabalho do Chico Buarque como “porcaria” e atribuir ao violão déficit de energia comparando-o à guitarra elétrica, nada contribui, além de fornecer aos seus críticos farto combustível para sua fogueira), é mais necessário que arrumadinhos que servem ao Poder, ainda que por omissão. A coragem com a qual fala de sentimentos íntimos e expõe seu mecanismo de criação, não parecendo temer ficar, por isto, vulnerável, é um exemplo precioso.

O que considero também de valia no seu livro é sua atitude de culto ao ritual do trabalho diário, mesmo em situações que, repito, intimidariam, e prostrariam tantos outros.  De fato, seu estúdio caseiro é seu santuário e casa de força. Ensina leitores a não se satisfazer com o menos que o sonhado, ainda que o sonho seja duro e exigir mais e mais trabalho. Também ensina a mergulhar fundo nos estudos e influências, a buscar no mais próximo da fonte, e não em diluidores, ou frutos da diluição, os elementos da criação artística.

O disco segue o mesmo padrão – excessivo talvez, nada enxuto, mas sem dúvida coerente e sem concessões à trajetória discográfica iniciada nos anos ’90, quando tomou para si o máximo de responsabilidade sobre seus produtos. O disco conta com dois já clássicos, a canção dedicada ao seu pai, “Ação Fantasmagórica À Distância” e a faixa-título. E isto penso bastar para que o disco mereça resenhas atenciosas, que fujam de lugares-comuns advindos da sua persona pública. Os detratores não parecem dispostos a enfrentar a tarefa.

Acompanho Lobão desde minha adolescência, tanto como ouvinte, como leitor de suas (sempre divertidas) entrevistas. Penso que deveria escrever mais em seu tumblr, ou mesmo o convertendo em blog – é um pensador da arte e me parece, por ex, mais apto a escrever sobre o desfalque cultural criminoso na morte recente do David Bowie, uma de suas admirações. O número expressivo de perguntas que recebe demonstra haver demanda de público por suas opiniões.

Devo ao Lobão um de meus textos favoritos – o que trata de homenagem que prestei ao meu pai no cemitério. Escrevi-o ouvindo o disco “A Vida É Doce”;  o texto saiu de primeira, sob emoção da visita ao cemitério horas antes, “Universo Paralelo” reforçando-a.

Escrevi sobre ele no blog algumas vezes, e sei que escreverei outras tantas.

Que mais textos, discos e querelas de Lobão venham.
Nunca precisamos tanto disto.

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