“Notas” – 27/02/2016

“Veja – Sexta Direção”

Anunciou-se, esta semana, a saída de Eurípedes Alcântara da direção da “Veja”. Houve também o esperado desfile de simplificações e bobagens conspiratórias a respeito desta mudança na direção da revista.

O que penso da “Veja” está disponível no arquivo do blog; meus senões e exemplos, colhidos sem esforço, de como não se deve conduzir uma redação: erros primários e simplificações que ajudaram os governistas.

Como é órgão dito oposicionista, muitos se prontificam a justificar grotesquices, quando deveriam pelo fato mesmo de ser Oposição, exigir máximos cuidados na feitura do semanário.

Continuo um saudosista da “Veja” dos anos ’80 e ’90 (diretores José Roberto Guzzo e Mario Sergio Conti, respectivamente) e admirador do que li (em bibliotecas e no acervo digital) do material da primeira direção (Mino Carta) – os três primeiros diretores produziram números que são dignos de ocupar espaço em bibliotecas; da saída de Conti para cá, julgo a revista descartável – é ler e doar a algum asilo, ou vender por quilo em bancas do centro da cidade.

Mas não sei se é justo considerar os quarto e quinto diretores (Tales Alvarenga e Eurípedes Alcântara) uns incompetentes que enterraram a publicação. Acredito que não tiveram boas equipes e o devido incentivo dos patrões, ou coragem para imporem suas concepções de jornalismo (acaso as tivessem) diante destes. A “Manchete” pós – Helio Fernandes (que só aceitou dirigir a revista se lhe dessem “carta branca”) com sua direção exercida pelos donos em instância máxima, ou “O Estado de S.Paulo” (recomendo a leitura do depoimento de Sandro Vaia ao Mario Sergio Conti na “piauí” – escrevi sobre este texto aqui no blog) onde diretores conhecem o pesadelo de tentar melhorar o jornal em meio às batalhas familiares, são exemplos que negam a culpa total dos diretores de publicações por seus malogros.

Eu não aceitaria trabalhar na “Veja” atual  (não me agradaria escrever para primários, ter que simplificar à idiotia minha escrita), que dirá ocupar a sala do Diretor. Não há como devolver à revista a relevância dos dias em que seu padrão de qualidade era difícil de ser alcançado pela concorrência, pois este padrão tornou-se desnecessário aos olhos de quem decide, e por ser outro o público leitor de “Veja”.  Hoje o leitor de “Veja” é, cada vez mais, um cliente de um serviço de catarse impressa, ou para homenagear Umberto Eco, um típico leitor de “Best Seller” que deseja ler sempre um “novo -mesmo livro”.

O público-alvo se modificou, mesmo pelo contraste, nesta lógica de polarização que a Imprensa adotou, dispensando-se da obrigação de formar leitores, educá-los, ao invés de servir ao leitor como qualquer comerciante. Como criticar o atual sistema de Poder acima da disputa partidária? Noto em muitos leitores (os que vejo comentar nos articulistas) ignorância da matriz tucana de muitas das mazelas atuais, e “Veja”, por funcionar como boletim do PSDB, nada faz para lembrar que o poço é bem mais fundo que se acredita, e que o toque de despertador deste pesadelo exigirá muito de todos.

Não parece haver compreensão dos mecanismos de Poder nos articulistas de “Veja”, compreensão que é sempre exercitada na Esquerda; havendo demandas populares, associam-se e logo se apresentam como seus legítimos defensores e condutores. Tomemos o caso das manifestações contra aumento das passagens em São Paulo: Reinaldo Azevedo (coadjuvado por diversos comentaristas, seus e de outros colunistas) preferiu denunciar a instrumentalização pelo PT deste problema de economia popular, quando o necessário é compreender as dificuldades de quem, sem aumento real de salários, tem que se haver com aumentos que sangram o bolso dia depois de dia. Os movimentos satélites do PT encontraram a estrada desimpedida e fizeram sua parte; apresentaram-se como os defensores da população frente aos empresários que não admitem diminuir um mínimo seus lucros.

Reinaldo Azevedo e comentaristas estranharam matéria do “Fantástico!” que exibiu belas manifestantes, filhas da periferia de São Paulo. Como são pessoas que conheceram (quando conheceram) a pobreza em décadas remotas e em cidades do interior, ignoram existência da massa  trabalhada com zelo  pelos “movimentos sociais”; mesmo aqui em Belo Horizonte qualquer bela adolescente da periferia tem pronto o discurso do Comissário do Povo.

Esta distância da realidade é condenável em jornalistas, e é encontradiço em “Veja”. Mesmo seus melhores jornalistas contavam como certa a vitória da Oposição em 2014, pois era a tendência colhida entre gente do meio social que eles frequentavam. Os sinais de insatisfação pareciam animadores mas estes formadores de opinião não atentaram às advertências de José Serra quanto à incerteza dos resultados eleitorais desta insatisfação naquele momento histórico (segundo Serra, “o ciclo ainda não se exauriu”, cito de memória).

E como davam como seguras suas projeções, e não como flagrantes do momento, o descrédito compareceu. Era, afinal, a terceira derrota do partido que apoiavam.

Nenhum órgão de comunicação sobrevive ao descrédito, e sobretudo, à condição de caricatura de um passado respeitável; a revista, firmando-se como uma relíquia, um item de nostalgia, apenas.

Há como se recuperar?

Pouco sei do diretor anunciado, André Petry, exceto que ele é elogiado por setores da imprensa governista que o celebraram quando foi anunciado como substituto de Mario Sabino na posição de Redator-Chefe e sei também que é tido como “esquerdista” pelos entusiastas da “Veja” atual, e isto (a acusação de “esquerdismo”)  me parece promissor. Um jornalista complexo, que desconfia de simplificações e não se porta como cortejador de imbecis deveria ser o mínimo a ser exigido para o cargo de Diretor de Redação de um órgão como “Veja”.

Mas ele não fará milagres. Com o número reduzido de páginas e a política da Casa de corte de gastos, como produzir o que salva publicações – reportagens caudalosas, como as publicadas em décadas anteriores? Hoje matéria extensa na revista ocupa duas páginas, duas páginas e meia.

Há também o problema dos colunistas, eu como Diretor substituiria sem contemplações de ordem metafísica muitos dos “formadores de opinião” da grade. Quem se serve de Português de rede social que continue escrevendo em rede social; topasse, Pawwlow Diretor, com um único “Mimimi” onde deveria estar escrito “queixa” ou “lamúria”, devolveria o autor ao Facebook, habitat natural de gente que se expressa assim.

Colunistas que berrassem suas preferências partidárias (não digo ideológicas) e citassem fontes de comprovação problemática, idem.

Eu manteria o ouro da casa: Guzzo, Augusto Nunes, mais um ou outro. Tentaria reconquistar Ricardo Setti, aproveitando seu talento e bom gosto como correspondente na Europa. Um sonho seria algum repórter (gente como Daniela Pinheiro, por exemplo) da “piauí” disponível. Nivelamento pelo alto, resumindo.

Elio Gaspari, no Décimo Congresso da “Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo -ABRAJI”  (vídeo da palestra disponível no “YouTube”),  deu a receita: “Fortalecimento do editor…um sujeito que diz ‘isso aqui sai’, ‘isso aqui não sai’ e ‘quem manda aqui sou eu’”.  Pois assim, observa Gaspari,  o jornal ou a revista sai  “à semelhança da competência do Editor”.  Alguém discorda?

Haverá interesse da “Abril” por esta nova “Veja”? Tomara que sim, a publicação é ainda o marco a ser superado em termos de qualidade, e de alguma independência em relação ao Governo.

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