“Notas” -12/03/2016

“Desperdícios de Munição”

O  pedido de prisão preventiva do ex-Presidente Lula foi um desperdício de munição: indícios eloqüentes  foram mixados à retórica moralista, e o resultado mereceu críticas mesmo de líderes do PSDB. Por que atirar contra o vento em momento por si dramático? Talvez a falta de cultura histórica seja o motor deste imediatismo, desta pressa em tirar ocupantes nominais do cargo e prender sem a prévia revisão de leis que fazem o crime algo compensador.

O que se escreveu deste Procurador, Cássio Conserino, em sites e blogs governistas, deveria servir como combustível para ação certeira, acompanhada de protesto enérgico frente ao Legislativo (para investigação da imprensa governista em alguma CPI), e assistimos a um jato prematuro de coação que muito auxilia quem se apresenta como um “perseguido”.

O mesmo intervalo de tempo teve reunião de representantes das empresas de Comunicação com o Ministro Edinho Silva, da Secretaria de Comunicação Social (SECOM). Estes donos de rádios, TVs e jornais e revistas levaram ao Ministro suas queixas, sobretudo sobre a insegurança de seus profissionais durante coberturas dos eventos que contam com a militância petista. Quem duvida da legitimidade destas demandas?

Mas se trataram apenas do que ocorre às empresas intimidadas pela tropa petista, e não protestam contra patrocínio do Governo aos sites e blogs que publicam agressões contra adversários (agressões travestidas de “livre expressão” – penso no que tantos blogueiros sem proteção governamental, como eu próprio, têm que se manter cuidadosos), qualquer reunião é, além de ociosa, uma aceitação deste Governo como interlocutor respeitável.

Onde a indignação contra a violência praticada por um Poder contra outro Poder? Onde a defesa de todos que são violentados por militantes da internet? Defender só os interesses das empresas é sinal do pouco apreço que estas empresas têm pela Democracia, pois se não a defendem acima das suas próprias ofensas, quem defenderá os milhares que não encontram defensores enérgicos contra exército virtual? O que esta reunião me deixou foi a impressão de que, não fossem molestadas, estas empresas jamais protestariam. Por uns dez ou doze anos esta imprensa foi no mínimo complacente com o Governo que manifesta desprezo por ordem política que não os contemple com o Poder.

Reunião com Ministro que não vá além de declarações formais de um lado e respostas evasivas de outro é outro desperdício de munição.

E quanto ainda se desperdiçará da munição propiciada por estímulos históricos? Quanto tempo e energia ainda serão dissipados nestes espasmos de indignação que vão enfraquecendo, pelos desapontamentos que provocam, uma explosão definitiva e necessária?

Atribuiu-se à vaidade do Procurador este pedido de prisão que se demonstrou inexato e grandiloquente. Pode ser, mas esta vaidade é excitada por imprensa pouco crítica, pelo ambiente mental de “fim de época”, quando tantos jornalistas competentes parecem se bastar com a mera troca de ocupantes do Planalto. Houvesse maior reflexão, tudo o que se vem apontando contra o ex-Presidente Lula seria aproveitado para compor não a biografia de um líder e de um Partido, mas do esquema de Poder que já vem se transmutando para o “Pós-PT”.

O outro desperdício de oportunidade, a reunião com o Ministro da SECOM, é também fruto da mesma superficialidade, os patrões deseducados por seus funcionários; o clero intelectual ocupado por elementos cansados ou pouco temperados no estudo.

Não consigo ser otimista com esta troca de guarda – o Governo cai por sua incompetência, não por ter sido combatido com a fúria e a perícia que a situação exige dos “formadores de opinião”. E como não se percebe o mecanismo expiatório, tudo parece caminhar para o que parecerá aos desatentos um retorno desta gente.

Os que estudam não se surpreenderão com o retorno dos que apenas fingiram partir.

George Martin e Naná Vasconcelos

Rainer Werner Fassbinder declarou que desejava ser, no cinema, o que Karl Marx foi nas ciências sociais – alguém cuja ação transformasse sua área de atuação de maneira definitiva, que marcasse território. Quem discute seu sucesso nesta ambição? Quem pensa em cinema alemão sem lembrar sua figura e sua obra, singular até na quantidade?

A Cultura perdeu na semana que passou dois marcos, dois referenciais – um na produção fonográfica, outro na percussão, na música instrumental de vanguarda. Um foi talvez o primeiro produtor conhecido pelo público não-especializado, associado ao grupo cujas gravações dirigiu, “The Beatles”. Outro deixou, além de trabalho solo respeitado, cuja influência é admitida por muitos músicos, valiosas colaborações em discos de artistas, tanto brasileiros quanto internacionais.

Depois de George Martin, produtores tornaram-se, para o público musical  bem informado, astros tão celebrados quanto os artistas que produzem. Alguns moldam o som de seus artistas, outros extraem, através de depurações, a seiva. Penso em Brian Eno como um produtor que transforma o som de seus “produzidos”, penso em George Martin como o tipo de produtor que grava a “alma” do cantor e ou do grupo. Não estabeleço entre os dois tipos de produtor qualquer hierarquia, mesmo por não ser um crítico especializado. Mas acredito que o trabalho de depuração depois do qual a essência do artista seja perceptível seja algo mais difícil que introduzir elementos em uma base estética. Ouço “Beatles” com esta impressão, que admito, pode ser falsa. O que quero dizer é que foi imortalizado com o título de “Quinto Beatle”sem parecer forçar qualquer porta para o estrelato, discreto e competente. Depois dele, surgiram outros nomes que na produção que foram identificados, por uma ou outra característica, como “autores”, tanto quanto os titulares dos álbuns que produziram: Martin Birch, Bob Ezrin, Steve Albini são os que me ocorrem.
Naná Vasconcelos conheço mais como colaborador que como artista solo. Com Milton Nascimento (o clássico”Miltons”, no qual Naná divide a parte instrumental com Herbie Hancock), a parceria com Itamar Assumpção”(“Isso Vai Dar Repercussão”), o “Dança Das Cabeças” com Egberto Gismonti, enfim, vários álbuns já estabelecidos como clássicos, nos quais Naná imprimiu sua musicalidade; um som que, inventivo, não se sustenta em virtuosismos fáceis. É gostoso ouvi-lo, e não há dúvidas que este artista elevou a percussão a um patamar diferente do que dispunha quando do seu surgimento.

Penso que estes dois grandes artistas não se contentaram com menos que a excelência, ainda que parecessem, ambos, despretensiosos, ocupados em exercitar com prazer o talento. Exemplos não apenas para músicos, ou interessados em música, mas para qualquer profissional que tenha por objetivo demarcar seu ofício.

Os discos, perenes, dizem mais que qualquer necrológio.

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