“Notas” – 17/03/2016

“É isso aí, sabe, e quem não gostar que vá…”

Recebo ontem, logo começaram os protestos na Pça. dos Três Poderes e a divulgação dos áudios do ex-presidente Lula (já anunciado como novo Chefe da Casa Civil), telefonema de amigo e leitor, sempre alarmado pelo que lê nas redes sociais, e aturdido com o espetáculo da pequena multidão enfurecida e a trilha sonora das falas do ex-Presidente:

“Pawwlow, o que está achando, acha que isto derruba de vez este pessoal? Olha, mesmo eu (e não preciso dizer que nada espero deste esquema de Poder) desta vez estou assustado, eles são ainda mais baixos que eu imaginava.”
“Não direi que assisto este striptease moral impassível como um filósofo, mas não direi que estou surpreso. Enraivecido, revoltado, posso estar…mas dizer que eles me pegaram de surpresa…”

“Acha que desta vez o povo vem em massa exigir o fim deste governo? Será possível que as pessoas toquem suas vidas como se este assalto ao Estado seja algo natural?”
“Ah, as ruas… você me perguntou Domingo se eu estava emocionado com o oceano de gente nas avenidas, não? E me considerou um desalmado quando respondi que, se beleza fizesse História, impérios da Antiguidade teriam sobrevivido até nós…eles, nossos adversários desta porção da História têm visão da beleza próxima à minha- não se abalam muito, não.”

“Mas eu acreditava que o ‘simancol’ deles, ao contemplar a manifestação considerada a maior de nossa História. fosse enfim se manifestar…”
“Claro que se manifestou… trataram de se apressar. Juntaram o pedido de prisão preventiva com o volume humano nas ruas e decidiram transformar o líder no ocupante de fato da Presidência. Acusá-los de insensibilidade é, portanto, injusto.”

“Pawwlow, você sabe do que falo, não estou sendo irônico. Falo de algum despertar de civismo, consciência moral… tanta gente reunida em nome do País talvez invocasse algum imperativo cívico, e uma autocrítica que fosse de serventia no retorno deles ao Poder.”
“É… e você diz não ser irônico… aos pouco afeitos ao exercício de memória cito Helio Fernandes, ele em uma entrevista ao Luiz Nogueira (disponível no ‘YouTube’), diz (era o Governo Lula (sob a tempestade do ‘Mensalão’): ‘Eles queriam o Poder, conseguiram o Poder, usaram do Poder, abusaram do Poder …’ Ora, esta obsessão só conhece as motivações ligadas ao desfrute do Poder, outras questões metafísicas, eles as deixam, sem maiores lamentações, aos otários, aos ‘coxinhas’…”

“Coxinhas estes que estão, talvez pela primeira vez, saindo às ruas, dispostos a aceitar o nível dos manifestantes uniformizados do governismo, dar porrada deixou de ser privilégio dos ‘integrantes dos movimentos sociais’, os ‘reaças brancos’ parece que cansaram de apanhar…”
“E não foi o toque épico do Domingo, ou os títulos de colunas dos jornalistas de Oposição (Augusto Nunes garantia que ‘o Brasil foi dormir feliz’ após as manifestações de Domingo) que produziram este ânimo. O deboche, a disposição de insultar, de esfregar na cara da população a nenhuma disposição de ceder, é que parece ter ensinado aos manifestantes de Oposição que não basta vestir-se de camiseta da Seleção e tirar selfies. O sentimento de luta política parece estar sendo assimilado.”

“Você acha que é só luta política esta nomeação do Lula? Não mais que isto? Não acredita na motivação apontada por todos: livrar Lula das garras do Dr.Sérgio Moro?”
“Quem acredita que Lula ministro não será julgado um dia? Quem dentre todos os governistas conta com este mandato concluído apenas em 2018? Só os muito crédulos aceitam a ilusão de que os desdobramentos da ‘Operação Lava-Jato’ serão eliminados com esta nomeação. Eles, os que gritam de punhos cerrados ’Não Vai Ter Golpe’ sabem que a luta não é pelo mandato de Dilma Rousseff ou pela não-investigação e possível condenação de Lula – trata-se de destruir qualquer reverência, entre as massas, por instâncias alheias ao esquema de Poder ao qual eles pertencem (não importa se apenas por associação, ou simpatia). Insultar juízes e desqualificar o trabalho da Polícia Federal são atividades deste esforço de desmoralização.”

“Desmoralizar os que marcharam Domingo…”
“Os que marcharam Domingo e estão se manifestando (seja concentrando-se nas ruas, seja batendo panelas) são ainda, embora com seus méritos, ineficazes e caracterizáveis como a ‘classe média branca’, ainda que todos (sobretudo os governistas) saibam que isto é reducionismo de má fé. Mas a Oposição não está ainda sabendo comunicar aos setores da massa que assustariam o Governo caso mostrassem as cores que estamos todos contra o mesmo inimigo. Não vejo na Oposição esforço para estabelecer ligações entre a classe média enfurecida e extratos sociais mais básicos. Fica fácil a caricatura, concorda?”

“Olha, não é exata sua avaliação destes movimentos: negros e pobres que sofrem a inflação e o desemprego também estão engrossando o caldo das ruas.”
“Mais grave é, portanto, a ineficácia da Imprensa dita de Oposição que não tem mostrado como deve estas faixas do descontentamento. Mas, de qualquer modo, onde manifestações no Centro (e não em logradouros caracterizáveis como ‘da elite branca’) e nos populosos bairros pobres das capitais e cidades de porte médio?”

“O mesmo pode ser perguntado sobre as massas que o Governo alardeia liderar, não? Fora sindicalistas e demais ativistas uniformizados, onde os milhões que deveriam ser ‘gratos’ ao Governo?”
“Vejo fotos de ‘protestos a favor’ nas periferias das grandes cidades, nos sites do Governismo – estes que os senhores do bom gosto e do bom senso na Imprensa dita de Oposição julgam perda de tempo ler. Fora os formadores de opinião que eles sabem arregimentar nestes serões em teatros (como o ato de ontem no TUCA), estes torneios de discursos enfadonhos declamados com esgares e punhos levantados – são grotescos, mas os professores que podem barrar os filhos da classe média descontente, mais atores, diretores de teatro, cantores…isto faz mais estrago que gigantescas concentrações de gente que não se articula para algo mais que…marchar.”

“Não acredita mesmo no pavor dos governantes? Acha que eles estão tranquilos com impeachment a caminho e a prisão no horizonte?”
“Não seja simplista: este temor de curto prazo deve existir, mas é temperado pelo deboche, pelo prazer de paralisar pela raiva que provocam. Como o ódio não se concentra em disposição de luta para além de impeachment ou prisões, ele faz mal apenas aos que odeiam subjugados pela impotência. Imagino as gargalhadas, ponteadas por arrotos: ‘Eles estão putos, mas é assim mesmo – podem pouco contra a gente. Qualquer coisa viro Ministro ou representante de qualquer coisa deste Governo, e mesmo se condenado, minha idade não me deixa ter medo de prisão. Os blogs governistas ferrando esta cambada de coxinhas, sem qualquer resposta, e o povo vai ficar, no fim das contas, do lado de quem, hein? É isso aí, sabe, e quem não gostar que vá…’ E contam com os prazos da História, os que realmente importam: anos, décadas…”

“Você, Pawwlow, imaginou bem o deboche deles, parece que divertido com isto tudo – os palavrões, as bravatas…”
“Não divertido, mas fascinado com o espetáculo do grotesco como arma de ação política. Por muito tempo, isto foi utilizado só por eles, e as máscaras não mais se fixarão sobre estes rostos; além de Lula, ministros e mesmo a Presidente foram expostos como nunca o foram. Não julgar moralmente e extrair destas revelações os instrumentos para o conhecimento do adversário é o que se espera desta Oposição. Este tesouro (esta safra de áudios) poderá, se utilizado com sabedoria, ser mais útil que muita retórica moralistoide,que não tem funcionado. Ou funcionará como letal arma aterrorizante, que pode vencer pela prostração. Tudo depende da disposição de enfrentar tabus, e do realismo político.”

Enfrentamento de tabus e realismo político que não têm sido praticados – e o meu amigo desligou o telefone alegando cansaço.

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