“Notas” – 25/03/2016

Chico Buarque cassa espetáculo – e este blog apoia

Chico Buarque cassa o espetáculo com músicas suas, devido ao pronunciamento antiGoverno do ator e diretor Claudio Botelho. Não é seu direito, defender sua obra do que considera uso impróprio? Seria democrático obrigar o autor a aceitar sem protestos uso de suas criações em espetáculo convertido em comício de Oposição?

Ninguém, mas ninguém, tem o direito de se espantar com o petismo de Chico Buarque; sua ligação com o PT é notória, desde pelo menos 1989, quando abriu sua casa para encontros com Lula e grande elenco (também recebeu Leonel Brizola e seguidores, mas sem o mesmo entusiasmo). Cantou na campanha – tanto nos jingles televisivos, como (se não me engano) nos palanques e participou de atos de protesto na frente da TV Globo, com artistas da casa (que não perderam o emprego, falando nisso). Lembro de partidas de futebol com Lula na mesma ocasião.

Vinha de anos de simpatia pública pela Esquerda, sobretudo em sua versão cubana; conciliava sua luta pela liberdade de expressão durante a Ditadura (que o atingiu em canções e espetáculos teatrais) com o apoio ao regime de Fidel Castro. Repito: todos sabem quem é Chico Buarque e o que entende por democracia.

Isto não impede admiração por seu trabalho, e discutir seu talento me parece comportamento de Direitista de chanchada (hoje no Brasil isto é pleonasmo). Carlos Lacerda, no “Depoimento”, declarou gostar da música de Chico Buarque e não de sua pessoa, que Lacerda julgava incoerente com o que cantava. O grande jornalista e político não misturava as coisas, e estava certo. Há que distinguir para combater, e hoje como parece não haver distinção de esferas, o combate é ineficaz, e muitas vezes, suicida.

Porém (e “sempre tem um Porém”, como dizia Plínio Marcos, e como sempre diz Paulo Mayr, citando Plínio Marcos) uma coisa é curtir Chico Buarque a despeito de discordar de suas posições políticas e mesmo desgostar de sua figura, outra é homenageá-lo quando, em momento crítico, a homenagem torna-se discutível, a quem se mostra contrário de maneira inconciliável, com sua (do Chico Buarque) posição política. Em um momento como este, em que somos, todos os oposicionistas, qualificados como “golpistas”, “coxinhas”, “fascistas”, homenagear um ícone da situação que nos trata assim é, no mínimo, inconsequência.

Caso falte consciência do nosso lado, eles, os oponentes, têm-na de sobra. Como fizeram com Wilson Simonal, fazem agora com Lobão, e quase toda a classe artística se recolhe, na confirmação da covardia como traço fundamental do caráter das hordas. Conheço intelectuais que também escolhem muito bem quem podem, não digo elogiar, mas se abster de atacar.

“Na guerra, se conhece quem é quem”, dizia minha avó, que presenciou na sua Polônia a Segunda Guerra, e a posterior anexação de seu país pelos soviéticos.

Que não se escolha gente ligada ao atual Governo para homenagens!

O Brasil é repleto de gente talentosa, deste e de outros tempos. Há fartura de material para musicais, de autores do passado e do presente; muitos até poderiam (podem mesmo, entre os vivos) ser simpáticos ao Governo vivos e atuantes fossem, mas escolher um nome tão  associado ao petismo para homenagens e usar do espetáculo para protestar contra o petismo (sobretudo em BH, grande centro nervoso do petismo, onde usar barbinha bem aparada e gritar com voz afeminada “Não Vai Ter Golpe!!!” garante empregos e posições) é pedir para ser linchado. Pois almas sensíveis como as descritas atendem ao pedido, com presteza.

O desfecho deste episódio foi grotesco, coerente com o episódio inteiro: Claudio Botelho se retratou  ao alvo de sua homenagem, quando deveria ter, se estava mesmo indignado com o Governo, ter cessado, ao menos por enquanto, sua homenagem- sem esperar que Chico Buarque tomasse a iniciativa de fazê-lo.

Isto me lembra a lista de boicote proposta pelo Rodrigo Constantino, e republicada por Lobão: sou favorável ao boicote daqueles nomes; não ler seus textos, não comprar seus discos (também seus livros), não acessar seus canais no “YouTube”, trocar o canal da TV quando apareçam. Sou contra as propostas que julgo funcionar como instrumentos a favor destes nomes, como “vaias, olhares hostis e até xingamentos”, que Constantino qualifica como “desprezo público”. Desprezo é desprezo; é ignorá-los, negar-lhes um olhar, quanto mais um insulto. Negar-lhes plateia é mais que o bastante.

Muitos confundem atitudes; acreditam que continuar na plateia sob os escarros desta gente é ser altivo, superior, é “responder a intolerância com tolerância”, entre outras tolices.

Não, é fazer papel de otário na beira do cais, apenas isto. Há dois campos nítidos, e foram eles, os governistas, quem os demarcaram. Quem não consegue perceber isto é, no mínimo, estúpido, e estupidez se cura com tratamento de choque.

O ato de Chico Buarque foi justo, e foi pouco.

Rolling Stones em Cuba- ainda cortam

Os Rolling Stones resolveram encerrar a turnê latino-americana na Cuba que ensaia diálogo com os Estados Unidos. Evento já histórico, o grupo libertário superando tabu de décadas.

Não, Raúl Castro não acenou com qualquer abertura, e acredito que Barack Obama não é ingênuo, ou traidor de seu país. Deve ter chegado à conclusão de que o embargo norte-americano foi até agora ineficaz como instrumento de derrubada do regime cubano, e que retirar deste regime a mítica do martírio econômico é iniciativa letal.

Sempre bom confirmar o cinismo de Raul Castro que invoca exemplos de outros países que não são modelos de obediência aos direitos humanos, como se isto justificasse as mazelas do regime do seu país. Ele está confessando não seguir, e não acredito que o faça por tolo, é por cinismo mesmo, a velha arma de prostrar pelo deboche.

Qualquer sanção que atingir Cuba doravante será mais eficaz, pois precedida de ato de boa vontade. Penso mesmo que comprar petróleo da Venezuela ajudou a desmoralizar o regime “bolivariano”; a desculpa do país estar sitiado economicamente nunca pôde ser apresentada.

Há que agir com a frieza que sempre foi um atributo dos governantes autoritários, o emocionalismo nunca conseguiu muito com cínicos e psicopatas.

Os Rolling Stones jogam o jogo da liberdade, conectam-se com a juventude cubana, ansiosa por novos padrões de convivência em seu país; querem continuar cubanos, orgulhoso da Revolução, mas sem a vigilância de um Estado onipresente, dando expediente nos quarteirões, com seus efetivos de dedos-duros.

Os Stones, com sua celebração da alegria, do deboche e do sexo são como combustível para estes jovens cubanos, tão necessitados de oxigênio. Funcionam como arma política marcuseana, e contra esta arma, este regime pode muito pouco. Alguém ainda tem dúvida da importância deste grupo para arte e a política? Alguém acha graça em discutir seu status de “Maior Banda de Rock de Todos os Tempos”?

“Rolling Stones em Cuba”, isto constará dos livros de História.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para “Notas” – 25/03/2016

  1. Caro Pawwlow:

    Agradeço estar cercado de gente tão importante nesse texto e, principalmente, de ter sido lembrado pelo amigo.

    Em tempo, gostei do texto!!!

    Mais uma vez, obrigado

    Abraços

    Paulo Mayr

    • fernandopawlow disse:

      Amigo Mayr,ter a oportunidade de te citar é sempre agradável,você é um dos maiores,para não dizer o maior,amigo deste blog.Você fez-e faz-por estar cercado de ilustre companhia.
      Muito obrigado pela apreciação do texto,
      abraço do Pawwlow

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s