“Notas”- 01/04/2016

… e o Governo saiu às ruas

O PT entende de marketing, e isto era observado por Leonel Brizola em entrevista ao Ferreira Netto na década de ’90. Brizola fez menção aos poemas nos ônibus, em Porto Alegre, gentileza que acompanhava aumento nas passagens.

E assim fazem Política, sempre atentos aos símbolos e aos ânimos; os demais partidos quando não ignoram símbolos (e sua importância na luta política), reduzem-nos aos princípios mais rotineiros de marketing eleitoral; O PMDB e o PSDB são opacos ou difusos na comunicação com as massas enquanto o PT opera com emoções das massas; encenou, através de filiados, simpatizantes e associados, no aniversário de cinquenta e dois anos do Golpe de 1964, sua reação ao “Golpe”.

A Oposição ainda está tateando o chão das ruas, território que o PT desenha o mapa de olhos fechados. Vejamos a escolha dos logradouros: enquanto a Oposição escolhe para suas concentrações, avenidas e praças localizadas em áreas nobres, o PT prefere áreas centrais, nas quais a categorização dos manifestantes segundo extratos sociais é problemática, pois o centro é, ao menos em teoria, “chão de todos”.

Rir da manifestação carioca -“Não é exatamente proeza lotar o Largo da Carioca”, “encontro de múmias e jovens querendo tetas”- não ajuda a esquecer que aquela pequena massa de sindicalistas reúne gente que pode, pelos postos que ocupa, causar estragos notáveis. Assim nas outras cidades, a multidão de estudantes profissionais, sindicalistas e professores detém poder maior que milhões de cidadãos bem-intencionados, sem qualquer articulação e sem poder de pressão dentro da máquina.

A manifestação paulistana me pareceu conclusiva, nela havia enorme contingente de camisas vermelhas, mas também não uniformizados que pareciam integrantes do que se entende como “povão”, em um lugar mais  mais popular que a Av.Paulista, e isto faz total diferença em termos de propaganda, e disto, nunca demais repetir, o PT entende.

Ainda que se saiba enganoso o argumento governista que procura estabelecer nexo entre classes sociais e etnia e posições pró e contra o Governo, a propaganda governamental funciona quando a imprensa divulga imagens das manifestações oposicionistas – maioria de brancos que qualquer um identifica como eleitores do PSDB muito mais que populares insatisfeitos. Os negros e pobres presentes ainda são minoria, ou assim parecem ser, pelo que nos chegam em fotos e coberturas das redes de televisão.

Há uma falha no que se entende por Oposição: sua incapacidade em estabelecer conexões com os setores populares que nunca foram seduzidos pelo petismo (e os há) ou que vêm se desiludindo pelo não-cumprimento das promessas de campanha, por terem enfim percebido que não há como se cumprir certas promessas de felicidade sem preço a pagar.

Como se estabeleceria este contato entre quem jamais votou no PT e os que votaram e se confessam decepcionados? Não sei, e não penso que isto (sobretudo em país gigantesco como o Brasil) seria fácil, mas quanto antes a Oposição se compenetrar da importância desta travessia, melhor.

Há uma insatisfação presente na maioria, em todos os setores, em todas as regiões do País, mas ainda difusa, quando há alguma concentração, esta é somente a de corpos físicos em marchas que, embora comoventes, não têm conseguido intimidar o Governo e seus apoiadores.

O que houve logo após a marcha em São Paulo (nomeação de Lula como Min.Chefe da Casa Civil), considerada a maior da História do Brasil demonstra o juízo que o Governo faz destes eventos; prova que consideram mesmo estas marchas, “encontros de coxinhas”.

Mas os formadores de opinião, que mesmo por falta de lideranças orgânicas (que representem setores de força concreta) acabam por servir de guia a muitos dos que sofrem este Governo, não dão mostras de aprender com estes resultados, pois comemoram números de marchas descuidados da nenhuma consequência prática destas demonstrações de insatisfação. Haverá dia em que dosarão o entusiasmo medindo-o com êxitos concretos?

O que noto nestas marchas é que não há preocupação (na verdade, nem noção do fenômeno há) com o “Pós-PT”; a ilusão de que, deposta Dilma, não importa se por cassação ou impeachment, o Brasil voltará ao que era em 2002, predomina. A multidão de funcionários públicos petistas, ou simpatizantes continuará, e não aceitará o Brasil sob governo de outras forças depois que experimentaram as delícias de jogar no time vencedor.

Como disse acima, há uma multidão de descontentes que ainda não saiu às ruas, e que pode ser o fator decisivo nesta guerra. Mas não é raro encontrar nos manifestantes com camisetas da CBF e leitores devotos de “Veja” quem zombe de algumas demandas, como a do transporte público mais acessível. A convicção de que “o Estado não pode ser babá de incompetentes” e que, portanto, “quem não consegue pagar passagem que more perto do trabalho” é encontradiça nas caixas de comentários dos órgãos de imprensa de oposição, e assim estes setores da massa continuam vulneráveis à ação dos demagogos que anexaram queixas do tipo aos seus “movimentos sociais”.

Os governistas que saíram às ruas podem ser acusados do que quer que se queira, mas não de não saber por que marcham. Além da devoção que ainda subsiste em muitos, há contingentes de beneficiários de programas assistenciais e militantes empregados na máquina estatal. Mais artistas amigos do Governo, aspirantes a artistas amigos do Governo e gente que deseja estar e/ou continuar perto desta gente do setor de artes e espetáculos.

Não acredito que apreciem, de fato, o governo de Dilma Rousseff, aversão aos tucanos ou ao que entendem ser a Direita me parece ser o sentimento dominante. E afinidades negativas costumam funcionar como fator de agregação mais que as positivas. Observem a desunião do que se intitula Oposição ou Direita e concluam …

O sucesso do ponto de vista propagandístico destas marchas a favor me parece indiscutível, pois muitos da massa contrária ao Governo não acreditavam que Governo que lhes parece agonizante pudesse ter gente disposta a marchar. Como pensam sem esforço projetivo algum, davam a situação encerrada após a divulgação das gravações, os números de impopularidade, etc, etc

Mas não é assim: há valores, para quem é devoto, ou tem algo a perder, que transcendem o senso comum – ressentimento com o que julgam ser ações de campos retrógrados, romantismo (que nunca morre), sentimento de inclusão em algo maior que “questõezinhas administrativas”;  percebem a História como processo em gravidez perpétua, e portanto, não há argumento decisivo, nem se apresentado como escândalo.

Repito uma vez mais: sem o esforço de agregar a massa de descontentes que se encontram sem conexão, e que são milhões hoje no Brasil, e sem autocrítica e estudo da política, as marchas da Oposição se confirmarão como “convenções de coxinhas”, enquanto o Governo promoverá marchas mais e mais volumosas e animadas; a prostração oposicionista não tardará, e ainda que venha o fim do Governo Dilma, o PT continuará vencedor.

Esta série de eventos em data símbolo foi uma lição de Política;  quantos oposicionistas a aproveitarão?

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