“Notas”- 03/04/2016

FHC em “Diálogo” com Mario Sergio Conti

A edição mais recente do programa “Diálogos com Mario Sergio Conti”  no “GloboNews” trouxe o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e me obriguei a assistir.

Tenho evitado assistir o programa (embora tenha visto o de José Serra), como não venho lendo os artigos recentes de Conti. O que escreveu recentemente para a “Folha de S.Paulo” defendendo que Dilma Rousseff está sendo alvo de perseguição machista e reacionária não consegui ler até o fim. Não por ideologia  (recuso o lixo produzido por fatia expressiva da imprensa de Oposição por não ter paciência com quem insiste em ver tolos onde há gente hábil, bem treinada, e por não ter facilidade em ler textos mal escritos, pomposos e ralos), mas pela argumentação de frequentador de passeata secundarista pró-Governo. Os mesmos clichês, os mesmos apelos emocionais, etc.

Conti utilizou com FHC a mesma argumentação que sacou do colete com Serra: não há elementos para o impeachment; o processo estaria maculado por ser conduzido por um investigado, etc,etc,etc.

Nada estranho a quem leia imprensa governista, ou pior, o que é encontradiço nas caixas de comentários desta imprensa a favor. A resposta de FHC foi semelhante à de Serra, pois qualquer um que não tenha o cérebro comprometido com a defesa deste Governo responderá que quem conduz o processo de impeachment não é o Político X ou o Político Y, e sim o cargo. Acrescento que ainda que fosse um político inatacável do ponto de vista moral, seria atacado pelos governistas por “comprometido ideologicamente”, ou por “ser aliado notório do PSDB”, entre qualquer um dos lugares-comuns em circulação. Pela lógica de Conti, o processo só seria válido se estivesse sob comando de um santo, em linha de pensamento que, se observada para crimes comuns, mandaria soltar muitos presos, pois quem garante que o Juiz A, ou o Promotor B sejam honestos ou corruptos? Uma lógica adolescente para consumo de gente pré – disposta apenas, o menor senso crítico manda desligar os canais de atenção à oratória do tipo.

A conversa ia neste banho-maria, ambos enunciando obviedades  (menos por culpa de FHC que seguia o ritmo imposto pelo entrevistador), até que o Presidente de Honra do PSDB lembrou da necessidade de não sermos passionais, de “não querer que o PT deixe de existir” (cito de memória).

Onde ele tem lido gente declarando ódio homicida ao PT fora de redes sociais que abrigam idiotas simplistas? Quem, na imprensa ou em fóruns sérios de discussão, recomenda “fechar o PT”?   No máximo, recomenda-se investigar o partido, averiguar denúncias de atividades ilegais, e com base na investigação, cassar o registro. Isto é diferente de “querer acabar com um partido”. Uma investigação criteriosa pode punir, ou não, e por tempo determinado.

Quem certa vez defendeu fechamento de um partido, o DEM, foi Lula. Quem defende que partidos de Oposição e imprensa também oposicionista formam mistura nociva para a “democracia verdadeira” são os governistas. Pois que FHC advogue tolerância a estes democratas que o atacam dia depois de dia, falando nisso.

Mas o pior ficou reservado para o final do programa: o ex- Presidente recomendou o caminho do avanço nas questões comportamentais como o caminho a seguir, para que o PSDB se renove, “nunca retroceder” nas questões de sexualidade e drogas. Quem discorda que partido de Esquerda ou Centro-Esquerda deve se preocupar com assuntos pertinentes às liberdades civis?

O problema é que FHC recomenda o aprofundamento na “Política das minorias”, uma importação americana (ele parece acreditar ser um membro do Partido Democrata americano) no lugar da busca de um modelo nosso, integrador.

FHC parece ignorar que a política que lhe parece garantir lugar no futuro para o PSDB já tem seus executores em outros partidos. O “Movimento Negro” foi quase que  anexado pelo PC do B, as causas LGBT idem pelo PSOL, e ambos setores por parcela não pequena do PT.

Conti parece (não o conheço, apenas suponho) ter reencontrado, na volta a São Paulo, algo de seus dias de militante juvenil e o que produz agora não pode ser comparado ao que produziu no passado, passado até recente, na “piauí”.

FHC exibe preocupante alheamento do que corre na vida política brasileira, perdido nas fantasias de uma Esquerda de país rico.

Vi ali um francófilo e um americanófilo dialogando suas fantasias, um acreditando-se em um café na Rive Gauche, outro em um “Think Tank” em Manhattan, numa demonstração do desejo de distância do Brasil.

Sandro Vaia, a partida de um amigo que nunca encontrei

O nome, Sandro Vaia, me transportava à década de ’80, quando o lia no expediente da revista “Afinal”, que um tio assinava.

Depois só vim a ler seu nome como autor de um denso relato sobre os dias em que dirigiu “O Estado de S.Paulo”, “Detrás das Dunas do Estadão”, publicado na”piauí”.

Desde então, passei a acompanhar seus artigos, publicados no blog do jornalista Ricardo Noblat, n”O Globo” e suas tiradas, sempre engraçadas e certeiras no twitter.

Neste tempo, abri conta no “Facebook” por insistência do Renzo Mora e vejo como amigo comum o ex-diretor de “Afinal”, da “Agência Estado”, e do “Estadão”, e minha leitura das sextas-feiras, Sandro Vaia.

Não me animei a buscar contato, e talvez nunca teríamos trocado palavra se, por esta ocasião, eu não tivesse conhecido uma fanpage dedicada ao jornalista Tarso de Castro. O responsável, jovem estudante de Comunicação, não postava textos do Tarso, por não os ter e não saber com quem poderia obtê-los, e resolvi bater à porta da conta do ex-diretor da revista na qual descobri, adolescente, o Tarso, ”Afinal”. O ex-diretor da saudosa revista não tinha os números da publicação, mas se mostrou solícito e gentil.

O que seria, dias depois, mensagem privada de agradecimento e comunicação de desistência de encontrar textos, converteu-se na primeira de inúmeras mensagens diárias inbox e conversas, também diárias, por email, sobre política, personalidades, futebol e jornalismo. Sobretudo jornalismo.

Foram meses em que conversávamos, na base de cartas eletrônicas, algumas extensas, até nos domingos. Guardei todas. Neste último ano houve afastamento, ele não me disse estar doente. Pretextou motivo qualquer, e pouco nos comunicávamos; meu expediente para manter a conversa era releras cartas, e rir.

O Vaia das correspondências era o mesmo dos textos: inventivo, rigoroso, sarcástico, ferino, preciso na adjetivação e cinematográfico nas descrições de lugares, ambientes, épocas e tipos.  Ah, os tipos que conheceu… ah, sua paciência para minhas perguntas de deslumbrado sobre o Tarso, Ruy Mesquita, seus colegas do “Jornal da Tarde”, a redação do “JT”, a mudança da Major Quedinho para a Marginal, a aventura de “Afinal”, seus esforços na “AE”…

Morreu nos devendo um livro de memórias que seria, tenho certeza, tão obrigatório nas escolas de jornalismo como “A Regra do Jogo” do Claudio Abramo e “Notícias do Planalto” do Mario Sergio Conti. Era um baú de memórias de um período de ouro, das redações que reuniam gênios jornalísticos. A verve destas suas recordações prometia uma obra saborosa, e lamento que tenha morrido levando este livro para a Editora do Além.

Me deu muitas dicas para o blog, algumas eu demorava, como um estúpido, a seguir, tratando com criminoso pouco caso, aulas dadas por um dos grandes do jornalismo; um verdadeiro verbete da enciclopédia do jornalismo brasileiro.

Fazia perguntas que demonstravam interesse sobre esta ou aquela motivação minha em determinado texto do blog. Isto me era revelador de seu interesse, e eu me sentia muito honrado. Divergíamos em questões menores, e pensávamos de maneira próxima sobre política e jornalismo.

Nossa irritação contra a má administração que fechou jornais importantes, o Poder em mãos despreparadas e desinteressadas, o esquerdismo fácil das redações de hoje, a injustiça dos nomes talentosos esquecidos, enfim, contra o que vem matando o jornalismo muito mais que a internet.

Certa vez, perguntou-me sobre o “Professor X”, que estava promovendo encontro sobre jornalismo aqui em Belo Horizonte. Respondi que não o conhecia, porém conhecia o tipo de reunião que se faz com professores de jornalismo e alunos igualmente encharcados de petismo, que não perderiam oportunidade de incomodar com perguntas cretinas e mal formuladas, repetindo cacoetes do jornalismo governista um jornalista rotulado como “direitista” e “reacionário”. Procurei dissuadi-lo, alertando-o para o risco dele ter um enfarte logo na chegada a São Paulo, por irritação. No dia seguinte, me respondeu que não viria; fora informado de um participante do encontro que confirmava minhas previsões. Fiquei feliz, queria conhecê-lo pessoalmente, abraçá-lo, mas não numa situação desta natureza.

Não haveria outra oportunidade e não haverá.

Relerei, quando estiver mais forte, as cartas que muito me divertiram, e ensinaram.

Ainda não estou triste, soube no Domingo, por acaso; corri ao twitter do Renzo Mora, e nosso amigo comum lamentava a perda.

Estou ainda suspenso pelo colarinho, sentirei tristeza um dia.

Talvez num dia de eleição presidencial, como o do Primeiro Turno desta última, quando ele me perguntou por email sobre os ânimos da minha zona eleitoral.

Talvez numa fisgada trazida por leitura de um texto sobre ele, ou sobre grandes jornalistas de um tempo exigente, no qual muitos dos “nomes” de hoje seriam no máximo aspirantes a coadjuvantes, não ousariam se fazer notar.

Hoje estou apenas surpreso, apanhado por uma notícia ruim, num sopetão desrespeitoso.
R.I.P

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