“Notas”- 15/04/2016

Sobre o eleitorado carioca

Leitor e amigo do blog me enviou email protestando contra o que achou “injusto” com os eleitores do Rio de Janeiro em meu último post. Eu teria “generalizado”e, de fato, generalizei. Não acho grave generalizar, acho grave “totalizar”. Escrevesse que todos os eleitores cariocas (e gaúchos) escolhem mal, estaria sendo exagerado e simplista. Pego pela média do que mandaram para o Congresso e me desaponto, apenas. Quem me conhece sabe o quanto admiro estes dois irmãos de Brasil.

Acredito que os setores esclarecidos dos dois estados não se organizam como os setores interessados na luta partidária, ou levianos que votam inspirados por simpatias pessoais. Setores que votam em um candidato por este representar os homossexuais ou sindicatos tendem a concentrar esforços, e os que votam atentos às questões nacionais acabam por votar num conhecido próximo que julgam sério, e assim dividem os votos, não apenas do conservadorismo, mas também de liberais e mesmo de setores da Esquerda mais sérios. Nós outros não nos organizamos, este o fato. E nestes dois estados, candidatos de setores específicos têm seus eleitorados mais organizados, outro fato. Sabem se promover e concentrar as baterias eleitorais mais que em outros lugares, onde seus camaradas de convicção são candidatos de guetos e panelinhas.

Também observo no Rio de Janeiro certo “mauricismo” em setores conservadores e liberais que, de fato, facilita a vida dos setores esquerdistas de roda de samba e/ou sindicatos, ONGs, e grande elenco. A massa não sente por estes jovens senhores de terno e gravata qualquer identificação, e estes bem intencionados não fazem esforço algum que não o de argumentar racionalmente com a massa, passional (ia escrever “cordial”, mas Sérgio Buarque de Holanda continua incompreendido por muitos) e indiferente ao vocabulário tecnocrático destes explicadores de terno e gravata.

As concentrações de Esquerda no Rio de Janeiro (como a recente, na Lapa, que contou com Chico Buarque no palanque), embora ruidosas e impressionantes pela animação compacta, não concentram mais que os setores citados parágrafos acima, em uma população de alguns milhões.

Amo o Rio de Janeiro, e serei o último a tratar com má vontade seu povo guerreiro e alegre. Devia ao amigo e aos que me visitam estas considerações.

Roberto Jefferson no “Roda Viva”

Falando em eleitorado carioca, um de seus escolhidos em outros tempos, o sempre combativo e eloquente Roberto Jefferson foi o astro da edição mais recente do “Roda Viva” nesta Segunda-Feira, 11 de Abril.

Assisti no “YouTube” por não contar com a TV Cultura no pacote de TV a cabo e pela TVE não mais o transmitir. E acabei por assistir (por disponíveis no canal) as passagens do político pelo programa em edições anteriores.

Foi, esta última, ao meu ver, a mais fraca. Os entrevistadores não souberam extrair dele o que os outros entrevistadores conseguiram nas vezes anteriores, 2005 e 2006.

Talvez aquelas ocasiões o tivessem mais tenso e aguerrido, por estar ainda lutando – por sua liberdade (embora admitindo sua culpa) e pelo desmascaramento total do PT.  A entrevista recente trouxe Roberto Jefferson confirmado pelos fatos, e talvez mais temperado pelo sofrimento e superação (do câncer e de seus problemas com a Justiça). A postura que se alternava entre defensiva e frontal, nas duas entrevistas anteriores, deu lugar ao sorriso e ao relaxamento. Embora mais velho, remoçado, pronto para mais tantas brigas.

Jefferson me parece subaproveitado como analista político. Buscam suas frases de efeito e suas declarações que garantam manchetes, quando deveriam colher suas descrições e análises de situações e tipos colecionados em décadas de exercício da política. Foi um governista que manteve personalidade marcante, o que impressiona. Nunca na Oposição, desde que se elegeu no início da década de ’80, projetado pelo sucesso no programa “O Povo na TV”,  mas também nunca mais um, na multidão do Congresso. Quando rompeu com o governismo no Governo Lula, quase colocou a casa abaixo, com as denúncias do “Mensalão”. Ele não exagera sua importância quando se atribui o mérito de ter impedido a “Presidência José Dirceu”- sem o “Mensalão”, quem duvida que ela viria, letal para o Brasil?

Eu, editor de “Veja” ou de qualquer órgão, contrataria -o como colunista, sem discutir preço. Idem se dono de emissora, tendo-o por comentarista, quem não apostaria no sucesso certo? Nos Estados Unidos, as propostas seriam obsessivas, uma ”Fox” não sossegaria até tê-lo nos quadros..no Brasil…

O que imagina para Eduardo Cunha – o descarte após os trabalhos na Câmara para colocar fim ao desastre Dilma Rousseff – me parece provável, idem a identificação, no mesmo personagem, do adversário mais intransponível já surgido para Lula.

O que me pareceu falho nas suas análises é o erro que tantos outros cometem – tomar Lula e sua turma como larápios demagogos sem ideologia. Este subestimar de um movimento que continuará encastelado em diversas instâncias de Poder ainda que o governo do PT desabe me parece temerário. Estas fantasias de triunfo ao alcance de um passo nunca terminam bem.

O que tornou a entrevista rala foi o fato que pouco se provocou do líder fluminense. O único oponente – o cientista político de uma única canção no repertório (“O PT não é o pai de tudo… Sem o PT os problemas continuarão” sucesso em mil entre mil governistas) – não mereceu senão respostas de enumeração de dados que exibem o PT superando antecessores nas mazelas. Os demais entrevistadores, elogios, dúvidas respeitosas, risos…

Bonita a superação, por parte de Augusto Nunes, de antigas ofensas, o júbilo do jornalista com o triunfo de Jefferson sobre a doença e preocupações com a liberdade, me soou autêntico, emotivo. Lutaram, nos últimos anos, na mesma trincheira, contra adversário temível. Se ambos parecem ingênuos tomando-o como morto, não importa. Combateram com todo o fôlego, com as armas que tiveram – espero que os telespectadores tenham absorvido esta nota histórica: dois antigos adversários, que o Destino do Brasil tornou aliados, em encontro já histórico. A TV ainda traz estes tesouros aos mais acordados.

Jefferson está certo – e deveria ser seguido por mais líderes experientes e sábios- em não mais disputar eleições, concentrando esforços na direção partidária, orientando o seu PTB. O Poder não se exerce apenas em cargos, mas na ação constante nos bastidores, nos Institutos e Conselhos.

Penso que até mais, pois o político pode agir sem preocupações em arrecadar recursos e se desgastar em campanhas, podendo influenciar atores mais jovens, na luta política – que, repito, corre muito nos bastidores, nas instâncias mais orgânicas.

Quem duvida que para Roberto Jefferson a brincadeira está apenas começando, que ele ainda será tema de muita reportagem, tópico de muita discussão?

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