“Notas”- 16/04/2016

Notas às vésperas da votação do Impeachment

 

Helio Fernandes se confirma como Mestre do Jornalismo

Goste-se ou não do mais antigo jornalista em atividade no Brasil  (talvez do Mundo), ele é leitura à qual se deve recorrer dia depois de dia a quem se interessa por política. Acredito que muitos dos jornalistas que não o citam, que fingem acreditar que ele não exista ou esteja aposentado, leiam sua coluna anotando. Ter Helio Fernandes vivo e atuante é um dos tesouros do Brasil. Este blog cita-o muitas vezes por isto: por saber do evento que é cada nova coluna desta lenda do Jornalismo.

HF vem analisando a crise: sua opinião sobre o impeachment da Presidente Dilma Rousseff é, desde o princípio, inequívoca: é contra, não por apreciar seu estilo e seu (vá lá…) governo, mas por considerar a possibilidade Michel Temer inaceitável: que se façam novas eleições, com regras claras sobre financiamento, candidaturas partidárias obrigatórias.

Tem sido nisto de coerência inegável: tem escrito sobre a necessidade destas mudanças na política há anos.

Não concordo em tudo: penso que ainda que seja uma saída desonrosa, o impeachment é para os indignados, um começo. Que pode ficar só neste começo, ou pode florescer como mudanças que sejam duradouras e profundas. Mas neste momento é inadiável, pois temos uma presidente que usa palácio como palanque no qual dirige ameaças à oposição. Quem acompanha meu blog sabe que era também contrário ao impeachment: que este Governo fosse se desintegrando de podre até 2018, até lá o País que desse um jeito de evoluir e buscar outros caminhos. Mas fatos recentes mostram a urgência da remoção de Dilma Rousseff do cargo.

Não posso manter a mesma posição por capricho, e não digo que HF esteja sendo caprichoso, entendo sua posição. E respeito.

Não lembro erros clamorosos de previsão dele, e acompanho seu trabalho desde a década de ’80. HF nega possuir bola de cristal, diz que sua experiência de repórter (cobre política desde a década de ’40, cobriu a Constituinte de ’48) e suas boas fontes fazem-no acertar com frequência.

Desta vez, porém, eu me arrepiei.

HF há dias vem lembrando aos colegas jornalistas que se está fazendo a conta errada dos votos: contam os votos do Governo, o qual não precisa tanto se preocupar, quando deveriam contar os votos da Oposição, esta que precisa de 342 votos. Previu que o pulo do gato se daria com as abstenções.

E tem sido esta a fonte de algum alívio para o Governo.

Helio Fernandes também está atento ás oscilações e não tem arriscado palpite sobre o resultado. Tudo é incerto, os dois lados fazem promessas aos eleitores de amanhã.

Helio Fernandes soltou hoje já duas edições eletrônicas, e soltará terceira.
Recomendo com veemência.

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Sonífero poderoso

Quem consegue ficar acordado ouvindo oradores sem brilho, repetindo clichês e palavras de ordem? Frases que, iniciadas, delas adivinha-se o restante?

Com algumas exceções, tem sido um suplício acompanhar todos os oradores, como disse Helio Fernandes, ”discursos vagos e vazios, principalmente de convicções”.

Falta ao lado governista algo que não seja clichê, que não seja mera repetição dos cartazes das manifestações a favor do Governo. Repetir como mantra “Impeachment sem crime de responsabilidade é Golpe”, “Eduardo Cunha não pode ser vice”, “Querem o retrocesso”, não convencerá qualquer indeciso. Estes refrões são para consumo interno, para animar uma militância que nem precisa destes números de auto-hipnose para sair às ruas. São cantigas que ninguém mais tolera ouvir, parece que insistem por sadismo.

Aos oposicionistas, falta haver mais gente como Carlos Sampaio, o tribuno de São Paulo. Alguém que se declare enojado pelo cinismo das desculpas esfarrapadas, pelas manifestações de desprezo pelas inteligências.

Apenas repetir que “quebraram a Petrobrás”, que “querem implantar o bolivarianismo”, e demais exteriorizações compreensíveis e tocantes de indignação não resolve muito agora. Há que se mostrar determinação de lutar ainda que o impeachment não seja aprovado, e de mostrar determinação ainda maior de luta se ele o for. Não há espaço para diálogos “de coração para coração” com oponentes que desejam separar a cabeça do adversário do corpo.

Há falta de dramaticidade para o momento, em suma. E sem dramaticidade, haja cafeína.

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“Para o que der e vier…”

Não arrisco palpite.
Como disse na nota dedicada ao mestre Helio Fernandes, nem era muito entusiasta deste impeachment até há poucos dias. Temo ainda que tudo volte à placidez tumular após este Domingo já histórico seja qual for o resultado.

Há que temer (sem trocadilhos, He He) gritos de vitória que serão dados em páginas impressas ou eletrônicas: “Vencemos os bandidos que acreditaram poder encurralar homens de bem”, “E o Neurônio Solitário voltou para a insignificância da qual nunca deveria ter saído”, entre outros produtos da mesma linha de montagem. Sobram analistas políticos que não percebem que há muito ainda para vencer antes de se encomendar caixinhas de traque na esquina. A ousadia dos que ameaçam poderes da República, que transformam o Congresso numa arquibancada de futebol de campeonato da Terceira Divisão e que, sobretudo e mais grave, incentivam com dinheiro público imprensa governista que aplaude e ecoa ameaças deveria bastar aos observadores como argumento que proíbe qualquer comemoração.

No meu blog continuarei sóbrio, de olhos sobre classe política que comete suicídio que sacrifica a todos nós, cidadãos indefesos.

Mais atento ainda aos que negligenciam suas obrigações de ocupantes do clero cultural e que barateiam a importância do trabalho que desempenham ou deveriam desempenhar de formadores de opinião.

Amanhã será o começo de algo que exigirá de nós todos muito mais do que imaginávamos antes deste pesadelo começar.

Pois apenas tolos patológicos acreditam que pessoas que desfrutam, por estarem no Poder, de oportunidades e luxos que lhes seriam inacessíveis caso tivessem que se haver somente com o que dispõem de inteligência e talento, largarão o osso sem lutar muito.

Eles provaram nestes últimos dias que estão dispostos a perder a vida, mas não o Poder.

 

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