“Notas” – 23/04/2016

23 de Abril, Dia de Jorge

Esta data, o Vinte e Três de Abril, me é tão íntima quanto a data do meu aniversário. Minha memória mais antiga de contemplação da imagem de São Jorge vem dos meus sete anos de idade, em Uberaba. Uma senhora que criava crianças em sua casa tinha, iluminada por lamparina vermelha, o Santo Guerreiro, e me perdia nesta fixação quando visitava este abrigo na companhia de meus pais.

Há na simbologia de Jorge algo que fala aos povos que experimentaram em sua História toda sorte de convulsões e provas do Destino: países como Líbano, Rússia, Inglaterra, Polônia. Aos brasileiros, sovados por rebaixamentos cotidianos, Jorge também comunica sua força.

Mas mesmo Jorge não pode auxiliar quem não se dispõe a enfrentar seu Dragão. Quando se prefere negá-lo a lutar contra o Mal, quando se trapaceia com avaliações de perigo qualquer pedido de socorro se desintegra na insignificância.

Houve, na História do Brasil, momento como o atual? Onde a Chefe de Estado se mostra disposta a prejudicar o País se este for o modo de se manter no Poder? Amparada por movimentos ditos sociais e pela casta acadêmica, conta agora com a covardia dos que, temendo o confronto com estes setores, mostram-se dispostos a igualar este governo com um substitutivo que, embora falho, não é tão ameaçador. E este reforço de onde acredito que nem mesmo o Governo esperava vir, pode ser o complemento que faltava para sabotar de vez qualquer tentativa de livrar o País dos que provam-se decididos a subjugá-lo. É dragão e tanto, este que surge movido pela vaidade, pelo temor do riso de imbecis. São os “neutros”, que transpiram irresponsabilidade e ignorância sobre o que se pronunciam.

Faz companhia ao dragão do voluntarismo de uma Oposição afoita e pouco disposta ao estudo do adversário. Este dragão o Brasil conhece há umas três eleições: seu sopro influencia os desinformados que acreditam ser esta facção política frágil como outras que não contavam com bases sólidas de apoio. Uma Imprensa que se apresenta como Oposição e que afeta indignação com os poderosos do dia, desde que esta indignação não exija muito estudo – muitos nela torcem para que este momento em que exercem a vigília passe depressa, não tenham que combater por mais tempo. E que não precisem examinar tabus políticos.

Há que se preparar para luta que devore anos de nossas vidas, e é, mais que nunca, preciso ter o senso da dramaticidade: nada de cantar vitórias, encomendar fogos de artifício por pequenas vitórias pontuais, com todo o mais exigindo atenção.Os inimigos não têm a menor pressa, e prepararam-se para lutar pelo resto de suas vidas, e além, pois legando às gerações cultivadas por professores as armas para combater também pelo tempo de suas vidas.

Há quem ria dos bandos que se apresentam como “Levantes” e “Coletivos”, com moleques de classe média (e alguns pobres que percebem na militância ferramenta de alpinismo social) batucando tambores sem ritmo nem melodia, regidos por professorzinhos de barbicha e ar afrescalhado. Ignoram os que riem que muito totalitarismo começou com material humano aparentado com este: presunçosos e mimados que se julgam talhados a “construir a História”. Sempre riem os esnobes, sempre lamentam depois; cada geração de tolos se imagina a primeira, a única. O Dragão da soberba que só deixa a vítima perceber os movimentos mais óbvios da destruição: movimentos armados, que foram precedidos pelos barbudinhos ridículos que pareceram inofensivos.

Há os dragões individuais, e cada qual tem que se haver com o seu; falo do meu, não temo expor minhas contendas com ele: postar em blog desprestigiado, elogiado somente no privado, é desanimador, e o dragão da desistência tenho conseguido enfrentar até aqui. Há o dragão do perfeccionismo que impede postagens mais frequentes, e este tem sido vitorioso até agora. Não se pode subestimar ameaças que surgem fantasiadas de virtudes, de pretextos nobres, quando apenas paralisam e encaminham à prostração.

Há o dragão da indisciplina em muitos dos intelectuais brasileiros, desviados de pontos de concentração pelas atribulações da vida nacional, e mesmo pelos prazeres da mesma vida nacional. A produção de nossos melhores é pequena comparada ao potencial, ao talento.

Os medíocres e mal intencionados parecem mais dispostos, menos cansados, parecem desprezar férias e fins de semana. Parecem ter a noção exata do que têm a perder se deixarem uma porção mínima de espaço vaga, e produzem bastante, embora não seja nada que tenha condições de permanecer, exceto como amostra, para o futuro, do tanto que o Brasil desceu em certo período. Ainda assim, invejo a concentração e a capacidade de trabalho destes operários do governismo, defecam seus elogios ao Governo e insultos aos opositores com disposição elogiável. Tivessem contrapartida em fúria de produzir na Oposição é certo que seriam vencidos, pois vazios de argumentos e dados confiáveis.

Este texto começou como homenagem a Jorge e desviou-se para ataques aos jornalistas de Oposição, do Governismo e bobocas do “centro”, e isto não seria desrespeitar a data e o homenageado? Penso que não, homenageia-se Jorge com rosas, com cantoria (sobretudo acompanhada de amigos em honesta cervejada) e acendendo velas; homenageia-se também combatendo, demonstrando desacordo com covardes, com oportunistas. Mesmo combatendo más tendências internas, também. Jorge é alegria e fúria num só símbolo.

Gostaria de ter comemorado este 23 de Abril no Rio de Janeiro, seguindo as estações, sofrendo a condução lotada com irmãos de fé e terminado os trabalhos contando o tempo que me separaria da próxima homenagem comemorativa. Não quis assim o Destino.

Pedi, aos pés da imagem da Igreja de São Jorge, no Centro do Rio de Janeiro, ano passado, resposta sobre minhas possibilidades de concretizar o sonho, e que me desse a visão nítida do que contava como aliados nesta travessia, e a resposta veio pronta, como todas as que pedi na vida ao Cavaleiro da Capadócia. Respostas inequívocas, bruscas, mas libertadoras da espera e das ilusões sobre oportunidades e amizades.

Portanto, que eu celebre Jorge com meu trabalho, numa comemoração diária através do estudo e do trabalho, no enfrentamento das provas que a vida propõe como preço do viver.

Não é alegre como as procissões do Rio de Janeiro (também em outras cidades pelo Mundo), mas compensadora também. Há que colher alegria no trabalho que parece sem paga, na estrada que se enfrenta sem que consigamos ver companheiro de jornada.

E assim todos os dias são 23 de Abril, Dia de Jorge.

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