“Notas”- 28/04/2016

No deserto da Internet

Escrevi no blog, há alguns anos , texto sobre a necessidade de se criar biblioteca virtual de artigos de jornalistas brasileiros, texto publicado também no “247” e na “Tribuna da Internet”. Poucos leitores se manifestaram, os titulares dos espaços não alimentaram a discussão e a ideia caiu no vazio onde caem ideias sem repercussão.

Faz falta esta biblioteca, este arquivo de textos que serviria como escola para gerações que se expressam de forma miserável; quanto texto começa promissor e traz pelo meio expressões como “mimimi” (abandono o texto assim que encontro esta idiotice)? Quantas ideias poderiam inspirar se escritas fora do padrão?

Vago assim no deserto da internet brasileira: aqui um site de notícias da vida sexual de atores e atrizes, ali um fórum de discussão onde a burrice abafa as poucas manifestações de inteligência, resta o “YouTube” e sites de apelo sexual aos que já cumpriram a obrigação de se informar um mínimo nos portais de notícias (redigidas de modo a afugentar leitores sensíveis), além de alguns perfis de twitter que fazem o leitor oscilar entre o riso pelo humor involuntário e a desolação por assistir o espetáculo de presunçosos opinando sobre assuntos que não compreendem.

Um blog ou outro que nem sempre tem o que mostrar de novo (são como este blogueiro que atualiza duas vezes por semana se tanto) serve como oásis no deserto da internet.

Há, para quem gosta de leituras mais, sites acadêmicos em inglês com textos consagrados, na íntegra ou condensados. Mas como ler certos textos sem cansar a vista? A tela do computador sempre me devolve aos livros por ler em casa, e adio, por esta razão, leituras que sei valiosas.

Acabo sempre no “Acervo Digital” de “Veja” para ler alguns artigos clássicos do Elio Gaspari e páginas também clássicas do Millôr Fernandes.

E isto me faz lembrar a ideia que lancei (em vão?) pois alguns dos textos que julgo importantes foram publicados em revistas já extintas – mas quem com recursos, entre os interessados em Jornalismo, se prontificaria a digitalizá-los, depois, claro, de certificar se poderiam disponibilizá-los?

Trata-se de um trabalho necessário, e que será, pelo visto, empurrado para gerações que talvez desconheçam que há material para a tarefa: seremos, por mais esta razão, país sem memória, com internet vazia de opções de texto.

Claro que há gemas como a “Brasiliana Digital” (escrevi sobre a iniciativa aqui no blog e fiquei triste quando ela se mostrou indisponível por curto período), obrigatória para estudiosos, entre outros sites acadêmicos de qualidade, mas que exigem leitores especializados,e com invejável vista para a tela do computador. Textos jornalísticos ou ensaísticos mais leves não são tão encontradiços, e com esta lacuna não admira que mesmo internautas menos primários gastem tempo considerável da navegação assistindo vídeos ou buscando atualizações sobre vida íntima de celebridades.

Como tenho o que ler em casa, navego “picadinho”- vejo um site, saio da frente do computador, leio um bocado, volto ao computador, assisto algum vídeo, torno a ler, rascunho textos, e lamento o estilo dos meus contemporâneos e a projeção da qual gozam escrevendo suas simplificações em tom grave. Mas penso nos que não têm esta ventura, e que atravessam longas faixas de areia do nivelamento por baixo.

Nivelamento por baixo não admitido por muitos que triunfam neste tempo de aparência pura: maior a pose, maior o número de vezes em que cometem erros primários e substituem descrições por advérbios de modo e, não custa repetir, termos como “modinha” e “mimimi”. Pose e mediocridade que encontram correspondência na disposição de esfregar as costas uns dos outros nas citações mútuas, tratando de condenar quem se expressa melhor que eles (sobre assuntos que leram o mínimo para emitir opiniões que escapem de lugares comuns) ao ostracismo.

Brigo com amigos que poderiam produzir mais e melhor, pois cultos e talentosos. Brigo comigo também por me render ao desânimo derivado do boicote do meu trabalho (boicote que veio de onde não esperava, muitas vezes): que meus amigos e eu próprio esperávamos? Fossem estes sucesso de público (acostumado com pouco, ou resignado) almas generosas começariam por melhorar o que fazem, tratando leitores com mais respeito, não publicando como quem cumpre apenas uma obrigação (qual?) da qual buscam se livrar o mais depressa que conseguem.

Há blogs que foram abandonados por gente que sabe escrever, e não censuro tanto. Como escrevi acima, a pressão à desistência não é de se desprezar. Há outros que parecem escritos por gente de inequívoca boa intenção, mas que precisam melhorar muito para que consigam transformar estas boas intenções em algo mais que servir de temas de piadas. Há, sobretudo, pressa manifesta e arrogância que desanima mesmo qualquer impulso de sugerir. Leio alguns erros de informação que sei que, se eu tentar corrigir, criarei mais inimigos na minha vida. E não tenho mais a ingenuidade de acreditar que conselho meu faça diferença.

Ah, escrevi sobre comentar, muito comentei em blogs e sites, e que ganhei comentando? Ataques de comentaristas que deveriam ser barrados de qualquer espaço, ingratidões (quando não inimizades) e a sensação de agir como um criminoso contra mim, pois trabalhando de graça sem o poder. Hoje comento apenas em blogs de amigos, e amigos não só de minha pessoa, mas de meu trabalho, meu blog. Gente que replica, que cita, que recomenda. No momento, o blog de meu amigo Paulo Mayr é o único no qual passeio com prazer, e busco contribuir com meus comentários. O resto… é o resto.

E a internet se confirma como deserto, não só de opções que acrescentam (quando representam mero escapismo, tantas vezes), mas também de afeto. E caminhar por este deserto todos os dias transforma as almas, torna-as duras e amargas. Mas seletivas e gratas aos verdadeiros colaboradores também.

Procurarei dar aos meus leitores minha contribuição, ser oásis aos que buscam aplacar a sede adquirida nesta navegação sobre areia. Pois é a minha sede que reconheço, minha vista cansada após contemplar miragens, que identifico nos companheiros do blog.

E é esta minha resposta aos que me escrevem emails perguntando sobre minha “aspereza”:
“Não é aspereza: é doçura cansada, sedenta.”

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2 respostas para “Notas”- 28/04/2016

  1. Caro Pawwlow:

    Como sempre, muito oportuna suas observações. A mediocridade grassa com intensidade e persistência inacreditáveis. Os medíocres prosperam em uma terra de medíocres. Fazer o que??? Proponho continuarmos escrevendo, inclusive, sobre esses infernos e as injustiças desses tempos que idolatram Bigbrothers e celebridades de barriga de tanquinho. Abraços, meu caro e toquemos em frente.

    Paulo Mayr

    • fernandopawlow disse:

      Caro Mayr, a nossa capitulação estes sujeitos não conseguirão obter.Somos, você e eu, carne dura.Respeito sua trajetória e o horror que você nutre,e propaga, dos lugares-comuns,e da destruição do idioma.
      Continuemos,abraço do amigo Pawwlow

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