“Notas”- 30/04/2016

“E ainda nem começaram…”

Um octogenário Adolfo Pérez Esquivel, com a conhecida sem cerimônia dos argentinos, acusa o Congresso brasileiro de golpista… no Congresso.

Houve protestos da Oposição, e a Imprensa não se intimidou com seu título de Prêmio Nobel da Paz, tratando o episódio como mais um, embora mais acintoso, espetáculo do desespero governista.

Mas para este senhor vir insultar um dos poderes da República sem qualquer hesitação houve uma série de precedentes que devem tê-lo animado mais que a visita à Presidente Dilma Rousseff pouco antes de sua performance no Congresso. Largos setores da Imprensa internacional vêm se referindo a um “Golpe” sem maiores reações do Congresso e do Supremo Tribunal Federal; que os leitores me perdoem minha ignorância (acaso houve) sobre qualquer protesto destes dois Poderes ao  “The New York Times”, por exemplo.

O Advogado Geral da União não se refere ao processo de impeachment com outra palavra que “Golpe”, seguindo o exemplo da Presidente Dilma que promove seus festivais de achincalhe aos que a julgam, e qual resposta enérgica recebem?

Parece haver a clássica atitude “O que vem de baixo não me atinge”, tão cara aos oposicionistas. Como contam com rápido desfecho para este pesadelo, com o impeachment quase garantido, não parecem ver necessidade em responder aos ataques diários – “Eles estão exercendo o ‘Direito de Estrebuchar’, deixa…”

E assim assiste-se o ex-presidente Lula “convocar movimentos sociais para lutar pela Democracia”e líderes dos referidos movimentos anunciar intenção de ocupar palácios para impedir a posse do vice-presidente Michel Temer, e rodovias paralisadas em todo o País por pneus em chamas, e professores universitários insultarem instituições “corruptas” e…

E ainda nem começaram; tudo farão para não largar o bolo do Poder, com suas fatias gordas em vantagens e confortos (quando não luxos) ; eles não têm o que temer (sem trocadilhos) de uma classe política cuidadosa em não transgredir normas de conduta, e tudo a temer (de novo, sem trocadilhos) se forem mesmo expulsos do salão de festas. Aprontarão o que puderem e o que não puderem para sabotar o próximo Governo, e só ingênuos patológicos imaginam que não o fariam se Eduardo Cunha não estivesse na linha sucessória, ou ainda mesmo se o próximo Governo começasse apenas em 2018, desde que destinado à Oposição.

Quem, não animado com esta fúria, anunciaria que não prestará contas ao próximo Governo, como anunciaram esta semana? Não deixam dúvida sobre a política de “terra arrasada” que praticarão contra o “Governo Golpista”.

Vejo a imprensa governista e como trata o virtual próximo presidente- é um tom que oscila entre o deboche e o enfrentamento franco, e é claro que se prestará ao papel de caixa de ressonância dos sabotadores que se identificarão como “representantes legítimos vítimas de um Terceiro Turno”. Claro que muito da retórica da ainda presidente Dilma Rousseff é orientada nesta cartilha de desmoralização total do processo que atinge seu partido (e que levantará, ao que promete, muito mais podres submersos) e sua administração.

Muitos se perguntam se ela responderá pelo que faz agora, pelo uso do local e do horário de trabalho como palanque, como palco de ataques às instituições – e muitos apostam que, empossado Temer, tanto ele como um enxame de “conciliadores’”zelarão para que a impunidade esteja assegurada. Se isto acontecer, como parece que acontecerá, preparem-se para retorno, com vigor renovado, de toda este esquema de Poder, ainda que sob outra roupagem (que chamo aqui no blog de “Pós-PT”), mas com muito do elenco da montagem atual deste drama -comédia.

A Oposição trata esta situação como um acidente no modelo iniciado em 1985, não o percebe como seu velório, o que o PT e associados sabem, pois sacerdotes oficiantes desta missa de corpo presente. Vejam o caso do Jair Bolsonaro recebendo cuspida de Jean Wyllys e sendo tema de considerações sobre sua co-responsabilidade no episódio, e mesmo sofrendo  ações contra seu mandato. Ninguém discute a tolice de seu pronunciamento, seu caráter de provocação óbvia e infantiloide, mas ao se admitir ataques físicos a um oponente e medidas para censurara fala de um deputado (por mais tola e infantil que esta seja), a Oposição aceita a tabela de valores imposta pelo Governo que agora combate. A defesa de Bolsonaro, de sua integridade física e de liberdade de expressão, é um teste que decidirá a força física deste Governo de emergência- se fraquejam nesta prova, falharão em todo o resto.

Michel Temer já começa – ele e seus apoiadores – prometendo não se candidatar em 2018, numa aceitação de condições impostas por quem não poderia impor condições. Lembra a candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo na qual seus adversários acusavam-no de utilizar a Prefeitura como trampolim, e Serra se comprometia a permanecer até o final do mandato. Escrevi no blog sobre o absurdo desta promessa, pois Serra fora eleito Governador pelo eleitorado paulistano que havia “traído” segundo seus adversários.e o eleitorado paulistano e paulista escolheram-no para Presidente para demonstrar o quanto se sentiam “traídos”. Esta atitude covarde por parte do PSDB (e seus apoiadores na imprensa) não garantiu a vitória na eleição, o PT impôs o debate, e ganhou a Prefeitura.

E esta imprensa, e falo sobretudo de “Veja”, comete agora o mesmo erro com Temer. Aceita termos de conduta e regras do combate político de quem esta própria imprensa garante ser já página virada da História, alheia ao absurdo do rendido ditando condições. Encomendam, estes vitoriosos de véspera, os foguetes para a festa temerosos dos protestos dos incomodados pelo barulho. Parecem acreditar que seus inimigos não lhes percebem medrosos, prisioneiros de tabus políticos, os quais são, para os petistas e seus associados, mero conjunto de ferramentas para conquista e manutenção do Poder.

Como escrevi diversas vezes, muitos dos “formadores de opinião” fossem submetidos aos critérios de aprovação e desaprovação de outros prestadores de serviço, estariam já “desativados”; quantos outros profissionais conseguiriam acumular tantos erros e manter o emprego? Façam as contas das previsões negadas e vejam em quem a classe política confia como seu oráculo!

Eu sou um crítico ( também escrevi sobre isto) das abordagens de figuras públicas em seus momentos privados: portas de bares, restaurantes, etc . Nada resolve, além de fornecer munição aos adversários que tomam estas atitudes como demonstrações de amadorismo político. Sobretudo gente do mundo dos espetáculos, como atores e cantores,  que não tem a responsabilidade de orientar classe política e população, ainda que se julgue capacitada.

Esta energia- a de protestar contra quem orienta mal e apoia políticas desastrosas- deveria ser canalizada para os Srs. do mundo jornalístico (da casta acadêmica manter distância é o que basta). Enviar cartas e ameaçar cancelar assinaturas pelos serviços mal prestados.

Ou isto, ou aceitar o que virá.

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