“Notas”- 05/05/2016

“E me vejo confirmado tão cedo…”

Alguns leitores com quem mantenho correspondência por email (e que prefiro que não comentem no blog, pois daria a este ambiente de varanda doméstica) me acusaram de “pessimismo” e “derrotismo”:

“Você, Pawwlow, gosta de apostar na pior hipótese, pois ganha, assim, maiores chances de acertar. Como o Brasil consegue confirmar as piores previsões, é fácil, deste jeito, ser profeta”.

Não, amigos, não é o desejo de me firmar como adivinho que me faz escrever o que venho escrevendo, mas o estudo de nossa história recente, a observação de gestos, e nuances do discurso político, etc. E me vejo confirmado tão cedo, menos de sete dias me provando observador competente.
Vejam a entrevista recente do ainda Vice-Presidente Michel Temer ao jornalista Gerson Camarotti: o virtual futuro Presidente se confessou cuidadoso em não ser acusado de contrário ”às políticas sociais” e isto pesará na decisão sobre quantos e quais ministérios cortar. Há, na fala de Michel Temer, hesitação e mostras de apreensão, e me pergunto o que faz de um homem que se mostra assim, estar desejoso de assumir a Presidência da República.

O jornalista levantou a hipótese de, em caso de viagem do Presidente Michel Temer, o nome imediato da linha de sucessão, Eduardo Cunha assumir a Presidência. O que responde o virtual futuro Presidente?

“Isto eu só avaliarei se vier a assumir o cargo”.

Não estou na posição do ilustre Sr.Temer,  e não desejaria nem por todo o dinheiro do Mundo o cargo de Presidente do Brasil, mas num eventual pesadelo no qual estivesse em seu lugar, responderia:

“Sr.Camarotti, o Sr. me pergunta por Cunha, como ‘réu da Lava-Jato’. Bom, ele é réu, mas é, pela Constituição, o ocupante do segundo lugar na sucessão, caso eu assuma. Que pensassem nesta situação os deputados e mesmo a Imprensa, há alguns meses. Não desrespeitarei a Constituição no sabor dos homens e condições do momento. Esta questão, se o Sr for rigoroso com o ofício de jornalista, não deveria nem ser levantada.”

(Leio nos portais de notícias, agora que digito estas notas, que Eduardo Cunha foi afastado da Câmara, por decisão do Ministro do STF, Teori Zavascki, mas isto não anula o gesto de Temer).

Isto foi, salvo engano, há dois dias. Na mesma data, a Assembleia Legislativa de São Paulo fora ocupada por “estudantes” que protestavam contra a “Máfia da Merenda.” No correr das horas, manifestantes e PM se enfrentaram e um deputado petista empurrou um policial militar. Outras repartições na mesma cidade foram  “ocupadas” por manifestantes do mesmo tipo. Reinaldo Azevedo observou então que, caso a queda de Dilma Rousseff seja mesmo concretizada, isto (provocações violentas) será rotina.

É o que escrevi no post de Sábado, amigos leitores.

Não largarão a rapadura, não darão as costas ao que conseguiram, e usarão de todos os meios para manter posições, ainda que a Chefe de Estado seja substituída por seu Vice. Há todo um corpo governamental, amparado por estrutura política (que tolos imaginam estar ameaçada pela prisão de alguns de seus membros) ativa e disposta, que zelará para que o Poder não escape de mãos que se prepararam para desfrutá-lo.

O que temos visto na Comissão de Impeachment no Senado mostra que, fosse o Vice um homem como Antonio Anastasia (que tem sido firme cortante em suas respostas aos governistas) talvez meus temores fossem manifestação de paranoia, mas Michel Temer, embora respeitável do ponto de vista inteelctual, não concorre para tranquilizar, com suas atitudes, os que estão temerosos sobre os próximos dias.

Dilma Rousseff tem feito sua parte, com suas medidas anunciadas ontem, no sentido de tornar o futuro imediato de Temer um caos; o que puder ser feito para estourar o Orçamento (e caracterizar, aos olhos da massa, vilões os que se opuserem) será feito até o último segundo.

O PMDB não protesta com a energia que se esperava – ou não se esperava. E todo o restante da classe política mostra-se desatenta, embriagada por textos de articulistas que contam já os segundos para o que acreditam ser o fim de uma era desagradável para eles.

E o “Pós-PT” se mostra já existente, sobre as cinzas do PT que finge seus espasmos.

Helio Fernandes mais sentindo que analisando

Escrevi, há alguns dias, que o blog do Helio Fernandes é leitura obrigatória para quem se interessa por Política. Sua experiência de décadas cobrindo política (talvez o mais antigo jornalista em atividade no Mundo) e estilo muito pessoal cativam leitores fiéis há gerações. Eu próprio comecei a lê-lo adolescente ainda, na década de ’80, e meu pai já era seu leitor. Concorde-se ou não com o que ele escreve, é um jornalista de importância indiscutível, e lamento que antipatias pessoais façam-no tão pouco celebrado no Brasil.

Mas penso que é preciso separar o observador agudo, o repórter bem informado, o combatente destemido, do panfletário que também há nele. Helio Fernandes carrega muito de um sentimento heroico que foi, com o passar dos anos e consequente abandono de nossos valores, por visto como algo impróprio ao jornalismo.

Sou dos que lamentam a uniformização dos textos em nome da objetividade, e mesmo modernidade, do jornalismo brasileiro. O modelo americano nem sequer é bem copiado e o que tínhamos foi recusado. É o Brasil e sua condição de colônia mental.

HF vem, desde o início da crise, lamentando o impeachment, pois conduzido por políticos que estariam desautorizados, do ponto de vista moral, a julgar a Presidente- a qual não poupa de críticas, porém defende seu afastamento para novas eleições.

Ora, quem não preferiria outra situação? Eu próprio escrevi muito contra o impeachment, via-o como nocivo ao processo histórico de enfraquecimento do esquema de Poder, liderado pelo PT. Mas os acontecimentos me venceram: não é possível o País continuar vítima de uma escolha mal feita, mesmo por ter sido pouco orientado por Imprensa dita de Oposição.

HF, com sua aversão a tudo o que lembre PSDB (não o critico por isto, ao contrário) parece preferir outras correntes da mesma ideologia, o que chamo de “Pós-PT”, e é seu direito. Mas considerar a defesa sentimentaloide de Marcelo Lavenère na Comissão do Impeachment algo inspirador, quando o jurista apenas repetiu o discurso governista que justifica as “pedaladas” por estas “beneficiarem” grandes faixas da população, atenta contra o observador Helio Fernandes. Ali escreveu o emotivo, o torcedor. Há um sentimentalismo que desequilibra o panfletário do repórter bem abastecido de notícias; outro dia, sugeriu que Janaina Paschoal deveria lutar judô, por gesticular…

Isto, repito, não retira do jornalista sua importância e a obrigatoriedade de sua leitura, mas registro meu desagrado a este momento menor de quem elogio com frequência.

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