“Notas”- 07/05/2016

Sobre a “Queda” de Eduardo Cunha

Recebo emails de leitores amigos do blog cobrando opinião sobre a “Queda” do Eduardo Cunha- o que penso, se concordo com as interpretações do fato por jornalistas ou comentaristas de internet, se considero justa a suspensão do mandato do presidente da Câmara, etc, etc.

Não me atrevo a palpitar sobre decisões do STF sem ao menos ler o conteúdo dos votos (não acompanhei pela TV) e neles encontrar no meio da linguagem técnica algum possível equívoco. Há “especialistas” em STF como há “especialistas” em tática de futebol – e no caso do “Supremo”, considero mesmo um avanço que esta instância tenha na mente popular seu território – como escrevi no blog, não faz muito tempo apenas estudiosos (e jornalistas setoristas do Judiciário) sabiam o nome dos Ministros do STF; hoje populares mencionam os nomes com a familiaridade com que mencionam nomes de jogadores de futebol, e isto é bom.

Mas há o tributo da interpretação baseada no senso comum, as teorias da conspiração, os boatos; muita besteira, muita ligeireza sendo escrita e falada sobre decisões do STF. O Brasil tem agora os vlogueiros que “explicam”, aos leigos como eles, votos da instância jurídica máxima; Ministros e suas inclinações, etc .

Como me reconheço ignorante nas questões jurídicas, me abstenho de opinar – respeito, por exemplo, Gilmar Mendes, e não o imagino votando a favor de uma ilegalidade ou engano primário, e espero que nenhum destes analistas improvisados do STF o considere petista ou (ainda que leve) simpatizante da agremiação. Algum indício convincente contra Cunha (ou razoabilidade no pedido do Procurador-Geral Rodrigo Janot) deve ter concorrido para a decisão do Min.Teori Zavascki. Eu não acredito que tenha havido má fé ou ignorância clamorosa nos onze ministros do Supremo Tribunal Federal na tarde de Quinta-Feira; outras considerações podem surgir, mas não tratarei delas, não por enquanto- sei meus limites.

O que me sinto habilitado a fazer, ofereço agora aos leitores: análise das implicações políticas deste fato da Quinta-Feira, um dos mais importantes desdobramentos da Operação Lava-Jato. Cunha foi alvo da fúria de setores organizados e talvez tenha subestimado seus adversários – sorriu irônico aos que o acusavam de corrupto ao votar na já histórica Sessão da Câmara que votou o pedido de Impeachment. Ameaçou processá-los no dia seguinte, e mais não se soube da iniciativa.Teve a mesa ocupada por grupo de deputadas, lideradas por Luiza Erundina, limitou-se a suspender a sessão. Agiu todo este tempo como se acusações e pressões de grupos ligados ao Governismo fossem picadas de microinsetos, e o resultado é este: esta etapa de sua vida está selada: fim de mandato e início de sua vulnerabilidade.

Não sei se outros políticos (sobretudo de seu partido, o PMDB) aprenderam algo com o episódio: há um misto de cautela e expectativa quanto ao Governo Michel Temer, enquanto governistas se movem para anular o processo de Impeachment, ou incluir Temer na vacância do cargo. O que escrevi há algum tempo mantenho: livraram-se de Cunha e marcharão resolutos contra os peemedebistas que os ameacem. A posição fetal não protegerá qualquer político, os botes não cessarão mediante acordos celebrados por conciliadores.

O futuro do Eduardo Cunha? Talvez escape de outras condenações se não conseguirem provas, mas me parece que esta sua fase de vida – a de político disputando eleições, ocupando cargos; político institucional, enfim – está encerrada. Difícil acreditar que ele venha a salvar o cargo e direitos políticos. Haverá volta, como houve com Roberto Jefferson, mas como liderança de bastidores, articulador, ou dirigente partidário.

Talvez sua chance de reagir no médio prazo esteja neste território onde cassações e pressões de grupos possam muito pouco: organizador partidário, líder junto aos segmentos religiosos que foram sua base eleitoral; mesmo o rádio seria uma possibilidade. Não o conheço, não sou interlocutor, e nem repórter. Imagino cenários e hipóteses que restam a um político cassado, sem mandato e desejoso de alguma retaliação.

Se sua queda modificará algo na crise? Duvido muito, e continuo insistindo na minha opinião que este espernear do petismo e associados é teatro que busca desmoralizar instituições, não salvar mandatos falidos. Tentarão o que sabem inviável, firmes no propósito de vencer pela irritação e pelo desespero.

Perguntam, os leitores amigos, se me preocupo de ser acusado de “Cunhismo” pelo que venho escrevendo – bom, não continuaria mantendo blog caso temesse incapazes de interpretar textos: Cunha como político institucional já é passado, cumpriu sua parte e enfureceu por suas ações contra o Governo, não por suas falhas. Há algo mais grave que este momento e suas sombras: a mentalidade conformista e presa a tabus, que possibilita o domínio de uma casta organizada e feroz no avanço pelo Poder.

O resto é pormenor, rabisco na parede.

Os sustos do Conservadorismo

“Vocês sabiam que a artista plástica que urinou e defecou no retrato do Jair Bolsonaro, no “Cuspaço do MASP”, em plena Av.Paulista, sob o Sol, foi professora, nossas crianças expostas a este tipo de gente?”

Li indagações do tipo algumas vezes, e seus replicadores de caixas de comentários ecoaram o mesmo horror, a mesma surpresa.

Respondi aos que me participaram da notícia com o tom utilizado por meu saudoso pai, quando confrontado com surpresas desta natureza:

“Não diga! Isto é algo … muito grave.”

Acredito que estes surpreendidos pelo gesto da “manifestante” e sua biografia nunca conheceram o ambiente universitário brasileiro, no vasto território conhecido como “Humanas”: Letras, Belas Artes, Filosofia (História, Sociologia), Psicologia…Conhecessem o universo mental destes cursos, comum aos professores e alunos, não se espantariam com nada, com nada. Perceberiam como natural o manifestar de discordância através de cuspes e uivos e gargalhadas histéricas funcionando como argumentação.

Perdi a conta das vezes em que assisti rodinhas de estudantes – eles, barbudinhos, camisetas com estampa do Che Guevara; elas, saiões de seda ou micro saias, camisetas justas (não raro sem sutiã)- discorrendo sobre “Direitos Humanos” e criminalidade.

A dor de familiares de vítimas de crimes brutais era motivo de boas gargalhadas, e se a vítima fosse criança, observavam que “a mídia grita porque a criança era branquinha”.

E riam, compartilhando o baseado, exibindo a calcinha aos olhares, seguros de fazer parte de uma minoria destinada ao Poder.

Pois davam aulas todos eles, alguns almejando a carreira acadêmica.

Não consigo, após anos assistindo a cena descrita acima, convivendo com gente do tipo, submetido a gente que pensa assim, me abalar com moça que urinou e defecou em público, estrelando um “Cuspaço”.

Não tenho este direito.

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