“Notas” – 12/05/2016

“Discursos históricos… empurrões pedagógicos…”

A manhã de Quarta-Feira já prometia com senadores governistas apresentando à Presidência da Casa “Questões de Ordem” que solicitavam nada menos que a suspensão da votação da admissibilidade do Impeachment. Tomaram tempo (mais de uma hora) e irritaram. Há quem julgue estes senhores débeis mentais, retardados que não poderiam ocupar o Parlamento.

Sei que não se trata disto, mas de guerra de nervos e tomada de território- não se sentem obrigados a colaborar com adversários políticos (no entender deles, inimigos de guerra) e utilizaram minutos como artefatos enquanto o tempo permitiu, e durante o tempo em que o presidente Renan Calheiros julgou bastante para que a ironia apresentada como tolerância fosse necessária. Calheiros mostrou-se mais mestre nestes minutos de exaustão nervosa.

Por que a Oposição e setores diversos não treinam estas artimanhas como a Esquerda o faz? Por que o apreço as etiquetas sociais ainda pesam mais que a observação de técnicas de guerrilha emocional? Até quando gente bem treinada em irritar, constranger e levar ao desespero pela estupidez agirá sem temor de represálias, ou enfrentamento de adversários competentes? A lição deste 2016 terá sido assimilada, levada em conta?

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Oposicionistas utilizaram bem seus quinze minutos: repisaram o inventário das ruínas, reiterando o dito e já reiterado nas Comissões – não se deixaram intimidar pelos sabotadores (nota anterior) da Sessão, discursaram pelos milhões que sofrem este Governo como tocados pela ciência dos fatos naquele instante.

Confesso que no início me irritei com o que me parecia perda de tempo – ataques a um Governo no momento em que “Sim” e “Não” teriam maior poder de fogo, pois sintéticos, além de não darem oportunidades aos governistas de emitirem seus discursos enervantes por inarticulados.

Mas fui lembrado por gente mais perspicaz: nem todos os que assistiam ali assistiram antes as investidas da Oposição, o arrazoado por parte de quem acusa, e sem este elemento, a desculpa oficial – ausência de atos que justifiquem Impeachment – se fortalece.

Mas ainda assim perdi muitos dos discursos, e não me arrependo, pois conhecia de cor e salteado muitos argumentos, de lado e d’outro.

Há do lado governista um Roberto Requião, sempre divertido, mas exceção – o nível intelectual dos defensores do Governo torna excessivo qualquer esforço contrário – este gente fala mal, e envergonha os estados que os elegeram.

Na verdade, muitos destes estados forma vítimas de uma Oposição que não soube compor suas chapas e se fazer presente. Não culpo tanto assim os eleitores, pois lembro a eleição para Governador aqui em Minas Gerais em 2014 – Minas Gerais foi estado vítima da incompetência do PSDB, e a derrota de Pimenta da Veiga um aviso do que seria no Brasil no Segundo Turno.

Esta lição é outra que seria bom se fosse observada.

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O já histórico discurso de Fernando Collor assisti cerca de hora depois – este me arrependi não ter assistido no quente do momento. Trata-se de peça digna de figurar em coletânea dos grandes discursos do parlamento brasileiro.

O Plenário –  o vídeo o prova – paralisado diante do discurso do ex-Presidente alvo de um processo de Impeachment, o primeiro eleito desde 1961.

Não vou me alongar no conteúdo – o vídeo de quinze minutos está disponível na internet para interessados – e sim na postura digna, tranquila, comparável à de um Conselheiro do Império. Era o semblante da História, acrescento sem temor do ridículo. Este homem foi – e ainda é- alvo de toda sorte de ataques e campanhas de destruição política. A volta veio como ironia histórica: aliado dos arqui-inimigos do PT.

Esta condição de parceiro dos inimigos de anos anteriores não o poupou de referências e comparações desfavoráveis, sobretudo pela boca do adversário de 1989, Lula.

Quantos de nós não nos admiramos com a capacidade de suportar cotoveladas sem reclamar do ex-presidente, hoje Senador por Alagoas?

Com o PMDB – seu adversário no Congresso nos dias da Presidência, enquanto o PT o atacava nas ruas, nos sindicatos – manteve relação um pouco mais fria, mas ainda assim impressionava a facilidade com a qual se mantinha nos limites da convivência parlamentar.

Pois nesta noite histórica, Collor saboreou seu prato: resumiu em uma palavra o quadro que contempla -“Ruínas”- e narrou seus esforços em alertar quem não desejava ser alertado sobre os erros na condução da Política, do trato com o Congresso.

Sua comparação sobre o ritmo do andamento dos processos de Impeachment – o seu e o atual- traía a amargura, e quem não se amarguraria?

O desconcertante foi o encerramento do discurso – não revelou voto, apenas agradeceu.

Interpretei como:
“PT e PMDB, que ambos se esfolem, se devorem, se traiam muitas vezes. Vocês se merecem. Não lamentarei a queda de Dilma Rousseff, não saudarei ascensão de Michel Temer – tudo é História, e com ela não me comovo mais.”

Eu me comovi, quem conhece História também – este discurso justificou uma vida inteira.

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Quinta-Feira trouxe o inevitável: a despedida – ainda que temporária- do Poder.

Me impressionei: sindicatos e movimentos sociais conseguiram mobilizar pouca gente, ocuparam se tanto uma calçada e pedaço de uma pista por trecho relativamente curto de trajeto: quem não esperava massa mais volumosa? Não ameaçaram tomar o Congresso, ocupar o Planalto, sublevar a Capital, já na posse, do “traidor”?

Não vou rir do pronunciamento de uma mulher abalada, sob tensão nervosa – mesmo calma nunca primou pela articulação e brilho na oratória – com aparência de noites sem dormir, submetida aos remédios (como reportagens a descrevem): repetia as frases, sem dúvida inconsciente da repetição, mergulhada na perplexidade do fato enfim consumado. Me pareceu também emocionada com a claque que ela sabe ser claque – de sindicatos, de movimentos ditos sociais, e mesmo de alguns eleitores fanatizados pela ignorância.

Chamou atenção não berrarem por Lula, ali presente, sem dúvida transtornado. Rui Falcão contemplava o fim do PT com expressão de já preparar o “Pós-PT”.

Repórteres do “GloboNews” empurrados e derrubados, sob gritos de militantes, e concluindo, barbudinhos, que”é do jogo”.

Merecem cada empurrão, cada cuspe, cada sabotagem que sofrem. São o braço jornalístico do “Pós-PT” e os empurrões que assistimos ensinam o salário pago aos que temem enfrentar totalitarismos.

Observadores atentos concluirão que pouco ou nada vale amaciar a voz nas justificativas do injustificável- as bordoadas por não pertencer aos que gozam o Poder é certa.
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Discursos (mesmo os piores, pois ditos em hora decisiva) históricos, empurrões pedagógicos (quem não aprender nada ali, nada aprenderá) ; dois dias que valeram cada segundo.

História é peso.

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