“Notas”- 19/05/2016

Temer confirmando as piores expectativas

Michel Temer vem, de concessão em concessão, confirmando as piores expectativas quanto ao seu Governo: recuará até que nenhum fiapo de autoridade reste, e assim não conseguirá remover a sujeira acumulada sobre o Brasil, e não será difícil o PT (ou o “Pós-PT”) conseguir retornar ao Poder – ao Poder institucional, digo.

Quando se chega à Presidência em momento dramático como este (denúncias de corrupção nos altos círculos, desintegração da economia do país, etc) espera-se que quem quer que assuma o Poder aproveite a oportunidade para saltar algumas fases: tabus que demorariam décadas para ser confrontados podem, nesta condição especial, ser derrubados, e medidas drásticas podem ser adotadas sem maiores vacilações.

Mas como o fazer se nem mesmo resposta enérgica a uma exigência imbecil (ministérios contemplando “cotas de minorias”) importada por imprensa composta por colonizados mentais é dada? Temer, ao invés de responder aos críticos lembrando que o Brasil tem exigências de outra ordem no momento, corre a procurar mulheres para preencher vagas – ora, para seus críticos, ainda que convidasse a própria Angela Davis, mesmo assim seria massacrado.

Vejo que até agora pouco (ou nada) fez para interpelar quem o acusa de “golpista” e seu governo de “ilegítimo”. Será que nada pode fazer? A liberdade de expressão garante qualquer insulto e acusação? Blogs e jornalistas a serviço do esquema de Poder recém – desalojado do Palácio agem sem temores –  Dilma Rousseff age desinibida.

O episódio do tal protesto do elenco do filme brasileiro em Cannes (não assistiria mesmo a este filme por suspeitá-lo uma ressaca, meu “boicote” não seria fruto da palhaçada no festival) é de gravidade que parece escapar a Temer (a simbologia do Poder parece estranha à classe política do Brasil, em geral): atores e diretor acusam o momento político atual ao público estrangeiro –  e respectiva imprensa – como se vivêssemos ainda na Ditadura (quando protesto do tipo era digno e necessário) e não há resposta enérgica do Governo. Nem leve interpelação.

Quem não se sente incentivado a avançar mais um tanto?

Isto em menos de semana de Governo promete o fracasso no médio prazo – que Temer seja aconselhado por gente lúcida, ou estejamos preparados para o Pior: o Poder será retomado com ânimo total por quem entende – e pratica- a linguagem do Poder.

Delcídio Amaral no “Roda Viva”

A participação do ex-líder do Governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio Amaral, no “Roda Viva” da última Segunda-Feira, desapontou a quem esperava revelações que provocassem explosões visíveis da Lua, ou libelos contra o sistema ao qual o político serviu até ser denunciado – e preso.

Como não esperava muito, não me frustrei tanto – não considero Delcídio homem de gestos de maior força dramática e retórica inspirada – e estas características não surgem de momento para outro, não se improvisam. A entrevista foi bem o que eu esperava.

Há, em gente que escala diversos postos (e migra de partido para partido), senso agudo de sobrevivência – o sujeito não sobreviveria na máquina servindo ao PT após servir ao PSDB, se não tivesse maciez no trato, e conhecimento da suscetibilidade dos poderosos. Logo, é um sobrevivente nato, e não fará mais do que se defender – ele, mantendo-se distante do jato de fogo, já se considera bem pago.

Delcídio Amaral não tem maiores razões para se expor mais do que vem se expondo – quem, no lugar dele, agiria diferente, tendo contra si apenas menções (ainda vagas) na “Operação Lava-Jato” e uma acusação de tentativa de obstrução de Justiça? O que puder fazer para se desviar de choques desnecessários (do ponto de vista da sobrevivência imediata) será feito. Cassação de mandato assusta menos que possível prisão, e apenas o risco da prisão orienta os passos.

Que telespectadores ingênuos (comentários, tanto na coluna de Augusto Nunes, como no link do “Roda Viva” no “YouTube” demonstram-no) esperassem entrevista histórica, repleta de revelações arrepiantes, compreende-se. Que jornalistas experientes alimentassem a ilusão de extrair algo mais que evasivas do agora ex-senador, já inquieta.

Me senti um pouco desolado ao assistir o espetáculo de jornalistas tentarem, através de réplicas (tentativas de réplicas, obstadas aos gritos por Augusto Nunes), retirar água deste poço, como se acreditassem que as respostas inconclusivas fossem fruto de perguntas mal formuladas – que não tivessem se feito entender.

Augusto Nunes pareceu o mais exasperado nestas tentativas. Cortava colegas (se acham que exagerei na descrição de “gritos” no parágrafo acima assistam ao vídeo), tentava ele mesmo formular as réplicas, com resultado idêntico ao obtido por seus colegas – que admiro aceitarem este tratamento – jornalistas de nível cortados como se fossem alunos malcriados.

Quem nada espera, nada perde – este “Roda Viva confirmando o dito.

“Cauby, Cauby”

E o Brasil perde Cauby Peixoto – não era menino, mas figuras como ele parecem eternas, sempre surpreendem quando partem.

Voz invejável, sobretudo pelo que demonstrava com sua idade. Se minha geração teve dele muito pouco a lembrar, atribuo isto a não possuirmos mercado segmentado, como em outros países – e isto me lembra textos muito bem escritos do José Augusto Lemos na finada “Bizz” sobre o assunto – aqui explora-se o “estouro” ao máximo, depois disto, ostracismo. Se bem que Cauby manteve público numeroso mesmo na velhice.

Nelson Gonçalves, Angela Maria (que lamentou que seu amigo/irmão tivesse ido “tão cedo”) e tantos outros seriam melhor desfrutados caso houvesse segmento melhor cuidado para artistas como eles – especiais televisivos de tempos em tempos, rádios dedicadas a artistas deste estilo e época, etc.

“Cauby, Cauby”- agora as temporadas eternas nos palcos de outras dimensões.

Boris Schnaiderman

Morre o tradutor, ensaísta e escritor Boris Schnaiderman – para quem tem alguma cultura e interesse por Letras, o desfalque é ainda incalculável, como as contas no Brasil.

Reputam excelentes suas traduções de autores russos para o Português, e sei de sua militância cultural junto aos irmãos Augusto de Campos e Haroldo de Campos.

Para mim, entretanto, sua morte me traz a lembrança de meu pai – que o conheceu quando estudou na Escola Agrotécnica de Barbacena. Foi seu aluno, e gostava de conversar sobre literatura russa com o então jovem professor.

Meu pai presenciou – ou soube pelo seu professor- que um fotógrafo alemão residente em Barbacena recusou-se a fotografá-lo com sua família, por não fotografar judeus…

Meu pai me contou sobre isto quando me viu lendo reportagem sobre os Campos ilustrada por foto onde aprecia seu antigo professor.

Para meu pai, Boris Schnaiderman era mais que uma figura ilustre da cena cultural brasileira, era a lembrança de um homem bom, um excelente professor, solícito, um ser humano que o marcou para o resto da vida.

Que lamentemos sua partida enquanto a conversa, agora eterna, entre Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman, desliza gostosa, para nossa inveja.

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