“Notas”-21/05/2016

“De recuo em recuo… o abismo”

Poucas vezes tenho o prazer de cumprimentar amigos leitores reconhecendo-os certos quando me qualificam como “pessimista”.

Acertar as piores previsões é menos mérito meu que colaboração dos fatos: há uma lógica nas análises – elas não podem negar o que as leis históricas fixadas nas páginas da História; “conhecendo o Passado, orientamo-nos no Presente e antevemos o Futuro”, não é assim?

Um Governo que começa contando com declarada Oposição de setores organizados (em também declarado divórcio com a opinião popular, pois formulada pelo que estes setores entendem se tratar de “analfabetos políticos”) não pode acreditar que fazendo concessões, ganhará junto a estes setores qualquer território de Poder.

É o básico da literatura política, não? “Fraqueza provoca a agressão”, dizem os neoconservadores (atribui-se esta observação ao Donald Rumsfeld), discípulos de Maquiavel.

Quem respeita quem, em apenas uma semana de Governo, se intimida com gritos de cobrança por mulheres no Ministério (em seu Ministério, houvesse mulheres, cobrariam negros, houvesse negros, cobrariam gays, houvesse gays, cobrariam deficientes físicos, houvesse…) e passa a correr atrás de mulheres mais que solteiros no sábado à noite, e pressionado por artistas e ativistas culturais” e suas “ocupações”, reativa o Ministério da Cultura?

Não sei quem o aconselha, mas tenho certeza que é quem desconhece o caráter das lutas pelo Poder: Poder não é resultado de concurso de popularidade, ou troféu por melhor performance persuasória sobre inimigos, mas capacidade de avançar através do ódio concentrado e exercitado em ataques diários – e não é fazendo concessões a quem está disposto – e se declarando  disposto – a sabotar Governo que não reconhecem como legítimo.

Não reconhecem e não reconhecerão, ainda que Michel Temer demita todo o Ministério, substituindo-o por militantes dos movimentos sociais ligados ao antigo governo, e aproveite a retomada do Ministério da Cultura para lá empregar todos os militantes que dão expediente como “ativistas culturais”. Ainda assim, teria que se declarar usurpador, ou na mais compassiva das hipóteses, mero ocupante da presidência até 2018, quando apoiará então o candidato da frente política recém retirada do Poder. Somente assim Temer desfrutaria de alguma trégua; se governasse prostrado diante dos inimigos que o apedrejam.

Reinaldo Azevedo saudou o recuo de Temer – o contrário seria agir como Dilma Rousseff que nunca recuava, por teimosia. Azevedo estaria certo se Temer houvesse fechado Ministério vital (como ele mesmo lembrou, não haveria, com o fim do Ministério, economia notável) para o País, ou estivesse colocando obstáculos ao diálogo, por mero exercício de represália – este sim seria recuo elogiável, mas estes da últimas semana apenas trarão mais recuos – eles descobriram como tirar deste Governo o que desejam: acusando, gritando, promovendo campanhas contra a imagem do Brasil no Exterior; atacando, enfim. Eles não recuarão, somente o Governo. E quando se deseja fugir de confrontos, toda justificativa é válida.

Quem deseja enfrentar esta claque, ainda que, em termos de porcentagem populacional, esta seja um nada? Quem ousa desafiar a casta acadêmica e seu braço “artístico”? Não vemos,  a cada dia, artistas alvo de execrações (mais remotas ou mais recentes) engrossar o coro “anti-Golpe”? Gente que nunca precisou de benefícios governamentais lamentar extinção do Ministério da Cultura? Há um temor justificado do ostracismo promovido pelo “Poder Cultural”.

Mas espera-se da classe política disposição para enfrentar este campo de forças, pois políticos dependem menos de aplausos de grupos que da aprovação da massa – e esta se obtém com gestos de coragem.

Recuos trarão mais recuos, e mais e mais agressividade convidarão, para citar Rumsfeld uma vez mais. Os inimigos do Governo de transição não se mostram dispostos a negociar, para eles é este Governo no chão, ou nada.

Como me lembrei esta semana dos erros cometidos nas campanhas do PSDB – a polidez, a argumentação racional no campo das emoções inflamadas, a postura defensiva… lembro o que escrevi no blog sobre a falta de agressividade (tracei paralelo entre o tucano típico e o nerd sendo preterido em nome do delinquente pela deusa da quadra da escola): nada se aprende quando não se reconhece fraqueza e derrota – não é agradável, concordo…

Não tardará e Temer cederá aos berros dos blogueiros governistas (“Como ele ousa tirar anúncios dos nosso blogs? Quer nos matar pelo bolso? Ele pensa que contará somente com o PIG? Nãããão!”) e recolocará anúncios, talvez tentando impor condições – que causarão gargalhadas, claro. Imbecis a dizer-lhe “estes pobres diabos não têm leitores. Eles querem esmola?Dê!” contribuirão para mais este recuo.

E de recuo em recuo… o abismo.

Que adianta gastar José Serra em bates-boca com membros da confraria latino-americana e exigir relatório do que foi legado em cada ministério, se a vontade de enfrentar tabus é ainda tímida (para ser generoso com Temer, bem entendido)? E ninguém parece estranhar a falta de pronunciamento televisivo expondo as dimensões do estrago do Governo que o precedeu, com respostas firmes aos que cobram ministérios compostos de acordo com os mandamentos do “politicamente correto” em hora dramática; exemplificando com o inchaço do Ministério da Cultura no país com tantas demandas urgentes por atender.

Não se está usando o recurso da dramaticidade em hora decisiva- isto cobrará caro, pois os oponentes deste governo sabem falar (ainda que tanto desmoralizados) a linguagem do Poder – ela passa através das coisas tangíveis, mas opera abaixo e acima delas; as motivações mais baixas (o rancor, a inveja e o recalque) e as mais altas (sonhos de grandeza, o desejo de escapar de adversidades, o sonho de triunfar sobre dificuldades da vida comum) são trabalhadas de forma simultânea, através dos signos, não das exposições didáticas da realidade concreta. Há como culpar ainda “as elites”, em outras palavras.

E foi apenas a primeira semana.

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