“Notas”- 26/05/2016

“Bob Dylan, 75”

O título desta “Nota” homenageia o feitio “Folha de S.Paulo”, não preciso dizer. Há (acredito) neste procedimento de informar a idade do personagem da matéria algo mais que simples mania que se pretende tradição, no jornal. Os personagens de textos têm biografia e esta sempre diz algo sobre a notícia, não concordam?

Eu próprio me peguei surpreso com a idade do Bob Dylan, ainda que não o supusesse garotinho, mas setenta e cinco anos é idade que diz bastante, mais cinco anos e o sujeito é um octogenário, e não acreditei, nestes anos todos (do ano em que soube dele até o minuto que digito), que iria ver Bob Dylan octogenário; certos sujeitos nascem condenados à juventude eterna, ao contrário dos “octogenários natos” retratados pelo Nelson Rodrigues em suas crônicas. Caprichos do tempo.

Fui apresentado ao Bob Dylan pelo clip de “Jokerman”, em 1983, nos meus dez anos de idade. O sujeito me fisgou ali, e doravante não o perdi de vista, em matérias jornalísticas que me foram disponíveis, e nos discos que pude ouvir. Comprei alguns, leio até hoje tudo que posso sobre ele, e não fui a qualquer de seus shows. Mas ainda assim me considero um admirador apaixonado, ainda que relapso.

Um verdadeiro fã limpa latrinas para ver o show de seu objeto de adoração em sua cidade, e nunca me passou pela cabeça lavar mesmo um prato para vê-lo. Há o atenuante, para mim, de que suas performances (já por ocasião de seu primeiro show em Belo Horizonte, em 1991) exigem devoção religiosa, mas mentirei se escrever que não me arrependo um tanto por não ter feito sacrifício mínimo para vê-lo no Mineirão. Mesmo os shows mais recentes (e mais caros) que não vi pelo mesmo motivo da vez anterior (falta de disposição para sacrifícios para assistir performance sofrível) me deixaram o arrependimento pelo não feito.

Talvez não seja mesmo um fã  – um fã vende as roupas para completar a discografia oficial, limpa trilhos de composições ferroviárias (sim, pois de metrô é fácil) para adquirir itens da discografia pirata, tem pelo menos um livro sobre o ídolo, e pelo menos um show na vida se obriga a assistir.

Bom, não li nem mesmo sua autobiografia, tenho poucos de seus discos, e como escrevi acima, não fui a qualquer show.

Dylan não está em má companhia, nos meus hábitos: mesmo alguns escritores, que aprecio ao ponto da releitura constante, têm em mim um leitor de uns poucos seus livros (sou mais de reler que ler). Idem cineastas. Sou assim.

Ainda assim me considerei, por muito tempo, digno de ser escolhido por Bob Dylan, como amigo e confidente. Me irrito um bocado pelo telefonema não dado por ele em suas passagens por BH, e nenhuma menção a mim e aos meus escritos em suas entrevistas. Que ele me cite em uma de suas canções já desisti…

Mas não é assim com todos que o admiram? Seus exegetas e biógrafos também devem se acreditar um tanto seus donos, e quem não, ao ser apresentado aos seus discos, aos documentários sobre ele, percorrendo quilômetros de textos que buscam, por meios muitas vezes ridículos, capturá-lo de alguma forma? Gostar de Bob Dylan é uma maldição, invejo quem não foi atingido por ela; decerto mais pobre, porém mais tranquilo.

Pois o homem não para: aos setenta e cinco anos não apenas continua disposto à estrada, mas fértil nos discos, uma usina que não parece conhecer os sinais de esgotamento – do pouco que acompanho de sua produção recente, digo que é ainda inquieta.

Não preciso – e nem desejo-  fazer resumo explicativo da obra e importância de Dylan: há abundância de informação sobre o artista.

Escrevo sobre Dylan em mim: discos como “Infidels”, as coletâneas “Greatest Hits, Vols. 1, 2 & 3”, “Before The Flood”, “Desire”, “Street Legal”, ”Slow Train Coming”e canções diversas, como “The Man In Me” me foram e são motivadoras de minhas explorações intelecto- existenciais, tanto quanto alguns filmes e livros. Não é exagero o clichê que decreta Dylan como o mais alto ponto de respeitabilidade cultural da música popular – ele é um fato cultural, isto não se discute mais.

Como notarão os que analisarem minhas preferências discográficas, sou mais o Dylan setentista, embora goste do que fez antes e depois; são seus discos mais ousados, mais desafiadores de seu público: ou o sujeito se rende aos versos sem tentar rendê-los nas explicações, ou se recolhe ao já conhecido. Como tantos, amo “Its All Over Now,Baby Blue” e “Like a Rolling Stone”, mas me sinto mais próximo de “One More Cup Of Coffee” e “Changing Of The Guards”- não tento tanto entender estas letras, sinto-as, isto mais que basta.

Bob Dylan me impressiona também pela produtividade: há nele um leito de criatividade que parece exigir apenas um mínimo de disciplina para brotar: sempre escreve, testa canções nas turnês, reinventa seu repertório, e escreve prosa, pinta, etc.

Embora consciente da sua posição na Cultura, demonstra pouco apreço pelos seus “explicadores” acadêmicos, e quem não sentiria o mesmo sendo um artista examinado por carreiristas estéreis? Talvez venha  deste desprezo sua prevenção contra autores de livros sobre si, prevenção que abrange boa parte da imprensa, também ansiosa por desvendá-lo, jornalistas ávidos por reconhecimento de suas credenciais intelectuais.

Não cairia nessa se tivesse a oportunidade de me avistar com Bob Dylan.
Não lembraria a ele efemérides; seus setenta e cinco anos serão em breve oitenta, como um dia foram quarenta, e estes quarenta geraram as mesmas efemérides de agora: dizem muito e dizem nada sobre uma pessoa – os anos passam, se a pessoa não morre, os anos se contam; simples, não?

Não declamaria a ele suas letras, ele as conhece; nem sua discografia, idem.

Evocar os anos ‘60? Por que não os ’40 de sua infância, ou os ’50 de sua adolescência? Repisar o já dito em entrevistas e documentários?

”Ei, você é a porra de um pesquisador?”

Os personagens com os quais tem parentesco de relevância já são sabidos, e não gerarão dele mais que o já sugado por entrevistadores nestas décadas todas, e de qualquer maneira, não se comprime vivências e lembranças, de forma ordenada e compreensível, em única conversa.

Pois não haverá outra se não passar no teste. E o teste é ouvir, ouvir, ouvir.
E só depois de muito receber, permitir que o espírito vomite:

“Bob, não vou perder meu tempo, e te fazer lamentar o seu, dizendo como te admiro e o porquê, sempre achei bobagem me justificar por meus gostos e fixações – a gente gosta, e nutre ideias fixas, e ponto.

Você me provoca ansiedade por escrever que transcende o complexo de inferioridade que seu trabalho causa;  por variado, por farto, por não trair medos de: incompreensões, repetições, acusações de plágio. Faz o que acha que deve ser feito, e se sente algum cansaço, não se percebe do lado de cá do balcão. Você é da raça dos homens raros que produzem sem cessar, a quantidade (entre tantos elementos) trabalhando como qualidade; aos chatos que tentam explicar para catalogar, você devolve mais e mais trabalhos que eles dissiparão vidas para explicar e catalogar.

Eu, Bob, se conseguir aplicar um mínimo do que me vem ensinando todos estes anos, produzirei o bastante que justifique minha existência, minha sobrevivência, minha insistência – para você e tudo que você forneceu, que busco pagar”.

Diria isto chorando, atropelando as vogais e consoantes, alheio aos seus bocejos, ou risos.

Mas não me esforcei como o Eduardo Bueno que se esforçou mais que muitos e conseguiu conhecer seu Mestre; ele não mediu esforços.

Eu medi esforços, e posso apenas escrever esta nota.

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