“Notas” – 03/06/2016

Ainda o “Estupro Coletivo”

Leitor amigo me envia email indagando por minha opinião após uma semana do episódio do “estupro coletivo”:

“Houve mesmo estupro? Tudo indica que houve algo errado, mas estupro…”

Bom, admito ter escrito o texto postado sábado sob a impressão das leituras da véspera, e não consegui manter a isenção – qualifico os supostos estupradores como “monstros”, o que não escreveria hoje. Mas não mudo o que penso sobre o que considero grave: a responsabilização da vítima (não deixo de considerar a moça como vítima) e a necessidade de se discutir penas intimidadoras para crimes graves.

Não sei o que houve ali, se foi até certo ponto consensual, ou não. O que sei, o que me parece fora de controvérsia, é que a moça foi exposta na internet – e isto, é sim, violência- e que não faltaram os que se apressaram a condenar a “frequentadora de bailes funk”, a “usuária de drogas”, etc.

Preocupa a elasticidade do termo “estupro” e como movimentos ditos sociais comandam o rumo de investigações de casos que os tais movimentos considerem de competência deles.

O delegado afastado foi acusado de fazer perguntas “constrangedoras”; ora, perguntas em casos como estes são mesmo desagradáveis – não se pode conduzir inquérito envolvendo violência sexual sem indagar quantos foram, quais meios utilizaram, as circunstâncias, e tudo o mais que constitui a “cena do crime”.

A delegada que tomou o comando da investigação me pareceu (na entrevista coletiva) tomada por ânimo de militância feminista, e isto me parece inapropriado para uma autoridade incumbida de investigar uma queixa de violência sexual, pois acusados podem se queixar de pré- julgamento.

A verdade é que este caso foi deformado por militantes que utilizaram o drama da moça exposta na internet (vítima ou não de violência sexual) como arma de afirmação política, mesclando mesmo o episódio com protestos anti – Michel Temer. A dramaticidade que serviria para discutir medidas efetivas de proteção à mulher sendo barateada, desperdiçada, por militância tão feroz quanto despreparada.

Há o auxílio dos que escrevem tolices na internet, vomitando seus juízos de valor em hora imprópria, julgando assim combater as “feminazis” (mal sabem quanto o dito “feminazismo” agradece a ajuda involuntária), quando deveriam aproveitar o momento para apontar contradições e instrumentalizações de um episódio controverso.

Lamento pela moça vítima de facções ideológicas, e pelo desserviço que o tratamento deste caso prestará à causa da punibilidade efetiva de crimes sexuais.

Tudo no Brasil se desperdiça, as oportunidades – surgidas tantas vezes na forma de tragédias – escorrendo pelo ralo da verbosidade vazia, os discursos pré-costurados para caber em quaisquer ocasiões esvaziando significados, o nivelamento mental por baixo se confirmando feroz.

Ah, nivelamento mental por baixo?

Na transcrição em tela da fala do Chefe da Polícia Civil, na qual este adiantava que as imagens poderiam “contrariar o senso comum”, grafou-se, em certa ocasião (e me lembro de ter sido no “GloboNews”, mas posso estar enganado) “censo comum”.

Erro de grafia que, embora possa ser atribuído à pressa, me parece característico de certo jornalismo: ignorante e presunçoso, mas se apresentando como “formador de consciência crítica”.

X

“Não existe ‘Se’ em História, mas…”

Menos de vinte dias de governo e Michel Temer já foi alvo de protesto nas proximidades de sua residência familiar, e na sede da Presidência da República em São Paulo.

Em ambas ocasiões, houve depredação de patrimônio e mostras de disposição para confronto, e que apresenta o Governo? Qual o resultado concreto do murro na mesa semana passada?

A cada reprovação verbal de Temer desacompanhada de punição um avanço. Arremessou-se lixeira e agrediu-se policiais no protesto na porta do escritório da Presidência, e que se anunciou para tranquilizar o País?

Tudo parece destinado a seguir o padrão de punibilidade seguido no caso dos “Black Blocs” que esvaziaram as manifestações de Junho de 2013: nenhum inquérito, nenhuma condenação – tudo admitido como “manifestação da liberdade de manifestação política”.

Eles não recuarão- e quem recuaria?

Estes militantes do governismo ganharam, após o afastamento da Presidente Dilma Rousseff, fôlego que vinha desaparecendo a cada dia. Era isto que temíamos, nós os céticos quanto ao impeachment, e nos vemos confirmados pelos fatos: o PT e seus associados mais fortes que quando no Governo.

Não existe “Se” em História, mas…

Como estariam as forças políticas, caso apenas agora, com as novas descobertas da Lava-Jato se formulasse pedido de impeachment?  Em qual resíduo de autoridade moral os governistas buscariam refúgio? As oposições não seriam mais agressivas, pois mais servidas de munição?

A economia pioraria talvez um pouco mais, mas no passo em que Temer governa, a melhora não será tão veloz como imaginavam os otimistas, e há, para tornar tudo mais sinistro, a possibilidade do retorno de Dilma Rousseff ao Poder, o custo psicológico para as oposições sendo então incalculável.

Agora está feito… o impeachment foi aprovado na Câmara, e o que vier será apenas consequência. Não há “Se” na História, nem marcha a ré – daí a necessidade de um clero intelectual na imprensa substituindo propagandistas e líderes de torcida partidária: o custo de certos erros históricos exige espaço de tempo por vezes superior aio nosso tempo de vida.

Eu teria lutado por uma desmoralização do Governo, com esforço concentrado em barrar políticas desastrosas – ou não existe Oposição para isto?

Quanto tempo mais levarão para perceberem as implicações do “Pós-PT” e os meios de se lidar com elas?

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