“Notas” – 04/06/2016

“Cassius Clay, um dia houve…”

Quando formos todos incluídos sem distinção como gente de certa época (lembro de uma passagem do “Mar da Fertilidade” do Yukio Mishíma, no qual um personagem chega a esta conclusão), corremos o risco de sermos qualificados como integrantes de uma ”época conformista”. O que vemos de covardia e aceitação das leis do rebanho causará a impressão no futuro de que esta porção histórica que nos coube foi uma das mais miseráveis, dias de “homens massa”, seres humanos fabricados em linha de montagem das mais toscas.

Haverá os que talvez nos justifique em uma perspectiva histórica: grandes escritores (o próprio Mishíma negaria, para hipotético tribunal do futuro, o Japão nada heroico de seu tempo), compositores e intérpretes que inspiraram gerações, teatrólogos e cineastas que criaram novas linguagens para contar, e alguns esportistas que encarnaram o mito do herói – houve Cassius Clay, e as décadas em que viveu e brilhou foram em muito justificadas por sua figura.

Não o vi lutar, senão por flashs de documentários. Li sobre ele, e que sei de seu padrão de exigência me inspirou mais que muitos escritores (poucos escritores me inspiram, para ser franco): a firmeza que covardes tomam como arrogância, a recusa em aceitar acordos que minam o auto respeito, a coragem de ser só no mundo de rebanhos, etc.

Lembro de um perfil que li dele em uma edição de “Playboy”; a reportagem retratava-o algo distante da realidade, sofrendo já os sinais de suas dificuldades, mas lúcido até o osso: lamentava não ter parado quando ainda era um mito; quantos lamentam com franqueza ter prolongado a exposição no limite da decadência? Esta reportagem me fez ler mais sobre o lutador. Li em edição comemorativa de “Realidade” a reportagem de Norman Mailer sobre sua luta com Joe Frazier (fotos de Frank Sinatra!), a “Luta do Século”, da qual saiu derrotado.

Mailer descreve a excessiva confiança de Clay, seu desleixo no treino para luta que contava já como ganha – “Perigoso sentir assim o status de Vencedor”, o texto parece dizer.

Não li “A Luta” de Mailer, sobre sua vitória sobre George Foreman, no Zaire, mas assisti a trechos do documentário sobre a luta, “Quando Éramos Reis”, e não há dúvida que foi um evento épico, com personagens também épicos.

Onde foi dar este sentimento heroico? Em qual ponto do caminho a humanidade desistiu dos sonhos de grandeza e amoldou-se à mediocridade, adotada como sabedoria na batalha pela sobrevivência?

Peguei já os dias de Mike Tyson, épico à maneira de seu tempo – brutal e cínico. Tyson foi vencido pro seus apetites, e seu retorno ao ringue foi melancólico, a mordida na orelha de Evander Holyfield sendo a imagem -símbolo.

Hoje muitos dos interessados por luta e ansiosos por encontrar novos heróis buscam as lutas de MMA; Anderson Silva sendo um ícone deste momento, Jon Jones prometendo se tornar já uma lenda (possui todos os elementos para isto), a saudade da dimensão de Muhammad Ali inspirando esta busca (hoje estes ídolos reverenciaram Ali).

Seus gestos de desafio ao “Sistema”, sua militância política, suas frases já incorporadas ao repertório dos ditos revolucionários; tudo além do ringue o confirma como lutador.

Contemporâneo dos rebeldes urbanos dos Estados Unidos, inspirou milhões de negros mundo afora, e se muito da luta pelos direitos civis perdeu força simbólica, é que muito do simbolismo de forma geral se esvaziou nas últimas décadas. O rap e o cinema de realizadores como Spike Lee devem muito a Clay – mesmo no Brasil inspirou Jorge Ben (que compôs música dedicada ao lutador, ”Cassius Marcelus Clay”) e Caetano Veloso que cita-o em “Um Índio”.

Quantos esportistas antes dele transcenderam seu raio de ação? Mesmo na publicidade, hoje lutadores vendem perfumes, ternos, etc, escapando do nicho do marketing esportivo.

Bom, estou chovendo no encharcado, todos sabem o que este homem significou no Séc. XX, e não foi mole em ser relevante nas décadas dos Beatles, Bob Dylan, combatentes  no Vietnã, e toda a fauna das décadas de ’60 e 70 – pouco restou para ser desbravado; hoje é quase impossível arranhar a superfície da relevância.

Isto talvez tenha contribuído mais para a reclusão de Ali nas duas últimas décadas que o Mal de Parkinson, o sujeito deve ter se exaurido da exposição, ou se convencido de ser relíquia de dias menos plácidos e mesquinhos; tudo, da década de ’80 para cá, parece pequeno e opaco comparado às décadas anteriores: arte, política, mudanças comportamentais – a AIDS apenas fornecendo o pretexto médico para recolhimento que viria como ressaca da grande festa da revolução sexual.

Estarei extrapolando o tema Cassius “Muhammad Ali” Clay? Penso que não – ele representou tudo isto, e seu ocaso coincidiu com o recesso destas forças. Não percebem a ligação estreita do personagem com seu tempo?

Haverá outras décadas heroicas à frente, acredito. A Humanidade um dia vomitará tanto conformismo e mediocridade e buscará seu novo renascimento – não estarei aqui para testemunhar, mas adivinho quais símbolos e exemplos serão invocados nesta jornada – os que deixamos escapulir, ou gastamos sua força icônica – e Cassius Clay será, com certeza, um deles: haverá jovens que perceberão o quanto terão que desafiar da esclerose herdada de seus pais, e um lutador com inquietações político – intelectuais será uma síntese inspiradora neste embate contra o politicamente correto e outras doenças do nosso tempo.

Este evento – sua morte física- devolveu Ali ao centro do ringue histórico: tempo de rever vídeos de suas lutas, entrevistas, rever sua cinebiografia, ler os textos referenciais do jornalismo literário sobre ele: é o que podemos fazer por nós, neste momento frio, morto.

Eu tratarei de ler o livro de Mailer, leitura que me prometo faz tempo.

Miles Davis se declarava um aprendiz da disciplina dos lutadores; sua disciplina como musico viria desta escola de rigor concentrado.  Norman Mailer era um apaixonado por boxe.

Sou um fugitivo do ringue, e hoje me envergonho.

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