“Notas”- 02/09/2016

Trabalhar pelo blog, e não viver dele, causa os atrasos que leitores notam:

“Pawwlow, que achou das Olimpíadas?”

“Pawwlow”, pensei que você fosse comentar a entrevista do José Eduardo Cardoso no ‘Roda Viva’. Fui correndo no teu blog para conferir e …nada.”

“Pawwlow, você escreverá sobre o Geneton Moraes Neto?”

Tomei notas sobre estes assuntos, e publico agora.

Que leitores perdoem o atraso – e divulguem um pouco mais o blog, no lugar de apenas cobrar textos. Custa nada, né?

 

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Olimpíadas

Miles Davis e Norman Mailer declararam-se tributários à disciplina dos atletas: o músico e o escritor produziram, por décadas, discos e livros, invulneráveis às intempéries, não acusando necessidade do que leigos chama de “inspiração”.

Não são assim os atletas, treinando alheios à falta de condições, às dores físicas e aos desafios que se apresentam intimidadores? Não é a primazia do espírito sobre o corpo o que anima à disputa com outros seres também disciplinados e com a mesma decisão de triunfar?

Esta Olimpíada forneceu aos milhões de desesperados – com toda razão de o ser – suas imagens símbolo, suas sínteses de anos de esforço condensados em performances que já são históricas:

O herói do salto com vara Thiago Braz, os já mitológicos Michael Phelps e Usay Bolton (que desmoralizaram superstições sobre excessiva autoconfiança), os nossos vingadores do vôlei (Wallace merece uma escultura), a artista Simone Biles; tantos, tantos – mesmo os que não conseguiram seu ouro (ou sequer medalhas) contribuíram neste épico.

Falar em épico, a Seleção Brasileira, com um Neymar determinado a emudecer críticos ligeiros, me emocionou como há muito, muito tempo não me emociono.

Cito os que me ocorrem e deixo outros tantos atletas e seus momentos que me tocaram de fora destas linhas. Apenas registro que assisti, como nunca antes, um evento que sabia destinado a marcar época. Comove saber que estamos diante de algo que teremos orgulho de ter participado como público, ainda que doméstico.

Foi uma celebração do esforço cotidiano, a corporificação da fé no trabalho, descuidada dos resultados incertos – há o Destino, mas este premia, ao seu modo, os que não se permitem desistir, e que cumprem cada treino com o esforço absoluto de quem não admite outra forma de vida.

Outro Brasil teríamos fosse este o ânimo de escritores, jornalistas, estudantes – gente que tem a responsabilidade por milhões que não dispõem das armas da palavra e da capacidade de planejamento: o esforço concentrado, condensado, a ação comprometida com a ação contando como adicional valioso qualquer resultado, são virtudes estranhas a quem entre nós goza o Poder.

As regras de etiqueta, o cultivo de amizades lucrativas (e o correspondente abandono rude de amizades discutíveis no mecanismo de ascensão social),  o esforço mínimo, as espertezas miúdas, compõem o tempero de nossa refeição diária.

As cerimônias de abertura e encerramento não estiveram dignas dos jogos, lamento. O misto de discurso pseudo  (tanto cultural quanto político) e nivelamento por baixo conseguiu banalizar mesmo os momentos de beleza e artesanato sutil. Exibir joias numa “instalação” de lixo tem o resultado invariável: reconhecemos o brilho, mas com o nariz tampado, contendo o vômito. Mas como se convencionou entregar, neste país, tudo ligado ao espetáculo na mão destes sub – intelectuais…o Japão com sua amostra me matou de vergonha e ódio pelos que decidem as coisas culturais no Brasil.

Não escrevo que foi um misto de desfile de escola de samba de quinta com o “Esquenta” da Regina Casé (sim, claro que ela estrelou a coisa) porque já devem ter feito esta mesma analogia – e porque também não pretendo competir com os tweets do Renzo Mora nas ocasiões das duas cerimônias.

O que reitero é minha reverência às pessoas que com seu compromisso em dar nada menos que tudo, conseguiram medalhas, ou mesmo sem as conquistar, comoveram com suas demonstrações que justificaram o anúncio de outras tentativas. Estas pessoas desmentem a leitura tacanha do conceito de igualdade, pois se venceram, vencem ainda e animam outros tantos a combater contra os inimigos do triunfo na vida – e que, portanto, vencerão através destes que seguem seus exemplos.

São pessoas que negam a tirania do Possível.

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José Eduardo Cardoso no “Roda Viva”

Augusto Nunes respondeu às críticas de seus leitores ao programa “Roda Viva” com José Eduardo Cardozo com o desafio: “Qual pergunta faltou? Faça!”

Bom, leitores não são pagos para imaginar perguntas que um profissional remunerado deve fazer – têm o dever, como consumidores conscientes, de notar falhas e cobrá-las, apontar imprecisões e omissões.

Os jornalistas agiram como meros leitores de jornais e não como profissionais que deveriam (em tese) conhecer certos pormenores da acusação no processo de impeachment da Presidente afastada Dilma Rousseff para melhor arguir seu advogado.

A impressão que tive – e que, pelo visto, outros tantos telespectadores tiveram – foi a de que estes jornalistas não têm se reunido com advogados para tirar dúvidas sobre o processo que cobrem como jornalistas, ou que mesmo leiam o que houver de disponível.

Como orador a quem ninguém nega talento cênico e habilidade no manejo da lógica, Cardozo deu show, esta é a verdade. Conseguiu mesmo emudecer os jornalistas, quando não arrancou sorrisos com suas graças. Não se afastou da tese da negação do crime de responsabilidade, e como não encontrou conhecimento consistente de seus inquisidores, bailou e assoviou nesta sua prévia do que fará no julgamento no Senado (Nota: que já se passou o Julgamento, e estas notas só não foram confirmadas de todo, pela determinação certa da cassação, pelos senadores).

O desnível na exibição de informações entre o entrevistado e os jornalistas propiciou a Cardoso confirmar sua figura de “Professor” e “grande advogado”, louvada por Elio Gaspari.

Este programa foi um auxílio e tanto, uma oportunidade de consagração, diria.

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Geneton Moraes Neto

Vinha pensando no Geneton Moraes Neto nestes dias que antecederam sua morte: suas entrevistas com Ivan Lessa e Nelson Rodrigues (disponíveis no site G1) me provocavam vontade de tentar algum contato; tenho a mania de tentar contato com minhas admirações, minhas tentativas sempre confirmaram as contra recomendações a esta prática, mas enfim…fui apanhado neste adiamento do email ao jornal.

Soube do Geneton por sua parceria com Joel Silveira em dois livros -reportagem: o que tratava sobre a colaboração de intelectuais de esquerda em jornal pró nazista “Meio-Dia”, “Hitler/Stálin, o Pacto Maldito” e “Nitroglicerina Pura” sobre a observação de nossa classe política pelos serviços secretos de Estados Unidos e Inglaterra.

Um artigo que li,por esta época, publicado na revista “Imprensa”me impressionou: Geneton comparava os arquivos de televisões e de bibliotecas, concluindo pela superioridade humilhante no armazenamento de informações, pelo papel impresso. E sempre que lembro deste texto, me impressiono, pois projeto a comparação à internet: ainda é ridículo o volume de informações disponíveis para consulta na internet comparada às bibliotecas e arquivos.

Anos depois fui apresentado à sua figura televisiva, e esta me parece confirmar sua tese: suas matérias mais interessantes ainda são as publicadas em papel, agora disponíveis, algumas, na internet.

Uma consciência que fará falta, enfim. Talentoso e interessado, junta-se aos mitos do seu ofício, alguns entrevistados por ele.

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