“Notas”- 03/09/2016

Impeachment

Dilma Rousseff, Ricardo Lewandowski e Aécio Neves sorrindo na cabeceira da mesa do Senado – imagem síntese deste processo de Impeachment.

Não, não estou supondo, como tantos palpiteiros de internet, que o processo foi todo ele uma farsa, uma palhaçada, uma troça dos milhões de brasileiros que acompanharam, discutiram, se apaixonaram enfim, por este capítulo da história brasileira.

Carlos Lacerda explicou no “Depoimento” o convívio no ambiente parlamentar, os gestos mínimos de gentileza e tolerância no trato que talvez desconcertem os não apresentados à realidade da política institucional. O que não significa adesão ou conivência.

Como muitos destes polemistas de redes sociais são deseducados por imprensa que lida com a realidade política como quem cobre futebol de várzea, a incompreensão sobre este flagrante de relaxamento no meio de um processo tenso é compreensível.

Meu ponto de fixação com esta imagem, que julgo emblemática, é a natureza do que foi o processo: brasileiros esperavam muito deste impeachment; “limparemos o Brasil desta gente”, “é chegada a hora destes vagabundos conhecerem o que merecem”, foram refrões entoados por milhões que acreditavam que tudo dependia apenas da remoção da ocupante de um cargo eletivo. Nunca esperei que a história estivesse atravessando uma trilha decisiva. Os líderes flagrados rindo – de alguma lembrança do anedotário político, ou de um dito espirituoso emitido por algum deles- são isto mesmo, líderes. Líderes cuja trajetória em suas respectivas carreiras independe de um processo de impeachment. Todos os três continuarão a ser figuras de referência; positiva ou negativa, mas referência- em seus territórios de ação.

Ainda que a cassação dos direitos políticos de Dilma Rousseff fosse aprovada junto com a cassação do mandato presidencial (ou na votação “fatiada”), ela ainda poderia correr o País – e o Mundo- como ativista. E o Ministro Lewandowski e o Senador Aécio Neves continuarão a militar um na advocacia (quando deixar enfim o Supremo Tribunal Federal) e outro na política partidária. Resumindo: esperava-se muito de algo que não acarretará mudança profunda nem mesmo na biografia dos participantes deste algo.

“Ah, mas Dilma perderá o foro privilegiado, e poderá ser alcançada pela Justiça”. Bom, o foro privilegiado seria perdido em dois anos, não? O que tiver de haver com a Sra.Dilma Rousseff na Justiça depende muito pouco – ou menos do que imaginam afoitos – dela continuar Presidente, ou ser removida do cargo. Seu Poder como ativista, e figura referencial foi em nada atingido -talvez tenha aumentado, até.

Este processo foi um atalho para 2018: lideranças já se projetam para esta data, parecendo considerar o intervalo de tempo que os separa deste ano um acúmulo de dias a vencer com algum tédio. Ou alguma reavaliação de estratégias.

Tenho escrito aqui no blog sobre o que será o “Pós-PT”, e me vejo confirmado por antigos simpatizantes da sigla que se referem a ela como algo já vencido na História. Os participantes da foto já clássica vivem nele já; por exemplo: quem poderá afirmar o quanto Dilma Rousseff talvez tenha se aliviado do fardo de um mandato destinado a acabar muito pior que as piores hipóteses? Quem imagina os planos para o futuro da agora ex-Presidente,  e dos ainda Ministro do STF e Senador? Esta minha percepção deste processo e de sua representação icônica (a foto dos líderes confraternizando): atalho para o “Pós-PT”.

Ter memória boa tem suas vantagens (a desvantagem é o que se consome em especulações sobre o que poderia ter saído diferente do que houve na vida): espera-se das coisas o que elas podem render, mata-se muita fantasia ainda nascendo; matéria de “Veja” (acredito que dos anos ’90) retratava o que parecia à publicação sintoma de demência de Fidel Castro: o líder zombava dos que o tomavam como “relíquia dos dias do comunismo”, como um “morto político”: “Este morto ainda pode fazer planos, este morto… ainda não morreu”. A História da América do Sul o confirmou: o “moribundo” ganhou adesões e financiadores mais que em décadas anteriores, sem ceder em um nada.

Mas alguém aprende algo com História no território identificado como “Direita”? O sentimento de triunfo precoce é uma espécie de obrigação a seguir; observadores críticos são afastados como “pessimistas profissionais”, alarmistas, etc. E assim os “perdedores” desta hora se recolhem para retorno que talvez seja mais para breve que se imagina.

Como cantar vitória sobre movimento que tem, entre suas ramificações, jovens que partem para a violência enquanto autoridades esperam que eles caiam no descrédito? Como sentir-se em outra etapa histórica quando estes militantes encontram apoiadores na imprensa sem que qualquer destes apoiadores seja importunado como apologista de violências? Como acreditar que “o pesadelo do PT terminou” se Universidades, e torno a escrever, setores inteiros da Imprensa, estão sob o domínio do partido “vencido”?

Quando Petistas e “Pós-Petistas” entoam o slogan “A Luta Continua”, fazem-no à sério, acreditam que o que houve foi um contratempo, contratempo que deve ser tomado como fortificante. Não recuarão, têm a virtude de jamais recuar, apenas recolher-se para traçar novas escaramuças. Apoiam-se, procuram adesões transpondo divergências menores, enquanto seus adversários não se preocupam com este “pormenor”, as divergências pontuais servindo como fatores de dispersão.

A Esquerda apoia e divulga seus simpatizantes, a Direita (que tanto brada por “meritocracia”) promove autores por compadrio, ou por ligações familiares, ou ainda por critérios de simpatia pessoal, ou etiqueta social.

O que se assistiu neste julgamento demonstra que estes militantes não respeitam qualquer autoridade senão as de seus movimentos políticos; o desrespeito aos colegas de Senado e mesmo ao Min.Lewandowski demonstra o quanto eles estão dispostos a ir, e a nada ceder.

Não houve preparo por parte dos adversários deste sistema, esta é a verdade reiterada pelo atropelo à Constituição (a votação “fatiada”): mesmo os senadores mais combativos (e o País foi apresentado a muitos líderes promissores neste Processo, e à revelação Janaina Paschoal) mostram ainda precisar de maior apuro teórico, de maior articulação.

O Sistema continuou de pé, e isto explica o sorriso de três de seus representantes (embora dois atuem em alas diferentes, e um terceiro seja “neutro”): a combustão popular foi abortada, a panela de pressão tirada do fogo. Um país onde populares, pela primeira vez em sua História, discorriam sobre ministros do STF como antes faziam apenas com jogadores de futebol, foi devolvido à apatia e à delegação covarde de suas obrigações à classe política, ciosa de seus interesses, de sua sobrevivência como classe.

Como escreveu Cláudio Abramo sobre o malogro do Plano Cruzado: “Não deu. É assim mesmo. Fica para outra vez.”

Haverá outras ocasiões, esta foi desperdiçada.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s