“Notas”-07/09/2016

“Um Sete de Setembro Histórico”

Um Sete de Setembro no qual o Presidente da República não desfilou em carro aberto nem envergou a faixa presidencial – sim, foi data memorável. Um Sete de Setembro histórico.

Mas não “pusemos os farsantes para correr”, como garantem articulistas de “Veja”, e replicam em redes sociais outros tantos de analistas de internet?

Há um processo de desmoralização do impeachment muito bem executado – petistas, parapetistas e pós-petistas não venceram as votações na Câmara dos Deputados e no Senado, mas trabalham no campo que dominam – movimentos sociais e setores inteiros da imprensa-  para tornar a destituição da Presidente Dilma Rousseff uma vitória de Pirro. E para este processo de desmoralização há um vazio de atitudes como resposta.

Como os antagonistas deste sistema de forças não se prepararam para a hipótese da remoção da Presidente ser esvaziada de símbolo, tentam justificar os recuos simbólicos mais aviltantes de qualquer ideia de autoridade presidencial: “São poucos, não vale a pena estimular confrontos”. “Eles querem isso: que o Presidente aceite provocações.” “Para quê desfilar em carro aberto e de faixa presidencial, há alguma dúvida de que Michel Temer é o Presidente?”

Não me imagino Presidente, mas num exercício de projeção mental, eu me sentiria incomodado com um posto cujos atributos simbólicos eu tivesse que me abster de ostentá-los, numa esquiva humilhante de confrontos.

Aos jornalistas brasileiros que me repetissem, colonizados e preguiçosos, acusações quanto a um “Ministério de homens brancos”, eu não recomendaria estudo e concentração na melhora do que fazem, uma vez que gozam de reserva de mercado para formados em Comunicação? Não exigiria segurança reforçada para desfilar em carro aberto no feriado cívico mais importante do País? Não daria entrevista acusando a nenhuma espontaneidade das manifestações? Não pudesse manter estas atitudes, eu perceberia a Presidência como um alvo atado às costas, um cartaz de “Cuspa neste otário” que só poderia removerem data fixada pelo calendário eleitoral.

Temer suporta provocações com o semblante de quem acredita lidar com ciscos passageiros, com mal entendidos. Aos berros e vaias, o rosto de quem nada percebe de digno de reparo. Não falta quem veja nesta atitude e neste temperamento, sabedoria e equilíbrio emocional, mas em política, estas virtudes podem se converter em vício, pois é atividade irmã da guerra. E querem guerra; não desejam apenas negar-lhe o reconhecimento do cargo que ocupa, mas sua humilhação diária, humilhação que não cessaria nem mesmo com uma renúncia, pois tratam-no como um traidor e traidores…

O que parece grave é que, além dos traços de um temperamento reservado e avesso aos confrontos diretos, Temer conta com gente que aconselha a lidar com estas ameaças com a fleuma de quem assistisse a um balé de possessos, nada mais.

Mas há algo maior que escolhas pessoais, os símbolos que transcendem mandatos presidenciais e particularidades de seus ocupantes transitórios: celebrações cívicas que são parte da identidade de um país, e que não podem sofrer modificações ditadas por abalos de ocasião; comícios de improviso, passeatas de movimentos ditos sociais, marchas de setores organizados e/ou cooptados por máquinas partidárias.

Lembro do Sete de Setembro do ano passado, o último sob Dilma Rousseff, os militares marchando ocultos por muros, os tais movimentos sociais servindo como carros alegóricos do desfile, e o escândalo à época.

Pois o escândalo deste Sete de Setembro deveria ser maior, pois foi Sete de Setembro sem Chefe de Estado identificado, ou impedido de se identificar, o que dá no mesmo.

Caso Michel Temer não se sinta preparado para presidir a próxima celebração, que se declare também impedido de presidir o País.

X

Aloysio Nunes no “Roda Viva”

Amigos me perguntam sobre a entrevista do Senador Aloysio Nunes no “Roda Viva”da última segunda-feira.

Bom, quem não esperava alguma combustão gerada pelo entrevistado? Orador combativo, de passado de indiscutível coragem pessoal, era entrevista necessária neste momento de hesitação e cansaço de tanta espera.

José Nêumanne Pinto lembrou tudo o que marcou o processo de impeachment: as manobras, a grosseria dos então governistas, as mentiras deslavadas, a disposição de distorcer informações e mesmo textos jurídicos. Parecia tomado pela fúria de quem estivesse recordando algum massacre e cobrasse, com a mesma fúria de testemunha ocular, fúria do líder político ali entrevistado, e o que teve como resposta? O discurso do “bom senso”, o qual assegura que “todos verão quem é quem, no devido tempo.”

Protestos ruidosos? Ah, minoria de militantes que não representam nada além deles próprios. Apresentar ao País o estrago deixado como presente para esta e futura gerações? Deixa disso, o negócio é olhar para a frente, não precisamos mostrar nada, todos sabem.

Claro que não faço citação textual (e não preciso, o programa está disponível no YouTube), mas o espírito das respostas era este: “nada de confrontos, não precisamos disto”.

Quem não se irritaria com respostas deste tipo? Os jornalistas Nêumanne e Augusto Nunes poucas vezes soaram tão enfáticos nas réplicas, tão impacientes com a paciência de um membro da classe política, a qual possui seu próprio sentido de tempo.

Mas pergunto: onde esta indignação quando o monstro estava ainda se robustecendo? Eu e outros leitores da coluna de Augusto Nunes na “Veja” cansamos de alertar para a imprensa governista que estava se espalhando (pois replicada por inúmeros blogs de militantes do governismo) como fogo na palha e obtínhamos nós, alarmistas, o discurso paciente  (“de quem sabe das coisas”), do jornalista, desta vez alarmado com o discurso paciente, (“de quem sabe das coisas”), do Senador. A vida exerce ironia amarga, muitas vezes.

Ah, como gostaria de ter assistido esta indignação do jornalista quando da visita do advogado de Defesa de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardoso. Cardoso, em dado momento, condenou a divulgação de telefonemas pela Operação Lava-Jato, pois representou perigosa abertura de precedente, pois qualquer um poderia ter a vida devassada, até jornalistas, e disse, apontando os membros da “Roda”: “Talvez casamentos acabassem se telefonemas fossem divulgados” .

Não seria bom que houvesse por parte dos jornalistas, sobretudo do mediador, algum protesto, ainda que em tom de brincadeira: “O senhor fale pelo senhor, se teme que seus telefonemas sejam divulgados, problema seu, não temos nada a esconder…”?

Pois o que houve foi silêncio, e não acredito no “efeito surpresa”, não para jornalistas experimentados. Houve falta de vontade de questionar, de enfrentar, de responder ousadia com mais ousadia. Não se poderia deixar este desaforo sem resposta.

E agora cobram do senador atitude que eles, que gozam do Poder como “formadores de opinião” não apresentam em momentos em que se exige que se tome posição?

Esta classe política, esta classe jornalística… pobre o povo cuja sorte depende delas.

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