“Notas”-10/09/2016

“Tudo começa assim mesmo…”

E me vi prisioneiro de manifestação anti – Michel Temer aqui em Belo Horizonte, ontem. Estava dentro de um ônibus, o qual ficou parado cerca de vinte minutos, pois o trânsito estava amarrado por manifestantes e acompanhamento policial vistoso, com diversas viaturas e patrulhas motorizadas. No ônibus que eu me encontrava, apenas impaciência com a situação e indiferença política (com exceção de uma jovem, com jeito de universitária ”patricinha” que aplaudia, e que fechou a janela junto a si, pouco se dando com o calor dos demais passageiros). Nos pontos de ônibus, apatia, cansaço, irritação.

Era “massa de laboratório”: universitários (decerto desceram da UFMG e ganharam adesões da “Newton Paiva“, ao longo da Av.Carlos Luz, antes de desembocarem na Pedro II e tomarem o Elevado Castelo Branco em direção ao Centro) e militantes de movimentos ditos sociais. Massa de laboratório sim, mas com centenas de membros, e organizada, batendo seus tambores e gritando seus slogans em ordem, exibindo organização.

Não havia “povão” ali, era coisa de povo com bandeira e carteirinha de sindicato, e estudantes, mas não tinham contra si qualquer oposição, apenas indiferença cansada da maioria e aplauso do segmento que sempre simpatizou com este cordão. Mas quando foi diferente?

Tudo começa assim mesmo, as Jornadas de Junho de 2013 também foram iniciadas com material humano e número semelhantes, e cresceram, cresceram…agora o alvo é o governo de Michel Temer. Os políticos que o cercam e o aconselham podem tentar iludi-lo com anestésicos numéricos, mas a pontada da desaprovação popular expressa em manifestações cada dia mais volumosas não tardará.

Quando medidas impopulares forem tomadas (e a falta de imaginação da classe política e dos tecnocratas sempre leva a medidas recessivas) e a reforma da Previdência mostrar seu lado mais injusto, multidões se juntarão aos barbudinhos e moças de saião hippie.

E será o triunfo do “Pós-PT”, já atuante, pois ignorado por classe jornalística preguiçosa, que se alimenta do que oferece a…classe jornalística. Poucos (entre estes poucos o blogueiro aqui) vislumbraram o renascimento das Esquerdas com as peças não danificadas das estruturas do próprio PT, mais PSOL, mais “Rede”,  mais movimentos sociais os mais diversos…apostaram todas as fichas numa “limpeza pelo impeachment”, e não atentaram, estes jornalistas tão bem embrulhados em terno e gravata (e tão bem iludidos por “cientistas políticos”), aos movimentos dos que não conhecem descanso nem férias.

E promovem suas marchas e suas greves, e as promoverão sem descanso até 2018, ou até uma renúncia do “traidor” Michel Temer. Não parecem dispostos a qualquer recuo, mesmo porque percebem o atual governo como detentor do monopólio do recuo. Jornal inglês acusa “ministério de homens brancos”? Corre-se para encontrar alguma mulher disposta a servir como ministra para um governo que se destina curto. Cercam a residência particular do Presidente em São Paulo, com sua família? Nada de processos aos promotores da agressão, não vale a pena. Movimentos ditos sociais anunciam protestos para o Sete de Setembro? Deixemos a faixa presidencial posta em sossego, e nada de desfiles em carro aberto, para quê responder às provocações?

E assim oponentes se fortificam e se animam a caminhar sob o sol e sob a chuva, ambos elementos amigos do manifestante convicto de sua missão de desestabilizar o que já se encontra bambo, por estabilizar. Há um vácuo de vontade, não de autoridade, como supõem ingênuos que acreditam na autoridade automática do cargo. Vontade de enfrentar discussões, de recorrer aos meios de comunicação de maneira mais eficaz, de falar ao povo brasileiro sobre o que se herdou. Esta vontade não virá quando as massas insatisfeitas e premidas pelo custo de vida se juntarem, enfim, aos militantes do “Pós-PT”.

Ia esquecendo: avistei bandeira do MST, mas não do PT. Cartazes exigindo a queda de Temer e apelos às causas mais diversas, mas nada de bandeira do PT. Não vi broche, ou camiseta do partido, nem me lembro de gritos exigindo a volta de Dilma Rousseff, ou lamentando sua queda. Vi, resumindo, o “Pós-PT” tomando as ruas, depurando as Esquerdas de seus elementos desmoralizados e impopulares. Vi profissionais; tão jovens e tão competentes.

Foi mais rápido que o previsto? Bom, tudo é mais rápido que o previsto, quando não se prevê coisa alguma, não? Quando se está ocupado comemorando o que não merece qualquer comemoração, não se repara na recuperação de quem sequer fora ferido de modo a retirar do combate. E assim agiram a classe política e a classe jornalística, exceto as facções destas classes sintonizadas com o projeto do “Pós-PT”. O resto…encomendando champanhe, redigindo textos grandiloquentes, rindo, rindo…de olhos fechados e boca aberta.

Janaina Paschoal acusou Fernando Henrique, em seu perfil oficial no twitter, de “engenheiro de obra pronta”, em se tratando de impeachment. Bom, a classe política foi toda ela especialista neste setor da engenharia, não? Como levar a sério quem assistiu o Brasil se degradar, emitindo (sob muita insistência, diga-se) apenas protestos morais vagos?

Janaina Paschoal parece ser pessoa bem intencionada e séria, mas parece estar acordando agora quanto ao que responde por Oposição em nosso desafortunado país. Tentarão raptar o mérito dela e de seus companheiros, e só não o conseguirão porque o impeachment se dissolverá na desaprovação ao governo que se seguiu a ele. Cruel assim.

Otimistas apostam numa recuperação de Temer, esquecidos de que não haverá mais que um ano e alguns meses para que o presidente possa legar algo, e não está mostrando a velocidade necessária para o intervalo de tempo que lhe cabe. Como não soar como um urubu, ou um corvo, sendo lúcido neste momento do Brasil?

São as oportunidades que a História oferece caprichosa aos povos jovens, ao que parece por ironia, para gozo próprio. A História parece brincar com os brasileiros como deusa que sabe que não terá resposta inteligente aos seus enigmas. Isto me lembra muito brincadeira que via, todo domingo, no programa infantil do Silvio Santos,”Domingo no Parque” – nela, uma criança, fechada numa cabine, trocava uma bicicleta por uma caixa de chicletes, ou se recusava a trocar a caixa de chicletes por um par de patins, ou trocava o par de patins por caixa de fósforo… pois não ouvia a pergunta, exceto em parte: “Troca ou não troca?”

Os pais no estúdio e crianças em casa se contorciam pelas crianças na cabine, pobres crianças nas mãos do apresentador, há, há…

“Trocam um governo se desmoralizando no limite da queda própria, por um governo desmoralizado desde o começo?”

“Trocam a desmoralização de toda a Esquerda brasileira por desmoralização da sua porção governista apenas?”

Os leitores dos livros de História de décadas à frente se contorcerão por nossas escolhas.

Enfim o trânsito foi liberado e me vi libertado deste pesadelo, destas reflexões sem Poder. Os tambores e gritos acompanharam-me ainda por minutos.

Por horas, por muito mais.

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