“Notas”-16/09/2016

Eduardo Cunha e Lula: Uma semana em dois atos

Sou dos que não se espantam com as comparações entre Lula e Jesus Cristo, formuladas pelo ex-Presidente. Não é a primeira vez que Lula traça este paralelo, se minha memória não me é traiçoeira. E apostaria que ele tem para si certas vantagens em relação ao personagem ao qual se compara:

“Cristo, veja… foi um excelente camarada, um cara indiscutivelmente à frente do seu tempo. Mas que cometeu o erro de não buscar diálogo com o seu tempo, sabe…ele menosprezou a importância do marketing na sua comunicação com os homens de seu tempo. Com o companheiro João Santana, ele poderia ter faturado muito mais no tal caso da multiplicação dos pães…”

Lula me pareceu consciente do momento histórico que o castiga nesta fase de sua vida – mesmo que ele não vá preso, ou se for, não se demore na cadeia, Lula sabe que não será fácil o retorno aos dias de passeios na carruagem da Rainha da Inglaterra, ou recepções nos principais palácios do Mundo. Seu partido é agora dono de votos esparsos, dependente de eleitorado cativo dos programas assistenciais, cada vez mais mirrados.

Muito se falou de seu apelo à militância, comparou-se esta ideia ao chamado de Fernando Collor por vestes “verde-amarela”, com o resultado conhecido… mas não vi, ou li, espanto por Lula ter convocado a militância a assumir as cores da legenda quando muitos dos eleitores de Dilma Rousseff na última eleição relutavam em se apresentar como petistas (“Não sou petista…mas votar no Aécio…”). Lula precisava antes exigir que petistas voltassem a colocar plásticos do partido nos vidros de seus carros, e cartazes não mais escondessem a estrelinha vermelha. Isto me pareceu grave, Lula sempre dominou o conhecimento de seu tempo.

Não me entrego às especulações sobre seu choro, aluno ou não do “Actor’s Studio”, Lula sempre foi emotivo e emocionante – não protagonizou o palco da política nas últimas décadas por um cochilo da plateia – sempre me irritei com os simplistas que o julgam estúpido ou caipira; Lula conseguiu muito mais na sua educação “de ouvido” que muito pedante com as vistas gastas na leitura. Anos de convívio com intelectuais, conversas com Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, para ficar em dois exemplos, sempre deixam algo na mente do interlocutor, não? Lula é inteligente, e foi esta inteligência que o devorou, penso.

Uma inteligência deseducada – e não falo de educação formal – sempre devora seu portador: há a tendência à fuga da razão no sujeito que se entende como dono de capacidades incomuns. Os intelectuais que o adotaram como ícone, embevecidos, também contribuíram para que Lula na se lapidasse (“leitura vai estragar este gênio intuitivo”, o refrão desta gente) e os estragos deste processo de montagem de um “intelectual orgânico” parecem indiscutíveis.

Os demais participantes da cerimônia, do pronunciamento após a denúncia de Lula pelo Ministério Público, cumprem sua parte na encenação da “luta final pela honra do PT”. Apenas os mais primitivos e incapazes ali me pareceram comovidos de verdade; os outros, mais experimentados e conhecedores de Política já se encontram em outra fase histórica, o que denomino “Pós-PT”. Tragédia ali, para estes, apenas a pessoal, de Lula.

Lula não parecia preparado para o momento que julgou que não chegasse em seu tempo de vida. Fez mesmo ironia, tempos atrás, sobre processos que ocorreriam, caso ocorressem, apenas em prazos remotos. Tudo correu de outra forma, porém.

E daí surge o medo – de ser preso, de ter a vida exposta, da perda da imagem pública além de qualquer possibilidade de reabilitação; a queda, enfim, após décadas de sucesso.

E Lula nunca precisou do cargo para ter influência, se pensarmos bem.

Sindicalista conhecido no plano internacional, dirigente de um partido de ramificações em setores importantes da sociedade, Lula teve o Poder. E o Poder não perdoa quem não o sabe preservar, quem descuida de seu cultivo. Continuasse como líder de Oposição, ou se abandonasse pretensões de eternizar seu partido e ai próprio no plano institucional, Lula atravessaria mais algumas décadas de prestígio e tranquilidade.

Deve se perguntar agora quem enfiou em sua cabeça fantasias de se tornar o Fidel Castro brasileiro, o líder perpétuo do “Foro de São Paulo”. Fantasias que representam, se realizadas, bem menos que Lula conseguira até então em sua vida – bem poucos brasileiros conseguiram o que ele conseguiu, pensando bem.

Foi um ato que penso de classificação – se tragédia, drama, ou comédia –  problemática nesta semana de turbulência do Poder.

Outro ato de classificação problemática foi a cassação do mandato do Dep.Eduardo Cunha. O Poder, fruto de seu conhecimento enciclopédico do regimento da Câmara dos Deputados e das engrenagens partidárias, não fora cultivado como exigia.

Houve soberba e confiança excessiva em companheirismos questionáveis – que se revelaram movediços nos momentos decisivos: “Sei de muita coisa, conheço muita gente que na hora H saberá me poupar, para poupar a si”, parece ter pensado Cunha em todos estes meses de espera do momento que, também parece (não posso afirmar) o ex-presidente da Câmara acreditou que não chegaria, ou chegaria enfraquecido; sua salvação, ainda que por poucos votos, estaria garantida.

Cunha também se mostrou abalado, e quem não estaria? Como Lula, tem razões concretas para se preocupar com seu futuro. Acho ridículo questionamentos de internet sobre autenticidades de lágrimas e expressões desoladas em homens que estão sob ameaça de irem presos – queriam que gargalhassem, sapateassem, cantassem árias?

Cunha tem a seu favor ser mais novo e de saúde menos abalada que Lula, mas tem contra si não liderar qualquer movimento político, nem poder contar com apoio de formadores de opinião. Seu retorno poderia se dar num recomeço por bases, como escrevi há meses aqui no blog (post que gerou cobranças de leitores meus conhecidos sobre meu suposto “cunhismo”)
https://fernandopawwlow.wordpress.com/2016/05/07/notas-07052016/

Não acredito que Cunha tenha percebido o quanto desperdiçou, me parece ainda perplexo diante do que considera “traições”, causadas pelo “efeito manada”, mas há seriedade no cultivo do Poder em quem o entrega nas mãos de gente que age em bandos, temerosa de retaliações; “manada”, enfim?

O fim de meses de especulação teve como síntese dois atos que gerarão mais anos de especulação – e tolo de quem acreditou numa resposta conclusiva nascida deste chão dançante.

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