“Notas”-24/09/2016

“Cola de Ossos”

“Como a Esquerda se recupera das fraturas causadas por processo de desgaste na opinião pública após governos desastrosos que dirige ou participa, e com a negativa reiterada, pela vida real, de suas fantasias de paraíso, após dilúvios de sangue?”

Quem jamais se perguntou pelo mistério da recuperação, muitas vezes rápida, que a Esquerda exibe, sempre renovando, geração após outra, seus quadros?

Há, mesmo nas almas menos exigentes, um limite de tolerância aos erros continuados –  uma hora não se renova mais o crédito, as desculpas não mais comovem.

Um indivíduo só, ou uma empresa, ou mesmo uma corrente específica de pensamento, precisa ao menos de vez em quando mostrar resultados para que continuem a ser levados em conta. Ninguém perdoa incompetentes provados e reincidentes.

Olavo de Carvalho, em conferência na “Hebraica” (vídeo disponível no YouTube) oferece explicação que me parece satisfatória: o Poder ancorado em vínculos pessoais, em um senso de solidariedade que transcende particularidades técnicas do pensamento: segundo Olavo, o sujeito “trabalha com comunista, faz festa com comunista, bebe com comunista”, e se vê, por consequência, envolvido em uma família espiritual – depois deste envolvimento, o sujeito não se faz perguntas, segue as orientações da liderança do movimento ao qual pertence, justificando (sobretudo para si) contradições e reviravoltas político-ideológicas.

Quem não testemunhou este processo pessoal na faculdade? As festas mais animadas, a turma mais acolhedora, as mulheres mais interessantes costumam ser de Esquerda; mesmo após a formatura, o vínculo se mantém. Visitam-se, dão dicas de empregos, não raro ajudam-se em momentos de penúria financeira. Qual argumento lógico pode algo contra estes sentimentos, nutridos na dificuldade de vidas adultas em formação?

O sujeito dá qualquer nó na mente para justificar o que seus olhos demonstram ser absurdo ou ridículo. E gerações passam para gerações este binóculo mental,a corrente não se quebra, há uma cola de ossos.

“Cola de ossos” é romance que escreverei das notas que tomei na faculdade, minhas associações de memórias pessoais com o que testemunho como movimento político forte e ágil – o único no Brasil, pensando bem.

As cervejadas do D.A, as visitas entre colegas de turma – onde relatos da experiência no magistério e recordações de aulas de determinada disciplina intercalam-se às discussões políticas, à sombra de árvores, ou no aconchego de uma cozinha aberta ao quintal – os telefonemas e trocas constantes de correspondência; quanto isto alicerça a identidade de grupo!

Que vemos no campo oposto, no que se conhece por Direita? Desunião, exibição de pedantismo (conheci sujeito que elaborava sua lista de livros lidos no ano; pelo que exteriorizava, nada digeria do material listado), luta cega e feroz por protagonismo intelectual, fofoca generalizada, sabotagens… e coragem nula para enfrentar adversários  (igual falta de coragem notei no setores mais cultos da Esquerda).

Nunca consegui concretizar um encontro com estes “colegas” do tempo de faculdade, tanto no tempo em que estudávamos juntos, quanto depois de nos separarmos (eu por deserção do curso); havia um hiato entre nós que mesmo inimizades comuns não lograram preencher ou atenuar.

Um trabalho em grupo era epopeia, a proposta de uma cervejada soava como demonstração de vagabundagem e vontade de rebaixamento, ainda que a queixa pela desunião fosse comum. E testemunho o mesmo nos meios ditos intelectuais, nos polemistas de internet, a confirmação adaptada para os dias de hoje da síntese  (elaborada não sei por quem, me lembro de havê-la lido em entrevista do marechal Nelson de Melo para “O Estado de S.Paulo”, mas posso me enganar): “UDN, partido burro de homens inteligentes; PSD, partido inteligente de homens burros”- troque isto por Direita e Esquerda e teremos a explicação do sucesso de uma facção e do malogro de outra.

Vejo meu blog; o quanto me custa de esforço para continuar. Fosse um blog de esquerdismo fácil, ou espaço de amigos exercitando pedantismo (“revista literária eletrônica”, algo do agrado de muitos intelectuais de província) seria muito divulgado e replicado. Como é um espaço de reflexões solitárias, e não catalogável de imediato, não recebe qualquer incentivo, ou divulgação – mesmo dos que tem comigo antagonistas comuns, ou identificação ideológico – cultural mínima. Cobranças sobre determinados temas em encontros casuais não faltam. Como eu, vários blogueiros atravessam a obscuridade no meio de analfabetos frequentados e repletos de comentários. Não desisti  do blog por inércia, acho. Se desde 2008, ele se mantém de visitas pingadas, que chegue assim até minha morte.

E assim os escorraçados do Poder ontem preparam sua volta para amanhã, projetando e festejando seus intelectuais. O “Pós-PT” é fruto de pessoas que percebem na ocupação de espaços culturais a única saída para uma Esquerda que se provou desastrosa na administração. A agenda cultural fixada pelo espaço que dominam na Imprensa fará qualquer alternativa, conservadora ou liberal, ser uma caricatura desde a partida.

Há uma disposição na Direita – ou o que se apresente como oposição ao domínio da casta acadêmica – de confiar na pureza de seus propósitos e no desgaste de uma porção da Esquerda como suficientes na luta política: “As pessoas já experimentaram o veneno, e não farão uso dele uma segunda vez”, dizem estes confiantes no bom senso. E assim, por quê formar frentes de intelectuais, promover quem pensa parecido ou tem inimigos comuns?

Empregar detratores da véspera, ou assegurar microfones para professores universitários inarticulados é o que importa para quem pode tomar decisões, no Brasil. E querem saber os leitores o que penso disto?

Pelo que leio em alguns blogs e sites direitistas, nem é tão errada assim esta escolha; eu não contrataria gente primária, simplista, de vocabulário restrito, pois basta ter que empregar gente do tipo que se organiza para ocupar espaços – e consegue, pelo berro – da própria Esquerda.

A cola dos ossos trabalha na recuperação de fraturas, muita gente ignora isto.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s