“Notas”-30/09/2016

“Construindo o prédio pela cobertura”

Há anos vi o então secretário de Educação de São Paulo, Fernando Morais, criticar o critério de avaliar o ensino no Brasil tomando o nível superior como parâmetro, quando o problema estava desde o primário. Lá, no começo da vida escolar do estudante estava o desenho da trajetória, e não no ponto de chegada, a faculdade.

Cito de memória, e de memória digo que o escritor e jornalista era ainda Secretário de Educação. Me engano muito, e devo, por isto, começar meu arquivo de dados, como o que mantém Elio Gaspari. Até lá, que meus leitores me perdoem as imprecisões.

O que importa é que este ângulo de análise do problema da Educação, por Fernando Morais, me parece o mais preciso, o mais cruel: discutem a crise nos ensinos médio e superior quando estes recebem semi – analfabetos, incapazes de interpretar um bilhete, nem preciso dizer que incapazes de redigir um. Não exagero, o que vi em meus anos de estudante universitário sempre relato tendo que garantir não exagerar nas tintas: não apenas alunos eram incapazes de interpretações de textos mais complexos, mas também os professores doutores.

Ah, os professores doutores! Uma doutora em literatura pela UFMG, que conheci como seu aluno na UFV, mostrou não saber diferença entre Dalton Trevisan e Lauro Trevisan. Outro professor doutor, que conheci como seu aluno na UFMG, declarou desconhecer a existência de campos de refugiados no imediato Pós – Segunda Guerra na Europa.

Como não reviver estas recordações em dias de discussão da iniciativa de reforma do ensino médio? Como não vislumbrar mais um desperdício de energia e tempo?

Quem duvida que professores doutores como estes que lembrei há pouco não seriam os responsáveis por orientações de qualquer reforma que a educação terá no Brasil – se não neste governo, pois decerto boicotarão esta iniciativa, em algum outro no qual sejam convocados a decidir qualquer política educacional.

Qual discussão no Brasil não corre deste modo, falando nisso? Inicia-se qualquer exame de situação tomando a parte final por ponto de partida, sempre no improviso sempre construindo o prédio pela cobertura.

Pormenores como o aumento de carga horária parecem ter sido incorporados ao acaso, pois nota-se, nesta questão, que não contemplaram igual aumento de salário (correspondente ao número de horas a mais de trabalho) ou contratação de efetivo complementar. Não duvido que a mudança nos currículos seja no mesmo feitio.

Afirmam desenterrar pauta de anos, mas como a desenterraram, que a deixassem assim por mais outros anos, até que a maturação após discussões fornecesse, ao menos por exclusão, pistas para avançar neste campo de camas de gato. Como tudo o mais neste governo, faltou confessar que algo precisa ser iniciado, mas não se sabe que algo e como iniciar, apenas iniciar, este algo.

Horas a mais na escola, sob qual justificativa? Para que alunos fiquem mais horas expostos a professores despreparados e desmotivados? Para que tenham o que fazer durante parte do dia? Este seria motivo respeitável, mas penso que creches e bibliotecas públicas seriam mais úteis que confinamentos em escolas pouco ou nada equipadas (sobretudo no aspecto intelectual) para formar alunos.

Professores que recebem insultos ou objetos às costas foram consultados? Haveria algum retorno à política de expulsão de desordeiros vocacionais? Alguma campanha na mídia para esclarecer pais sobre os limites da educação de seus filhos (informar aos pais que seus filhos devem ser educados em casa e instruídos na escola e não o contrário)? Qual punição seria aplicada ao professor injusto nas avaliações, ou omisso em sala de aula? O mesmo seria cobrado de diretores que assistem, com sorriso nos lábios, suas escolas transformarem-se em reformatórios? O material didático seria alvo de revisões cuidadosas?

Estas e mais tantas perguntas deveriam ser formuladas todos os dias por alguns anos antes de qualquer política para educação ser proposta – sobretudo por medida provisória. E pelo que noto não foram formuladas estas e mais outras tantas perguntas.

A impressão que muitos têm e este blogueiro partilha é a de que Michel Temer deseja agir às pressas após encontrar o País destruído, e a vontade, justificada, de mostrar presteza administrativa, tem sido mais imperiosa que a compreensão de  que muitos dos problemas encontrados exigirão tempo e discussões com representantes de cada setor.

Tudo, mas tudo, neste governo tem obedecido às pressões de grupos que souberam se organizar, e a oportunidade de falar ao Brasil com os recursos da dramaticidade parece estar se esgotando – pela ação do tempo que mina qualquer impacto a cada dia.

E cedendo às pressões nas políticas escolhidas por não se sabe qual critério, Temer dá aos setores amigos do governo que destituiu mais e mais Poder. Seria engraçado se não fosse a vida real em um país entregue a quem subestima o estudo dos mecanismos da Política como campo de forças, antes confiando em gestos de simbolismo frágil.

Que Temer tenha proposto mudança em terreno dominado por petistas há décadas (Educação) sem exame de todas as hipóteses, é mais um sinal de amadorismo de político que muitos supunham profissional e hábil. E este amadorismo encontra em pedaços da Imprensa colaboração de quem julga poder triunfar sobre ameaças reais com frases de efeito.

Não consigo ser otimista sobre um Governo que não deveria ter se projetado além de sua função imediata – mandato-tampão – e que parece acalentar o projeto de reeleição. Será a volta dos que ainda não reconhecem este governo, e não o reconhecerão. Claro que sob a nova pele, ao “Pós-PT” que já se apresenta nesta eleição de Domingo como possibilidade.

A reforma do ensino médio como proposta será a confirmação de seus críticos, e terá destino semelhante às políticas de “inclusão” no ensino superior: desmoralização rápida, sem alternativa, com nada de aproveitável após os transtornos. Um parto da montanha, do qual não se percebe nem mesmo camundongo.

Este tópico, Educação, não deveria ser vítima de tanto empirismo, pois dele depende o destino de um País. Mas tentativa e erro nele são a constante.

E assim chegamos onde chegamos e de onde partiremos para estação pior.
Merecemos?

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