“Notas”- 06/10/2016

“Eleições do cochilo”

Voto no Carlos Prates, bairro, para quem conhece Belo Horizonte, febril e buliçoso. É zona eleitoral na qual muitos populares votam – um mar de folhetos envolve eleitores que discutem animados, e risonhos. Este é, na maioria das vezes, o ambiente onde cumpro meu dever de votar. Morei no bairro, sou um nostálgico dos dias em que aquele foi meu endereço.

Mas o domingo último não estava com esta febre cívica, não. A obrigatoriedade eleitoral, o sentimento de que cumpria-se apenas um dever, era sólido.

Votei pela manhã de um dia ameaçando temporal, mas já votei lá em dias de igual aspecto e em igual horário, e nunca senti meu local de votação tão cabisbaixo e calado.

Arrisco dizer que o entusiasmo por esta eleição era nulo – como os votos registrados. Muito voto em branco na primeira eleição municipal após a “Lava-Jato”.

Como tantos, os debates entre os candidatos não me interessou; as mesmas promessas de tirar Belo Horizonte do atraso, as mesmas palavras sobre transporte coletivo que não vemos traduzidas, ano depois de ano, em melhora, ainda que mínima.

Mas havia um dever: o de confirmar repúdio ao sistema deposto pelo impeachment, e esta obrigação deveria ser mais imperiosa que demonstrar um vago sentimento de recusa à classe política. Isto pode esperar, berrar a despedida do sistema de poder que domina o País desde 2003, não. Mas isto não foi trabalhado por quem cabia trabalhar: a Imprensa, os “formadores de opinião”. E se eles, jornalistas, cochilaram, que dizer de gente mergulhada na luta pela sobrevivência? Foram eleições do cochilo.

Não percebem, estes auto proclamados “Poder crítico da Nação”, o “Pós-PT” como força acordada e atuante, e portanto, pouco fizeram para advertir eleitores cariocas sobre o PSOL de Marcelo Freixo e eleitores belorizontinos sobre a Rede, que ajuda a compor a coligação de Alexandre Kalil; eleitores que rejeitam o PT votaram, inadvertidos, nas suas linhas auxiliares. Ou votaram, também inadvertidos, nulo ou branco, o que resulta no mesmo.

Quem cumpre o dever de informar aos distraídos? Quem cumpre o dever imposto pela condição que propicia status, a de jornalista?

Reinaldo Azevedo tentou fazer sua parte recomendando aos eleitores cariocas o voto útil no candidato do PMDB, mas o fez muito em cima da hora. E não confio na eficácia de jornalista de São Paulo sobre eleitor carioca. Onde a imprensa que fez oposição ao PT no Rio de Janeiro? Comemorando avanços da “Lava-Jato”?

O mesmo Reinaldo Azevedo tentou minimizar a força do PSOL nestas eleições com argumentos numéricos, mas o fato deste partido figurar na disputa, com chances de triunfar, na segunda maior cidade do Brasil, nega qualquer relativização da força desta legenda do “Pós-PT”. Subestima-se ameaça concreta, resumindo.

O “Pós-PT” que ronda outra capital importante (Belo Horizonte) também é ignorado, e o plano de mudar de pele é assim executado, sem sobressaltos. Os petistas ainda não desmoralizados podem abandonar o barco sem afobação, todos dormem. Conheço gente tida por culta, e mesmo gente de talento, que manifesta repúdio ao PT e declara confiança no PSOL e Rede.

Como não se deve esperar nada dos jornalistas simpáticos ao PSOL e muito menos os ligados ao PT, qualquer otimismo é demonstração indiscutível de alienação.

O que este impeachment causou foi apatia, nada mais. Um cochilo em escala nacional.

Venho advertindo, quase solitário, sobre o “Pós-PT” e sobre o dínamo que o impeachment daria a esta iniciativa dos quadros do petismo. Nada se aproveita, pois a prática no Brasil é a da sabotagem, pelo silêncio, a quem não pertencer às curriolas.

Votei triste e mais triste me vejo confirmado. Queria ser desmentido pelas urnas, mas não o fui, e nunca ser profeta confirmado me deixou tão sem euforia.

Quantos escândalos serão necessários para educar as massas, para desmoralizar de vez supostos intelectuais?

Teremos mais outras chances como a oferecida pela “Lava-Jato”? Mesmo a sorte se esgota um dia, e talvez este secar de fonte da esperança esteja bem próximo.

X

Gilmar Mendes X Monica Iozzi, um desperdício

Eu, Fernando Pawwlow, se Ministro do Supremo Tribunal Federal, processaria uma atriz e ex-estrela de programa humorístico- jornalístico (que na verdade não era nem uma coisa nem outra) que postou comentário ligeiro e desinformado em sua rede social?

Me perguntei isto ao ler sobre o processo de Gilmar Mendes contra Monica Iozzi, moça que ficou famosa fazendo graça  (não que eu achasse graça, mas havia público) com políticos e outras celebridades em corredores do Congresso Nacional, aeroportos, etc. O CQC, “Custe o que Custar”, era o programa no qual ela foi projetada para a celebridade, e teve seus dias de evidência, de “novidade”. Poucas vezes assisti; o tom com que humoristas sem lastro intelectual davam às suas “intervenções “ me era cansativo e ao mesmo tempo me jogava em prostração: “Veja o tipo de gente que vira ‘formador de opinião’ neste país que despreza intelectuais, gerações sem memória, ou sem conhecer provocadores com talento, têm este tipo de engraçadinho como guia nas coisas sérias.”

Iozzi foi para Globo e lá, sem renunciar ao salário nem ao status de “Global”, menosprezava o público do noticiário dos patrões. Nem foi demitida, não deram importância, pois não tinha importância.

Tudo na Monica Iozzi me soa como performance infantil – uma criança bancando adulta.

Não é o tipo de produto que aprecio, mas está longe de me irritar, de me desgastar. Tomo como mais um sintoma desta inversão de valores que foi promovida por setores interessados no nivelamento por baixo, inversão realizada com a conivência de gente culta que não gosta de se desgastar em brigas, que deseja ficar sempre bem com todos.

Um Ministro como Gilmar Mendes deveria ter sido aconselhado a não se ocupar com estrelas do mundo da TV, e sim a procurar os blogs e sites de jornalistas e militantes de movimentos ditos sociais nos quais este segmento televisivo se abastece de opiniões.

Os blogs simpáticos ao PT e ao “Pós-PT” postaram, e postam, coisas muito mais ofensivas e desrespeitosas ao Min.Gilmar Mendes e ao Judiciário (sobretudo à Corte no qual o Ministro atua) que a nota de Iozzi no qual ela mostrou apenas desinformação e reação emocional a uma notícia. Não sei se o Ministro os processou ou processa, mas penso que este deveria ser o seu ponto de concentração.

Este processo é um desperdício – de tempo, de energia e de autoridade.

E foi um grande presente aos verdadeiros agressores de Gilmar Mendes na internet.

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