“Notas”- 07/10/2016

“O direito a pagar para não ser informado”

Amigos leitores me cobram por minhas menções ao “GloboNews”:

“Pawwlow, o canal é, comparado ao noticiário da TV aberta (sobretudo ao da Rede Globo), muito superior; há análise das notícias, especialistas são ouvidos sobre as áreas de domínio de determinada matéria, há programas especiais, você é cismado.”

“Sim, para Brasil… comparado ao telejornalismo mais primário ainda em vigor na TV aberta, não deixa de ser um passo e tanto. Mas você percebe a filtragem subideológica, o colonialismo cultural, a superficialidade das análises, os clichês recitados, não apenas pelos apresentadores, mas pelos ditos especialistas?”

E enumero a cobertura das eleições americanas: o interesse pela Política dos Estados Unidos sempre me pareceu maior que o despertado pela nossa Política – rasteira, provinciana, imediatista, mas nossa; nosso drama deveria ser enfrentado com maior paixão, com entusiasmo. E o “democratismo” me soa antijornalístico: os jornalistas agem como militantes do Partido Democrata, o que, além de injusto para o assinante – que deve ser informado em dosagem igual sobre os dois grupos da disputa – é ridículo; o provinciano se acreditando cosmopolita é a marca distintiva do colonizado.

“Mas o Trump é de fato grotesco, informar o assinante das últimas palhaçadas de Donald Trump é dever, não te parece?”

“Não sugeri o contrário, claro que os republicanos fizeram a escolha mais arriscada que um partido pode fazer, mas sublinhar as simplificações de um candidato e tratar as banalidades populistas e slogans vazios de Hillary Clinton como tesouros de oratória é tratar o mesmo assinante como público de futebol de emissoras popularescas. Noticia-se o fato, reproduz-se a fala do candidato, mas poupe o telespectador de editoriais.”

“Você já escreveu sobre o tratamento dado às tragédias dos atiradores em escolas. Nem isto você acha necessário, considera estas reportagens fúteis?”
“Não há tema fútil, há cobertura banalizadora, há o palanque para discursos da casta acadêmica coalhando uma notícia de uma tragédia que exige, por si, a sobriedade do repórter. Não se deve comercializar a dor destas famílias, como tantos fazem nestas ocasiões. Culpar a sociedade americana pelo desequilíbrio mental de gente que poderia ter sido alvejada em seu ato homicida é algo sujo. Cultura das armas…o massacre de Realengo foi o quê?”

“E o quadro do Oriente Médio, a ação do ‘Estado Islâmico’, você também acha superficial?”
“Escrevi no blog sobre o trabalho do Pepe Escobar;  gostando ou não do seu estilo, ou comprando ou recusando sua visão do fenômeno, seus textos informaram mais que o resto da imprensa brasileira inteira. Não vi nada sequer digno de paralelo no ‘GloboNews’; custou a aparecer ali um esforço de genealogia destes movimentos armados naquela região. Muita banalidade que qualquer leitor de noticiário importado do ‘New York Times’ tem acesso, houve muito. Houve alguma melhora depois, reconheço”.

“Você também tem queixas sobre a cobertura dos acordos de paz na Colômbia?”
“Cobertura? Qual? Vi lugares comuns sobre ‘rancores’, ‘trégua aos décadas de violência’, mas não lembro de reportagens longas, ou séries de reportagens, com as vítimas das FARC. Sem este trabalho, parece que há um grupo esquerdista, como tantos outros, que, premido pela violência de uma Direita radical, sucumbiu ao chamado da violência; um mal entendido da História. Mal entendido cuja solução foi obstada por uma classe média rancorosa e ignorante, que prefere mergulhar o país em uma situação na qual possa culpar a Esquerda. Isto é cobertura desde quando? Onde a entrevista com algum líder anti – acordo de paz com tempo para que ele possa expor o que opositores do acordo consideram pontos inegociáveis. Ou entrevistas com eleitores que se abstivera; deve haver alguma maneira de entrevistar algum, não? Saber pelas suas bocas por qual razão desertaram desta luta eleitoral, o que consideram perda de tempo em momento sem dúvida histórico. Apenas registrar que houve grande abstenção e que foi ‘oportunidade perdida’, isso, meu caro, qualquer um faz; não precisa ser jornalista de um canal de TV por assinaturas para formular.”

“A imprensa escrita está melhor que isto? “
“Neste caso específico das FARC, há sim, material em Português. Contra as guerrilhas há o trabalho, por exemplo, de Graça Salgueiro – com fartura de material que nunca vi no ‘GloboNews’, diga-se – e textos favoráveis à guerrilha, com informação, ainda que discutível, em publicações da Esquerda. É só ler e elaborar alguma síntese. A superficialidade neste caso não encontra desculpa na falta de textos tratando deste drama. Esquerda e Direita estão bem servidos de informação na imprensa escrita. Será que não há no ‘GloboNews’ algum jornalista que possa fazer este balanço do que há impresso e servir algo mais que lamentações de esquerda de boteco chique sobre ‘a insensibilidade dos que preferem a guerra’?”

“E as eleições municipais? Você também tem queixas do jornalismo deste canal?”
“Olha, nada espero deste tipo de jornalismo que aplaude a Lava-Jato e a ‘queda do PT’, e não percebe o ‘Pós-PT’, e que mal dissimula o encanto pelo PSOL. Neste caso, meu amigo, bobagem ter queixas, ou se irritar. ‘De onde não se espera, aí é que nada sai,nada vem’, …como é mesmo o ditado?”

“Pawwlow, que você considera solução para este tipo de serviço jornalístico?”
“Não vejo solução, simples. Como não há público exigente, e os colegas evitam criticar colegas, como surgirá um movimento de melhora? Se há gente exercendo o direito a pagar para não ser informado, e esta gente pagante julga-se bem servida, por que se iniciaria esforço que pode levar anos? Para haver reformas, precisa haver antes a constatação da necessidade de reformar, e isto costuma exigir um estímulo no coração destes empresários: bolso. Foi assim com grande parte dos órgãos que realizaram suas reformas – o desejo de se isolar da concorrência, ou a concorrência encostando, ou a deserção em massa de seus públicos constituíram motores poderosos. Hoje como isto se daria? Por qual parâmetro estes assinantes exigiriam melhor serviço? É muito por construir para pouca exigência. Empurra-se com piadinhas e importação de pautas por mais um ano, e mais outro ano.”

“Trocar a equipe seria um sinal de desejo de conquistar superação destas deficiências?”
“Quer saber? Não. Há bons analistas no canal, gente culta. Para cada deslumbrado de Zona Sul do Rio de Janeiro, há William Waack, excelente no texto escrito. E gente do quilate de Leila Sterenberg, Ariel Palácios e outros. O que deve mudar é a orientação, trocar o espetáculo e o ‘descompromissado’ com algumas atitudes talvez um tanto fora de moda, mas necessárias, como: equilíbrio do noticiário, maior exigência nas apurações, a fuga de frivolidades, questionar a importação de pautas…”

Meu amigo ouvia com cansaço o que considera minha “aula”. Afinal, é só mais um canal de TV por assinatura, e falhas no jornalismo sempre estarão por aí…

Como tantos brasileiros, meu leitor e amigo prefere não acreditar que mudança política passa por esta via, a da crítica de nossa imprensa.

Haverá um “desejo de mudança” pela “maioria que está acordando”, que saberá escolher “um homem sério”…

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