“Notas”- 14/10/2016

Bob Dylan e o Prêmio Nobel

Ao ler que Bob Dylan ganhara o Prêmio Nobel de Literatura de 2016, pensei no que escreveria Paulo Francis a respeito. Lendo Francis, compreendi que o compositor de minha admiração era mais que um cantor de voz peculiar, letrista produtivo de canções que se fixavam em minha mente assim que as escutava; era, segundo o grande jornalista,  “um grande poeta, leitor da melhor poesia moderna” (cito-o de memória, perdoem a imprecisão). Francis não perdia tempo com distinções fixadas por casta que desprezava (acadêmica), e consideraria as discussões entre o status de poesia e letra de música polêmica ociosa.

Procurei outros autores que respeito sobre Cultura, como Sérgio Augusto (que escreveu em seu twitter sobre os elogios feitos por Francis a Dylan) e Pepe Escobar. Leitor de Escobar desde o tempo das “Bizz”, muito do que sei sobre Dylan devo aos seus textos, repletos de informação e opiniões que me fizeram pensar desde aquela época (anos’80) sobre questões como postura artística, compromisso com a qualidade acima de quaisquer pressões e tentações de conciliação com o Mercado, música pop como instrumento de reflexão e rebelião, tensões estéticas no meio da ditadura da mediocridade, etc. Do Pepe Escobar não tive, até o momento em que escrevo, conhecimento de sua opinião sobre a honraria, e nem sei se ele escreverá a respeito, pois concentrado há alguns anos em textos de política externa. Talvez julgue o prêmio uma bobagem, ou um reconhecimento do establishment a um artista que deixou de ser ameaça ao establishment.

São poucos os nomes que respeito, cuja opinião sei livres de lugares- comuns; a maioria, mesmo alguns com algum talento, não decepciona: os chavões sobre “populismo“ da Academia Sueca, as considerações sobre nomes que poderiam ter sido lembrados para o Prêmio no lugar de Dylan, o esnobismo quanto a letristas de canções (fossem estes articulistas em seu ofício o que Dylan é para letras de canções, ainda eu entenderia), aulas aos leitores sobre a distinção entre Poesia e letra de música, etc, etc.

Leio alguns menos sofríveis entre estes enunciadores de frases feitas e me pergunto sobre o que conhecem de Prêmio Nobel; quantos autores eles já leram a obra dentre os laureados, e se precisam ir à “Wikipedia” para saber mais de cinco nomes de autores. Quanta objeção aos seus nomes alguns daqueles escritores sofreram na ocasião: alguns eram considerados autores menores, exotismos da academia, outros eram muito celebrados por outros ambientes e considerou-se excessiva a premiação, etc.

O que é certo é que Ernest Hemingway é autor que à ocasião da homenagem era já autor considerado um dos maiores de seu país, Samuel Beckett um revolucionário entre os dramaturgos, Jean Paul Sartre um dos pensadores mais influentes de seu tempo, para ficar em alguns. E não menciono Thomas Mann, Hermann Hesse, André Gide e T.S.Eliot, por óbvios na importância. Não tenho dúvidas que estes nomes foram alvo de críticas: “Mas Fulano ainda é jovem, Beltrano deveria ter sido o escolhido.” “Aposto que Sicrano foi escolhido por suas posições políticas, pois autor superestimado.” “X é menos popularesco que Y, a Academia é previsível”. “A é poeta menos modernoso que B, e isto explica a premiação de B”. Estas cotações sobre quem é “Nobelizável” é bolsa de apostas que considero pueril: Philip Roth seria garantido como Nobel caso Bob Dylan não fosse o nome da vez?

Não lembro o que escreveram por ocasião (anos’90) do Nobel dado ao Derek Walcott, mas aposto que ele ser autor caribenho pareceu “populismo” aos que nunca leram uma de suas linhas (e não sabem o que perdem).

Confesso que me incomodo pelo Nobel dado à Toni Morrison, por considerar James Baldwin um grande escritor, um dos maiores dos Estados Unidos, e se era para premiar “autores negros”… mas confesso também que pouco li de Morrison e, afinal, tenho certeza de que não é autor desprezado pela Academia. Ele nem estava vivo por ocasião do Nobel destinado à escritora.  Baldwin faz companhia ao Norman Mailer que morreu sem seu Nobel, Jorge Luis Borges, idem, Yukio Mishima … Mishíma que, segundo seu biógrafo Henry Scott Stokes, foi dos primeiros, senão o primeiro, a telefonar para Yasunari Kawabata, o primeiro japonês a ganhar o Nobel de Literatura, e Mishima era apontado como provável Nobel. A amizade entre os dois escritores e o reconhecimento que Mishima já desfrutava na ocasião (poucos anos antes de seu suicídio) devem ter calado qualquer possível sussurro da inveja ou também possível sentimento de injustiça (não sei se injusto, nunca li Kawabata, que dizem bom, embora admire muito Mishima). Era um Nobel ao Japão, e isto deve ter falado muito alto a um nacionalista como o autor de “Confissões de Uma Máscara”.

Bob Dylan é um dos fatos culturais do Séc.XX ainda em atividade, como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen, e a Academia decerto temeu não homenagear uma figura como esta em vida. Há seu trabalho como escritor que reputam como bom (sua autobiografia em dois volumes, “Chronicles”) , também. O certo é que sem Dylan, seria difícil imaginar letristas como John Lennon, Lou Reed, Leonard Cohen, Chico Buarque, Caetano Veloso, Morrisey e tantos outros alcançarem as massas. Trovadores antes dele morriam sem alcançar estrelato, sendo quitutes de meia dúzia de cinco intelectuais escolhidos pelo Destino.

A elevação do nível intelectual do que o homem médio canta nas ruas deve muito ao premiado desta semana, digam pseudo – eruditos o que quiserem. Foi, na minha opinião, um gesto de agilidade mental da instituição sueca esta reverência a um gigante ainda entre nós. Quem não consegue entender-se como privilegiado por viver nos dias de vida – e atividade- de Bob Dylan nada entenderá. Mas nada mais fácil de entender que risadinhas de nulidades que têm de se haver com suas irrelevâncias; viver no mesmo espaço de tempo que uma figura maior e assistir a um reconhecimento (mais um) a esta figura deve ser uma confirmação a mais da insignificância de muitos. O intelectualoide estéril é multidão.

Recompensa ler, após contemplar muita pomposidade idiota  (escrita por gente que conhece do Bob Dylan, “Mr.Tambourine Man” , “Blowin’ In The Wind”, mais uma ou outra)  sobre esta premiação, o jovem Helio Fernandes celebrá-la em seu blog:

“Poeta dos maiores, suas rimas são admiráveis, provoca encantamento e sublimação geral. É um desses momentos em que as palavras se encontram, seja em livros ou na poesia musicada”.

Qual admirador de Bob Dylan tem reparo a fazer das palavras deste mestre em seu ofício?

Um grande reconhece outro grande, e ponto.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s