“Notas” – 21/10/2016

Debate Hillary X Trump: O público assistiu ao debate errado

Assisti ao terceiro debate dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos; aos outros dois, vi flashs e li resenhas. Admito pouco interesse em debates entre políticos de outro país, ainda que de um país decisivo para o resto do Mundo. As discussões políticas obedecem ao consenso e este desertifica a esfera pública: começa-se admitindo que há tabus, a eles rendem-se os ditos “formadores de opinião” e políticos encenam o que lhes é permitido. Não tenho tido paciência para encenações do tipo no país em que vivo.

O país em que vivo ainda fornece alguma possibilidade de rudeza, países da Europa e Estados Unidos confinaram as discussões em questões de comportamento e falhas éticas dos candidatos colhidas com lupa. E um outsider, rico, surge para balançar este coreto. Não foi outro o mérito do Donald Trump nesta candidatura, mas foi esta qualidade (a aposta na incorreção política) que destinou sua candidatura a ser um fator cultural, e não uma possibilidade eleitoral. Foi como uma candidatura de protesto que ameaçou ser uma opção política aos americanos saturados da ditadura da casta acadêmica, e como tal dissolve-se sob a lógica do possível: eleitores não estariam assim tão dispostos a virar a mesa, e recuaram diante do que parecia aposta no desconhecido. A curiosidade humana obedece o limite do temor de perder o pouco que se conseguiu.

E foi neste momento de volta à realidade que Trump resolveu debater falhas administrativas e confrontar a retórica do Partido Democrata com os resultados administrativos. Tarde, bem tarde.

O histrionismo do candidato, a linguagem de “talk radio” conservador, as piadas de cervejaria, os apelos ao senso comum – tudo isto trabalha contra qualquer argumentação, contra qualquer apelo ao senso crítico do eleitorado. As pessoas sempre recusarão advertências de tipos excêntricos; ainda que apresentadas sob rigor lógico, mesmo números são desconsiderados. Desqualificado quem argumenta, qualquer argumentação soa ridícula.

Números da economia? Ora, quem os cita não tem experiência em administração pública, e mesmo como empresário há controvérsias sobre sua competência. Dados sobre imigração, sobretudo com números que desmintam a retórica de tolerância para com imigrantes ilegais? Ora, quem empregou ilegais para poder pagar menos, que pode criticar a respeito? Enumerar falhas no combate ao ISIS, tais como anúncios de operações que colocaram em risco a eficácia das mesmas? Ora, enquanto se caçava Osama bin Laden o autor destas críticas era estrela de reality show. E foi assim o debate.

Nada de responder ponto por ponto. Para quê? Trump quando animava plateias republicanas com suas promessas de erguer muro na fronteira com o México e as fazia gargalhar com suas tiradas, se encarregava desde então a tornar seus argumentos despidos de credibilidade. As denúncias (comprovadas ou não) de assédio sexual contra ele, e outros pontos vulneráveis em sua figura relaxaram sua adversária; argumentação com desmoralizado é desperdício de saliva. A guerra política é assim, e se Trump entrou nela sem o saber, pior para si. Ninguém tem o direito de lutar contra inimigo amparado na academia e na imprensa sem se preparar para tentativas persistentes de destruição de imagem e credibilidade. Os que torcem para Trump parecem ignorar isto, e são tão irresponsáveis quanto ele; com adversários do tipo, a casta acadêmica está garantida por mais mil anos.

Mas isto não justifica a cobertura do “GloboNews” ao debate: o “time de comentaristas” capitaneado por Demétrio Magnoli celebrou a performance de Hillary Clinton, exagerando a declarada possibilidade de Trump não admitir o resultado da eleição. As esquivas de Hillary foram saudadas como habilidade, e as críticas pontuais de Trump ignoradas como se não tivessem sido formuladas. Não pareciam jornalistas, mas militantes democratas. Parecia que o público assistiu ao debate errado, não o comentado pela turma.

Riu-se nas redes sociais sobre uma anunciada passeata pró-Trump na Av.Paulista. Não sei se meme da internet; se verdade, não me assustaria, pois a Direita brasileira não cansa de fornecer aos seus adversários oportunidades de riso, mas não é igual no grotesco a postura também colonizada destes pró-Hillary?

Pois considero mais ridícula e grave a colonização assumida por gente que goza do Poder; jornalistas agirem como idiotas de redes sociais é desalentador.

Cármen Lúcia no “Roda Viva”

Cármen Lúcia logo no início do “Roda Viva” corrige informação do texto de abertura do programa sobre sua biografia acadêmica (não era doutora pela USP) e disse assim a que veio: responder com precisão e desprezo por pompas aos jornalistas. Jornalistas que tentaram obter da Ministra e agora Presidente do Supremo Tribunal Federal juízos de valor sobre leis.

Embora sem se esquivar (exceto em casos ainda sob julgamento), Cármen Lúcia não se afastou da lucidez de quem se sabe obrigada a julgar leis tais como elas se apresentem, e não como gostaria que elas se apresentassem.

Não pareceu suscetível às tentações de agir como árbitra dos modos de seu tempo, como alguém que carrega no bolso as respostas para todos enigmas legais brasileiros, mesmo porque há leis por cumprir, os presídios brasileiros como lembrança dolorosa de que há absurdos contra os quais as Leis têm se demonstrado ineficazes como antídoto.

Foi didática na explicação do que se considera (por falha da imprensa, diga-se) um avanço contra a “presunção da inocência” na decisão de permitir a prisão após recurso em segunda instância. Didática e de imaginação literária; a cena do “guisado de mãe” é antológica, e ilustrativa de seu talento de expositora em linguagem de gente comum das decisões registradas em idioma impenetrável ao não-iniciado (uma das críticas da Ministra).

Augusto Nunes questionou a punição (suspensão por dois anos) à juíza que permitira que uma menor de idade dividisse cela com prisioneiros. Cármen Lúcia esclareceu a decisão, que foi tomada entre as opções previstas em Lei. Parece frieza, mas entendo a Ministra. Quem deve ser questionado por absurdos jurídicos são políticos que têm o poder de propor leis e modificar as existentes, não juízes que têm por obrigação julgar com o que existe.

Que jornalistas não saibam isto, ou que sabendo, prefiram jogar para arquibancada de telespectadores leigos, é lamentável. Como mudar estado de coisas que revolta e desanima se quem tem o Poder de comandar discussões prefira o espetáculo? E Augusto Nunes tem o mérito de insistir na denúncia do episódio em sua coluna, mas este mérito não pode ser esfarelado em lances de emocionalismo televisivo. Que Augusto Nunes continue cobrando em sua coluna, mas a políticos e aos colegas de imprensa, sempre prontos a relativizar as dores das vítimas da violência. Cobrando de juízes, deseduca seus leitores; no dia seguinte, alguns leitores da coluna de Nunes na “Veja” exibiram nos comentários ao programa o resultado deste desserviço.

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