“Notas”- 28/10/2016

Reflexões na Pça . Sete

Sempre que vou ao Centro de Belo Horizonte observo o itinerário ao qual me identifico desde minha adolescência (voltara a residir na cidade após período de seis anos em Uberaba): Afonso Pena, Augusto de Lima (me agrada passar perto do Ed.Maletta, sede de livrarias e sebos que freqüento também desde adolescente) e a Pça. Sete.

Pça. Sete do Cine Brasil (quantos filmes assisti ali?) e do finado Café Pérola (hoje convertido em Mc.Donald’s), ambos me apresentados por meu pai. Escrevi no blog sobre as rodas de conversa política junto ao “Pérola” e o Café Nice, como me acostumei a assistir meu pai e seus amigos conversarem sobre política e história, minha ideia de civilização me sendo apresentada por este meio: conversação inteligente em rodas de pessoas que, descuidadas do relógio, aludiam a livros, filmes, personalidades, eventos históricos e mesmo relacionamentos pessoais.

Muitos dos participantes destas rodas entre os dois cafés já é memória dolorosa, sobretudo meu pai. Isto de um lado da Av. Afonso Pena. Do outro lado, a Pça. Sete concentra rodas de ambulantes, skatistas, multidão de hippies e centro de manifestantes políticos. Na verdade, um espaço tradicional das esquerdas, o PT como elemento dominante. Cada cidade tem o Hyde Park que merece.

Lembro de ter escrito sobre Patrus Ananias discursando para meia dúzia de cinco militantes e transeuntes alheios na eleição municipal passada. Serei mentiroso se escrever que não me marcou a imagem de um ex-prefeito (bem avaliado em seu tempo) e ex-ministro ser ignorado da maneira insultuosa que aqui sabem fazer. Tratar o vivente como menos que sombra é uma habilidade observada com esmero por aqui. Belo Horizonte foi cidade petista há menos de dez anos. E hoje assistir suas rodinhas merecerem o protesto silencioso e andante anima apressados a decretar a morte da legenda.

Militantes (ignoro se remunerados ou não) do PSDB dividem a praça com seus antagonistas do PT e siglas associadas sem provocações maiores que risadas de deboche ou paródias de jingles berradas de canto a outro. Precavidos, tucanos alojaram suas caixas de som no canteiro central da avenida. E tudo parece bem colocado assim: a Pça Sete é de todos, desde que “manerem” nas manifestações.

Não adivinho se este armistício será duradouro ou se é hiato entre duas temporadas de convívio ríspido, e me rio de profetas de internet (categoria numerosa no Brasil), tão hábeis em profetizar como inábeis em analisar o presente, pois desconhecedores convictos de História – por conhecer História um mínimo para analisar, me abstenho de arriscar previsões; um país movediço desmoraliza seus aspirantes a Nostradamus.

Mas me lembro dos anos ’80, a cidade ainda encantada pelo PMDB ignorando oradores petistas na Pça.Sete. Virgílio Guimarães era assíduo e tinha por plateia, muitas vezes, militantes do PT apenas. As rodinhas em torno dele ganharam volume com o passar dos anos e não tardou ao PT a conquista da cidade. Quem se lembra disto?

Militantes do PT e do PSOL comparecem ao espaço da Pça quase todos os dias. Com seus militantes e simpatizantes (a maioria composta por funcionários públicos) berram suas palavras de ordem e entoam suas paródias indiferentes ao espetáculo da indiferença dos transeuntes.

Respeito quem tem este espírito de combate, e tenho tido discussões com pessoas que acompanham a Política com emocionalismos e máximas moralizantes. Não aprenderam ainda o mecanismo do Poder, possuídos de mecânica própria e de tempo próprio:

“Você acha a Esquerda o máximo, junte-se à ela então”.

Não, não julgo a Esquerda o máximo, apenas a força que combate, no Brasil. E não me junto a rebanhos, minha natureza não é gregária. Fosse dado a engrossar rebanhos, e este blog não seria vítima do silêncio que é. Eu seria replicado e elogiado. Ou combatido de maneira a ser projetado para a celebridade, como tanta nulidade o é.

Escrevi no blog sobre a pressa de setores da imprensa, como “Veja”, por exemplo, em apresar o enterro do PT, para não mais ter que se preocupar com a luta política, para poder voltar ao cultivo de amenidades. Eles, petistas e/ou pós –petistas, não têm essa pressa de “voltar à vida normal”. Gostam de combater, a militância é vida social para muitos deles, e isto faz e fará toda a diferença no médio prazo.

Ou no curto prazo, se os efeitos de medidas recessivas se fizerem sentir de maneira imediata, para milhões. As rodinhas de estudantes e funcionários públicos terão seus seguidores e a Pça. Sete voltará a ficar pequena para tantas adesões às cores das bandeiras dos “movimentos sociais”. Pode ser que eu esteja sendo pessimista, pode ser que eu esteja com boa memória.

“Mas estas medidas teriam que ser tomadas pela Dilma Rousseff, os petistas não dizem isso.”

E por que o diriam? Livraram-se, via impeachment, deste abacaxi, e as oposições tomaram este ônus como bônus, embriagadas pela referida Imprensa ansiosa pela volta às capas sobre dietas e “vida sexual saudável depois dos ‘50”. Os ajustes necessários após anos de irresponsabilidade ficaram como presente de grego aos tucanos e peemedebistas.

Esta gente não aprende, e acho que nunca aprenderá; eles não sabem apanhar e jamais aprenderão a bater. Com a desvantagem moral de que os populares não-membros da classe política é que recebem no corpo os golpes da incompetência, da pressa em escapar do confronto. A História é mestra severa com povos jovens.

Fui acordado destas reflexões graves com paródia do “Baile de Favela” executada por algum “coletivo” com instrumentos de sopro e vozes esganiçadas das militantes, no desabar das 18:00 do horário de verão (este maldito horário defendido por quem não tem que se haver com o despertador matinal e com ônibus lotados de sonâmbulos).

Não entendi a letra da paródia, embora tentasse. Olhei para o bando animado, fantasiado de hippie. Muitos nem olhavam, nem riam. Cantavam para eles próprios, indiferentes à corrida geral para os ônibus (faltou-lhes o timing, devo escrever), dos populares que não riam da paródia, sequer olhavam.

E não pareciam desanimados, pelo contrário.

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