“Notas”- 29/10/2016

“Na véspera de um Segundo Turno apático”

Amanhã cumprirei meu dever sem qualquer sorriso: votarei no que me parece a menos péssima opção política. Não tive interesse em debates e programas anunciados pelas candidaturas que se enfrentarão. Não acredito que a candidatura que vença amanhã conseguirá tornar o transporte coletivo em Belo Horizonte, para citar um só problema da cidade, mais eficaz e menos oneroso. Como não acompanhei os debates, exceto por noticiário, ignoro se algum candidato prometeu rever as tais “estações” que dificultam as viagens e não resolveram os congestionamentos (me parece que era este o pretexto apresentado quando da construção destes monstrengos).

 

Considero bobagem debater ações de prefeitos, pois mesmo se bem intencionados e esforçados, pouco podem diante de vereadores escolhidos por matemática eleitoral que escapa ao eleitor comum. Há condicionantes maiores, penso. Há a luta política no plano nacional, e a eleição municipal deve ser observada como parte desta, não um elemento de outra natureza. O município não se afasta do estado e do país, exceto na retórica dos que prometem aos que querem acreditar nesta impossibilidade.

Em Belo Horizonte vejo eleitores de Alexandre Kalil que declaram escolhê-lo por paixão pelo Atlético ou por rejeição ao PSDB. Não notei nos eleitores de Kalil com quem conversei aversão à figura de João Leite, e sim desejo de votar em alguém não identificado como “político”e que faz questão de se apresentar como um “não –político”. Kalil tem sido hábil em se apresentar como novidade a um público saturado do PT e do PSDB.

 

Sou desconfiado dos “não-políticos” que se candidatam. Há, para quem deseja  “fazer as coisas”, diversos meios de ação fora da política. Fundar jornais, ou ONGs, ou militar nas já existentes ou contribuir para os jornais também existentes, me parece maneira de agir sem se envolver com as tais práticas que o “não-político” declara ter aversão.

 

Acredito que nem todos que desejam trabalhar para a coletividade possuem o que Roberto Campos chamava de “habilidades cênicas” – gritar, prometer, chorar,  beijar populares, devorar pastéis nas feiras, beber cachaça em bibocas, etc. Muitos possuem resistência à ideia de atacar adversários no campo pessoal, procurar com lupa manchas na biografia do adversário e estômago para confrontos televisivos. Estes podem – e devem – manter distância das batalhas eleitorais e militar nos seus meios profissionais, com as armas que dominam. A democracia exige esta seleção.

 

Ou deveria exigir.

Penso que muito do que enoja eleitores nas lutas nas campanhas seria atenuado caso houvesse exigência de que candidatos fossem formados nas escolas dos partidos, os “institutos”. Anos de militância nestas escolas partidárias antes de qualquer candidatura, mesmo ao cargo de vereador, serviriam para pré-seleção política que eliminaria aventureiros ou incompetentes.

 

Discutem-se itens da reforma política, e a exigência da melhoria dos quadros partidários pelas direções dos partidos parece não figurar entre eles (se figura, e sou mal-informado, que o leitor me perdoe ou avise). Por quê? O eleitor e cidadão não seria mais bem servido por líderes burilados, experimentados nas lutas internas de suas agremiações? Populares sem meios de se preparar não teriam nos líderes educados em ciência política e rudimentos de administração pública garantias de estabilidade?

 

Não acredito que a democracia representativa seja um recinto de liberdade total; a sociedade tem meios de expressão que transcendem as limitações do território da ação institucional. Logo, argumentar contra a exigência de pré-seleção nos institutos partidários com a lógica da liberdade de qualquer cidadão participar da vida pública, é enganoso.

 

Por que escrevo sobre discussão e exigência que até onde sei não existe? Por apatia frente ao que se apresenta eleição depois de eleição, e por perceber em meus colegas eleitores a mesma apatia e o mesmo desânimo. Apatia e desânimo que não servem aos cidadãos, ao contrário. Dar as costas à classe política não a extinguirá, ou a melhorará, a despeito do que defensores do voto nulo ou em branco digam e pratiquem.

 

Não sei se o Segundo Turno no Rio de Janeiro sofre da mesma desatenção do eleitor, pois se as opções apresentadas são também desoladoras, isto se dá, me parece, por outra falha: emocionalismo. O eleitor carioca também rejeita o PT e o PSDB e, como o de Belo Horizonte, se distrai do “Pós-PT”. Mas a fonte do problema é a mesma do eleitor belorizontino: imprensa que pouco fez para advertir eleitores.

Em ambas capitais, partidos aliados do PT se apresentam como novidade, e populares sem o devido senso histórico engolem a “novidade”. Onde os “formadores de opinião” que não cumpriram com os deveres que o status impõe? Em quais assuntos refletiam os jornalistas que não lembraram aos eleitores das duas cidades o que está ainda em jogo?

O momento histórico de imediato pós-impeachment não foi tratado com o cuidado que exige, e esta eleição para prefeito seguiu a mesma lógica de eleições realizadas em situações diferentes desta: escolha do “síndico municipal” e não uma oportunidade de manifestar insatisfação com determinado modo de fazer política.

E na véspera de um Segundo Turno apático, eleitores se demonstram mais irritados que de costume; cumpre-se a obrigação do voto com amargura e cinismo. Nunca ouvi tanta queixa em linguagem de parede de mictório sobre voto obrigatório.

E isto é combustível para pesadelos.

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