“Notas”- 02/11/2016

“É… não deu tempo de lembrar ao eleitor…”

“Agora o momento é este: responder à provocação do Kalil. Ele que começou atacando religiosos…tá…tá.. .tem que lembrar aos eleitores que ‘Rede’ tem a ver com o PT, mas vai dar tempo, você vai ver… ah… pesquisas… temos números que mostram que o Kalil não está na frente não, está empatado…”

Isto ouvi dos responsáveis pelo carrinho de som de João Leite, carrinho alojado no canteiro central da Av.Afonso Pena. Tentara alertar sobre o ridículo de se apelar para sentimentos religiosos do eleitor, apelação sempre questionável, sobretudo a uma semana da eleição. Notei nos meus interlocutores um pouco de piedade do lunático que tentava ensinar a eles o serviço para o qual foram escalados. Como escrevi há dias no blog, me despedi me desculpando.

É… não deu tempo de lembrar ao eleitor sobre o parentesco político da candidatura Alexandre Kalil com tudo o que o eleitor de BH rejeitou no Primeiro Turno. Este serviço – o de informar o eleitor, de trabalhar no público as associações inevitáveis na Política – foi deixado para a última fração de tempo disponível. O importante ali era tentar o recurso (preciso dizer que surrado?) da “desmoralização” de Kalil frente a um hipotético eleitor religioso, que se estivesse em dúvida em quem votar, ao ouvir Kalil declarando não ter sentimento religioso, escolheria sem piscar o candidato do PSDB. Isto sim era urgente, não poderia esperar.

E o resultado já sabemos. Havendo dúvidas de que o belorizontino rejeita o PSDB com fúria igual à que dedica ao PT, encomenda-se travessa de capim.

Quem ainda acredita que a imprensa pró-PSDB influencia alguma escolha? Quais destes “formadores de opinião” dariam à candidatura Kalil votos que não viessem apenas de atleticanos fanáticos? A ideia de Kalil derretendo após questionamentos era uma certeza nestas mentes condicionadas ao PT X PSDB.

“A capa da ‘IstoÉ’ nos devolverá a vantagem nas pesquisas.” Quem não ouviu isso na última semana?

Esqueceram o fato de Kalil ser, aos olhos dos eleitores, um outsider, e votariam em qualquer outsider com chances de se eleger, ainda que fosse descoberto um cemitério clandestino em seu quintal. Não se tratava de eleger o melhor, de escolher candidato que convencesse com propostas ou críticas ao que se julgava necessário remover da administração, mas de berrar “BASTA!” com a garganta mais potente. Assim votaram muitos em branco, ou anularam votos.

O montante de votos nulos e brancos no Rio de Janeiro me parece da mesma família de sentimento popular: rejeição orgânica à classe política.O número de eleitores que decidiram demonstrar inconformismo com as opções é maior que população de muita cidade de porte médio, que isto não tenha merecido edições especiais com os ditos cientistas políticos nos canais de assinatura mostra, sem necessidade de qualquer adjetivo, a qualidade do serviço jornalístico oferecido ao público. Foi uma votação histórica, uma não-votação que se pode comparar às multidões que iam ouvir Ulysses Guimarães nos comícios de sua “anticandidatura” no início dos anos’70.

O que confirma minha observação, reiterada no blog, sobre a efervescência política durante a crise do impeachment de Dilma Rousseff – há um risco de um resfriamento, de uma apatia que será então mais um efeito colateral deste erro histórico.

Dos analistas políticos que tenho lido, Helio Fernandes é o mais lúcido: outros notam desgaste do PT sem notar que a vitória de João Dória Jr também foi vitória de um outsider, muito mais que vitória tucana. Helio Fernandes com suas décadas de carreira não arrisca qualquer previsão para 2018 derivada do resultado de domingo último. Sabe que muitos políticos calculam para 2022 o futuro que apressados já têm por certo.

2016 foi uma explosão que levará uns seis anos para ser interpretada com precisão – aos que forem precisos, o que é algo cada dia mais raro entre “formadores de opinião”.

Considero estes “analistas”, torcedores, e faz tempo.

Vejam o blog, confirmado a cada eleição.

Dia dos Mortos, 2016

Há alguns feriados de “Dia dos Mortos” que celebro relendo meus textos escritos sobre a data, e lembrando em casa os mortos, deixando os cemitérios para outros períodos do ano.

Desanima o serviço de ônibus para feriados, que obriga a viajar em carros lotados, com passageiros irritadiços pelo tempo de espera. Também sofro por idosos que sofrem na escalada de degraus desenhados por algum insensível que não deve servir-se de transporte coletivo nem em pesadelos, e desconfio que muito idoso desiste de visitar seus mortos se não puder contar com carona ou dinheiro para táxi.

Minhas reflexões sobre os mortos são presentes fora desta data também; visito cemitérios fora da data estabelecida, como escrevi.

E me socorro também com o blog do amigo Paulo Mayr, que sempre honra a data com coletânea de epitáfios e ditos espirituosos sobre o destino que espera, democrático, a todos.

E há anos replica meu “Dia dos Mortos no Bonfim”, demonstrando carinho.
E caráter.

http://www.trombonedomayr.com.br/2016/11/01/sensivel-texto-sobre-finados-e-boa-entrevista-sobre-mortes-e-mortos/

Pois não poucos declaram gostar do que leem em meu blog, mas são incapazes de citar meu nome e meu blog em seus textos, ou simples comentários de redes sociais.

Quem conta com amigos assim…

Lembro o que Cláudio Abramo escreveu sobre autores que elaboravam dedicatórias carinhosas a ele, escritas à mão, enquanto cuidavam de não o citar nas dedicatórias impressas. Este o caráter de muita gente do meio cultural brasileiro, apontando canalhices alheias enquanto pratica suas próprias.

Por isto o Dia dos Mortos me traz comoção dupla: lembrança dos Mortos e carinho do amigo, sempre fiel na homenagem e no exercício do caráter.

O blog de Paulo Mayr  (autor de entrevista clássica de Hiroito Joanides) , meu endereço diário no passeio pela internet:

http://www.trombonedomayr.com.br/

Um abraço comovido.

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2 respostas para “Notas”- 02/11/2016

  1. Caro Pawwlow:

    Gosto muito mesmo desse seu texto. Agradeço os elogios do amigo mineiro, que pode ter certeza de contar com um amigo em S. Paulo.
    Minha vida sossegando, faço questão de ir a Belo Horizonte. Irmão da minha namorada mora em Ouro Preto, que sabe a gente vai jantar no Palhares.

    Abraço

    Paulo Mayr

    • fernandopawlow disse:

      Caro Mayr, fico feliz que este texto, escrito com intensidade que me faz considerá-lo um filho predileto, tenha tocado teu íntimo.

      Este teu amigo de Belo Horizonte espera ansioso pelo CAOL no Palhares, por um café com rapadura no Mercado Central, e por uma visita ao Bonfim, cenário deste texto.

      Venha sim, será algo a ficar gravado em ouro nas nossas vidas.

      Abraço do amigo Pawwlow

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