“Notas” – 05/11/2016

Das “Ocupações”

Leitor e amigo me telefona – leitor e amigo que concorda com muito do que lê no blog.

Como aluno da UFMG tem seu cotidiano estudantil afetado pelas “Ocupações”, e não deixa de lembrar o que conversávamos sobre os desdobramentos previsíveis do impeachment. Concordávamos sobre o impeachment de Dilma Rousseff ser um dos maiores equívocos da História do Brasil e de como as Esquerdas sairiam mais fortes deste acidente.

E as “Ocupações” nos confirmam, e não fugimos da tentação de dizer “Não avisamos?” um ao outro. Este leitor e amigo tem demonstrado, nas duas últimas eleições presidenciais, maior capacidade de análise, e portanto, de previsão, que muitos analistas profissionais, e ele não é “do ramo”. É músico e não cursa “Humanas”. Apenas usa sua memória e observação do que vê em seu meio social para se situar nesta fase da História que nos cabe.

Viu no campus o cansaço dos apoiadores do Governo e previu que o impeachment seria o energético que devolveria ânimo aos que não demonstravam fôlego para mais tantos meses de negativas do óbvio: aquele governo não tivera respostas a oferecer aos desafios do Brasil. O impeachment daria a estes cansados uma bandeira para inspirar a luta contra a realidade, previa este amigo, que lia no blog impressões semelhantes às suas, e vê nas “ocupações” confirmação veloz de nossas conversas por ocasião de minhas postagens.

“Mas uma coisa noto, Pawwlow, não é o ‘Pós-PT’ que vejo conduzir a coisa: são professores e lideranças do PT, ainda no comando. PSOL e assemelhados não apitam em nada ali, ninguém menciona, são os sujeitos de sempre que tem dado as tais ‘aulas’ das ‘Ocupações’ ”.

E me vejo explicando a este leitor e amigo o que entendo como o “Pós-PT”: não será uma entidade que substituirá o PT, enfim “varrido do cenário”, como sonham leitores de “Veja”. O “Pós-PT” englobará o PT, será mesmo o PT vitaminado, após depurações. Petistas já admitem apoiar candidatos de outro partido em 2018, e não deixarão de serem petistas por isto.

Dizer que PSOL não comanda a massa estudantil é ignorar que PSOL não tem esta função: esta sigla serve como peça no novo arranjo de divisão do trabalho da Esquerda brasileira: PT no trabalho da massa, através de sindicatos e “movimentos sociais”, PC do B em movimentos sociais nos quais vem cristalizando seu domínio e também em setores do movimento estudantil, e partidos como PSOL e “Rede” no trabalho de corporificar alternativas ora mais “light”, ora mais “hard” ao PT. PT que percorre todas estas artérias. Se quiserem entender PT como Partido da Casta Acadêmica não será errado. Acreditar na morte do PT é tolice que apenas mentes mais afoitas insistem em alimentar. Esta fantasia – a da “morte do PT”- tem causado todas estas confusões e a transformação das caricaturas da Oposição pelo PT em retratos nítidos, fiéis. Esta fantasia, vendida por gente talentosa mas preguiçosa para analisar política, não contempla a natureza da luta política: reduz o combate entre forças que disputam o Poder a uma escolha entre “honestos” e “larápios”. Esquecem ou ignoram, ou esquecem por ignorar, que se a luta contra o PT se der por conta da corrupção apenas, basta ao partido se depurar de seus membros colhidos com as mãos na grana para continuar combatendo.

E é neste aprimoramento de suas táticas e estratégias, que o “Pós-PT” operará, ou já vem operando nas tais “Ocupações”. Agregar não-petistas ou parapetistas em movimentos que servem ao PT é algo simples quando se tem uma bandeira comum a petistas e não petistas – “a PEC dos gastos”- e uma composição de forças que apoia o Governo (quando não o compõe) e não se preparou para o óbvio: a reação dos movimentos controlados pelo PT ao impeachment. Seria fácil remover a Presidente, e o resto viria a seguir, sem fazer qualquer força, como consequência lógica, mecânica.

As “ocupações” são ensaio da greve geral que centrais sindicais prometem, e não pararão até que Michel Temer renuncie, ou parta para confronto para o qual parece não ter se preparado, pois instruído por “formadores de opinião” que o convenceram (ou parecem ter convencido) da inocuidade destes “esperneios” dos petistas. “Esperneios”, espasmos passageiros; quando liberais ou tucanos tomaram ameaças como algo digno de preocupação?

O fato é que, como o blog registrou, petistas estavam de cabeça baixa mesmo após terem derrotado o PSDB na última eleição presidencial: poucos adesivos nos carros (em contraste com carros simpáticos ao PSDB, exibindo coragem sumida há muito) e mesmo alguns negando ser petistas, pretextando voto em Dilma por “falta de opção”. E Belo Horizonte já foi cidade petista, onde petistas se impunham no berro, tendo como resposta o silêncio dos covardes.

E veio o impeachment tirar estas almas da prostração. Aspergiram sobre organismos desgastados poderosas doses de medicamento energético, e acreditavam estar jogando punhados de sal contra lesmas que se derreteriam…não se deram obrigação de verificar se era mesmo sal que portavam e se eram lesmas que teriam como alvos.

Aprendizes de feiticeiros deveriam ser barrados na luta política – deveria haver um senso crítico que cessasse qualquer coral de tolos em horas decisivas: se sujeitos vem errando previsões há três eleições presidenciais, que sejam aposentados, ou desviados para resenhas de filmes ou balés. PCdoBistas, Petistas, pós-petistas; esquerdistas em geral agiriam assim.

Enquanto não se substituir seus inimigos, este conjunto de forças continuará avançando, “Ocupações” podem se esgotar; avançarão em outras frentes, até a rendição total.

Rendição que pode vir em 2018, 2022, eles sabem esperar. Pois sabem combater.

Meu amigo e leitor desligou o telefone, cansado de prever, cansado de acertar.

Uma confirmação concreta – as “Ocupações” – dos piores pesadelos coloca em dúvida a utilidade das bolas de cristal.

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