“Notas”- 10/11/2016

Da eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos

Não escrevi sobre Donald Trump como torcedor nos dois textos em que examinei a cobertura de sua candidatura pelo “GloboNews”. Não torço por políticos de países que conheço de leitura apenas e desconfio de consensos e verdades decretados pela casta acadêmica.

Lembro o Thomas Skidmore no seu “De Getúlio a Castelo” atacando Leonel Brizola, o qual depois conheceria e se tornaria amigo e admirador. Há certos conhecimentos que exigem convívio mais estreito, a leitura apenas não preenche todos os espaços da mente de um analista de política internacional.

Analistas brasileiros que moram nos Estados Unidos e que demonstram ler mais que o “New York Times” me são dignos de atenção. Mas sei que muitos replicam a grande imprensa americana até por falta de outros referenciais: leitura reduzida (ao menos para quem deveria oferecer aos seus leitores material aprimorado) e fixação em pontos pré-estabelecidos não permitem outro jornalismo.

Trump me pareceu menos péssimo comparado à sua antagonista, menos apelativo aos sentimentos fomentados por mídia com agenda política que Hillary Clinton e no único debate que assisti, o último, mais assertivo e interessado em problemas administrativos e dilemas da política exterior; a grande impressa analisava os debates pelo que eles gostariam que eles tivessem sido.

Por que não torci abertamente por Trump além do fato de eu ser um brasileiro que nunca pisou nos Estados Unidos? Por desejo de me manter acima de disputas do meu tempo? Receio de ser desmentido no curto prazo por fatos de um país que, repito, não conheço o suficiente para analisá-lo?

Quando lia o que escreviam seus apoiadores na imprensa e nas redes sociais me lembrava da distância que me separa da Direita, distância talvez mais desanimadora de percorrer que a que me separa da Esquerda: simplificações, alusões a denúncias ainda não esclarecidas por completo, associações históricas as mais forçadas e denunciadoras da ignorância de seus propagadores; a burrice enfim, operando em sua carga total.

Embora seja alérgico ao “politicamente correto” e às engenharias sociais que nivelam a população norte-americana por baixo, não consigo me identificar com o Partido Republicano. Não saberia responder por esta prevenção, mesmo porque muitas das políticas internacionais que desaprovo (como o apoio irrestrito a Israel) não são assim tão diferentes nas administrações de seu partido rival, o Democrata. Pode ser que a máquina de propaganda democrata tenha em mim mais uma vítima, mas sempre tenho mais simpatia pelas candidaturas democratas.

Mas não desta vez.

Hillary Clinton me parece pessoa implacável e com desejo não disfarçado de moldar as instituições ao projeto político de seu grupo e da casta acadêmica. E isto me amedronta, pois estas ambições teriam meios de ser atendidas por militância que antes mesmo da posse de Trump decidiu exteriorizar suas concepções de democracia. Não são, portanto, assombrações avistadas por caipiras dementes.

E, serei sincero aos meus leitores: as fisionomias de velório e as declamações (da escola de interpretação “indignado – comovida”) de textos grandiloquentes e repletos de clichês e frases de efeito sem efeito contendo as palavras “intolerância” e “misoginia” a cada linha me divertiram muito, na programação do dia que seguiu à confirmação da vitória de Trump no “GloboNews”. Ali a Esquerda bem nascida demonstrou se igualar no destemor do grotesco aos torcedores brasileiros por Trump. Os dois fãs clubes são a síntese do colonialismo atual das mentes brasileiras. Não tenho visto nas coberturas da política brasileira tanta paixão.

Os dois colunistas que leio na”Veja”,  Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, foram até coerentes: as previsões e as torcidas por Hillary foram equivalentes às que estes dois jornalistas praticam pelo PSDB há pelo menos três eleições presidenciais com resultados idênticos.

Não me surpreendo com a classe jornalística brasileira, esta é a verdade. Não são poucos os que se julgam melhores que a mídia simpática ao PT sem esta superioridade imaginada pro eles e seus círculos: o leitor e telespectador da chamada “mídia golpista” é tão servido por slogans e simplificações como o público que recebe a ração “progressista”: slogans vazios, simplificações, anúncios prematuros de vitórias , nivelamento do leitor por baixo; “house organ” das facções políticas apenas.

Mas agora a imprensa brasileira se superou: transformou-se em “house organ” de candidaturas de um país estrangeiro, ainda que país estrangeiro de importância indiscutível para o Brasil. Penso que não houve jornalismo, houve exercício de colonização, puro e sem pudor.

Quanto o que será a administração Trump: quem pode prever o que será? Ele pode se confirmar como um observador lúcido das relações exteriores dos Estados Unidos, um estadista, como pode dar razão aos analistas políticos (não importa se da Academia ou os improvisados na mídia) que previram um demagogo medíocre e simplista, um mistificador.

Ma penso que, para o bem ou para o mal, há um personagem controverso no centro de todas as atenções e isto sempre traz resultados. A estagnação é insalubre.

Como meu pai sempre me dizia quando eu propunha exercícios de imaginação histórica:

“Não existe ‘Se’ em História”.

Donald Trump ganhou e há todas as possibilidades contidas em quatro anos.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s