“Notas”- 12/11/2016

Sobre “simplificadores”

O que mais vejo nas TVs é o recurso à “palavra dos especialistas”: especialistas em “relações internacionais”, “causas da violência”, “gestão de crises”, “políticas públicas de saúde”, “questões de gênero”, sem esquecer dos nunca negligenciados “cientistas políticos”.

Estes profissionais, “com mestrado e doutorado na área”, como informam os apresentadores, entregam-se ali, à missão de “simplificador para o telespectador”, ou “para o assinante” (como são chamados os consumidores de TV por assinatura) questões de natureza complexa.

Quando o noticiário é incompreensível para o cidadão médio, pois o mundo está em processo de ebulição de culturas e politização de questões que antes eram da esfera privada, o homem das ruas, ocupado em garantir sustento de si próprio e de familiares, tende a acreditar no cumprimento das profecias sobre o final dos tempos. Não aparelhado no intelecto para assimilar tantas mudanças em intervalo de tempo tão curto, sente o mundo incompreensível e hostil: “Que fiz de errado, onde falhei?”

E os jornalistas formados, não se considerando (muitas vezes, com razão) preparados para orientar o público (e sem desejar perder o status de “formador de opinião”) convidam para seus programas os tais “especialistas”.

Quem, em um mundo onde notoriedade é Poder, recusa aparecer em Tv para tentar explicar em quinze minutos o que demanda horas para se compreender o mínimo, sobre qualquer tema? Quem é franco para dizer a quem convida: “Olha, este tema exigiria muitos programas, quinze minutos não dá sequer para expor o básico do básico do básico. Por que os Srs. não fazem série especial de programas e nesta série me convidam?”

Pode ser que haja quem se recuse, mas há muitos que aceitam desempenhar o papel de “simplificadores” de “multiculturalismo na Europa do Séc XXI”, “conflitos étnicos da África pós- colonial”, “relação entre baixa escolaridade e escalada da violência” “Feminicídio no contexto das relações familiares”, “desafios da Vaticano no mundo pós-moderno”, “atores sociais no espaço virtual”, “mudança dos valores norte-americanos no cenário das disputa Hillary X Trump”, entre outras tantas “especialidades”.

O público, após assistir a estas micro – aulas julga-se capacitado para, nas redes sociais, contribuir para esforços de erradicação da ignorância no mundo, ainda que virtual. E tome garotos de barba rala replicando clichês, sempre recomendando “Informe-se antes de defecar pelos dedos”. E respondido à altura por outros “bem- informados”.

Eu vejo muitos destes “simplificadores” como parentes intelectuais dos chamados “gurus da sedução”. Os “gurus da sedução” vendem seus cursos que asseguram aos possíveis compradores que estes “não darão conta” do número de mulheres que conquistarão após serem apresentados às “técnicas”. Como enumeram falhas elementares na comunicação entre os sexos nos ambientes sociais, não falta quem os acredite “especialistas”. Algum domínio de literatura de programação neurolinguística e observação da vida são, muitas vezes, o “instrumental” destes empreendedores. E quem nega que este conhecimento seja válido?

Não me junto aos que qualificam estes vendedores de “simplificação’” das relações pessoais como “picaretas”. Penso que se há gente disposta a pagar por cursos e material (livros e DVDs) sem se perguntar se o “guru” tem de fato um harém de mulheres atraentes que justifique sua autoridade proclamada nos vídeos do “YouTube” e por toda internet , eles, os “artistas da sedução” apenas atendem a demanda do desespero sexual.

Eu, para adquirir um curso do tipo exigiria que o autor tivesse no currículo conquista de atrizes, neste caso até faria empréstimo em banco.

Logo, só compra a fórmula pronta da felicidade quem quer.

E assim muitos buscam se livrar da chateação de ler livros para justificar status de bem-informado pelo atalho dos “simplificadores” convidados pela mídia.

Sempre se paga algum preço.

Leonard Cohen

A primeira vez que li o nome “Leonard Cohen” foi numa lista de músicos populares de predileção de Rainer Werner Fassbinder publicada no volume de ensaios e entrevistas “A Anarquia da Fantasia” (publicado nos anos ’80, pela Zahar).

Leonard Cohen aparecia em quarto lugar, precedido por 1- Elvis Presley, 2- Bob Dylan e 3-Rolling Stones. Beatles e Velvet Underground ficaram com o oitavo e nono lugares, respectivamente.

Se esta lista tinha ordem real de preferência do cineasta, ou se foi elaborada ao acaso, não importa. Me obriguei a me informar sobre o cantor e compositor.

Li sobre ele na “Bizz” e escutei algumas canções, e confesso conhecer muito pouco de sua obra. Muito aprecio deste pouco.

Seu nome foi muito citado por ocasião do Nobel de Literatura ao Bob Dylan, consideraram alguns que Cohen merecia mais. Ou Patti Smith.
Bem, John Lennon e Lou Reed morreram sem esta honraria, e nem por isto foram menores; nem eles nem os ganhadores do prêmio durante o tempo de vida dos dois autores.

Que se citasse um artista como Cohen desta forma é sinal do que hoje entendem por homenagear.

Homenageia-se mais um compositor ouvindo o que ele nos deixa em seus discos.

Conheço pouco Leonard Cohen, e sua morte me lembrou, de maneira amarga que não cumpri a promessa, feita a mim nos dias de adolescente, de conhecer seu trabalho, e fazer dele item de minha lista pessoal.

Agora é muito cedo.

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