“Notas”-26/11/2016

Morre Fidel Castro

Acordado com a notícia por minha mãe:

“Fidel Castro morreu, vamos ligar a TV.”

A ”GloboNews” e seu festival de especiais, reprises de especiais, e as reprises das reprises, em uma programação dedicada ao personagem histórico.  O último contemporâneo de Mao Tsé – Tung e John Kennedy, para citar dois ícones políticos do séc.XX.

Não analiso História com emoção, ou evito o quanto posso analisar História como se analisa campeonatos de futebol: grandes personalidades são grandes personalidades, a despeito de qualidades e defeitos. São tipos acima da média, e isto inclui santos e monstros, e constatar isto não é, de modo algum, relativismo, e sim senso de realidade histórica.

Vivemos dias de pouco apreço por estudo e ansiedade por opinar: da qualidade de pó de café a regimes políticos, a internet está cheia de digitadores capazes de proferir sentenças categóricas. Para mim, uma morte que é o ponto final de uma grande biografia, apenas.

O sonho cubano de muitos não morrerá com o líder de 90 anos, e nem toneladas de depoimentos do que é a vida na sua Utopia do Caribe fez, faz ou fará qualquer sonhador procurar outro sonho.

Lembro de amigo de meu pai, Esquerdista de décadas mais rigorosas para estes devaneadores: foi a Cuba e constatou o inferno que era a vida na ilha de estimação de gente que não tem, nem em pesadelos, que morar nela. Fotografou um funcionário na porta de um banheiro público: entregava a cada usuário da instalação sanitária seu meio metro de papel higiênico.

Alguém imaginou o velho Esquerdista (embora zombeteiro e crítico – fotografou o tal funcionário do banheiro público dizendo que mostraria o mundo os efeitos do embargo econômico, e riu para nós da credulidade do tal “homem do papel higiênico”) se demitindo da utopia? Não, escreveu mesmo texto emocionado sobre o “povo heroico e seu líder de estatura mundial”. Comunismo é religião, Arnold Toynbee escreveu algo do tipo.

O “GloboNews” exibiu um senhor de sapatos furados, um sapato que o era só em licença literária, e era seu único calçado.  Alguém acredita que um flagrante do tipo demole crenças? O embargo justifica tudo, aos olhos de fanáticos. E não faltam fanáticos procurando absurdos para abraçar como crenças, sobretudo num mundo cada vez mais vazio de símbolos.

E o próprio Fidel Castro reconheceu, em uma entrevista publicada em livro no Brasil (não lembro se o livro do Frei Betto, ou o do Joelmir Beting):

“Os russos construíram um programa espacial, mas não foram capazes de fabricar um par de sapatos decente.” Cito de memória, mas o espírito da citação era este: o Sonho tinha falhas, e ainda assim não deixava de ser algo a perseguir.

Quem não entender isto, continuará tentando argumentar racionalmente a sonhadores, e se desgastará no combate aos delírios.

Combater delírios com lógica elementar não seria loucura também?

Dizer a gays apaixonados por Cuba (ainda mais se forem destes ignorantes que nos recomendam leituras: “Vá estudar, não pense com a cabeça da Globo”) o que é (ou foi até há bem pouco tempo) o regime cubano para gays, não é desperdício criminoso de tempo?

Recomendar aos simpatizantes daquele tipo de regime político, “Vai prá Cuba”, não é apenas lembrar ao sonhador que seu local de sonhos existe?

Acredito mais na eficácia da construção de novos símbolos e novos paradigmas e deixar aos prisioneiros de miragens antigas…as miragens antigas.

Fernando Gabeira foi entrevistado pelo “GloboNews”, e lúcido e corajoso (é dele o melhor programa jornalístico do canal) constatou que muitos ainda nutrem romantismo pela ilha na qual morou um ano, e que o desencantou muito depressa.

Sempre haverá quem considere que Cuba dá ao homem o bastante, por acreditar que o homem não precisa de mais que aquilo, e por considerar que o homem não merece mais que aquilo. E aquilo significa na prática quase nada.

Sandro Vaia contou do desenhista de rua que lhe pediu roupas (ele deu muitas das que havia levado na bagagem). Vaia notou no povo desânimo para lutar contra o que tomava por destino irremediável. Lamento ele não estar vivo, adoraria ler o que ele na certa escreveria.

Não há nada a se comemorar na morte de Fidel Castro, e imaginar as lágrimas de Chico Buarque, Fernando Morais e Oliver Stone, três dos mais notórios apaixonados por Fidel, pode divertir, mas não atenua a irritação por saber que muitos ainda sonham aquele pesadelo, e que desejam realizá-lo e tentam sem pausa de um dia.

O Inferno é aqui, e sonhadores avivam as brasas sem descanso.

Claudio Tognolli

Claudio Tognolli demitido da Jovem Pan – a vergonha jornalística do ano, perda gigantesca para a empresa que perde um analista bem informado e provocativo .

Tognolli é dos maiores jornalistas do Brasil, e levará consigo muitos dos ouvintes.

Eu próprio tornei-me seguidor de seu canal no “YouTube”.

E, como muitos, espero o livro-bomba que ele anunciou, no qual contará como alguns  jornalistas estariam (segundo ele,Tognolli) agindo  como militantes partidários contra colegas.

Tomara que o livro também conte tudo sobre sua saída do 247, do qual foi um dos fundadores.

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